José Pertierra é advogado de imigração em Washington, foi acusador de Posada Carriles como parte do esforço legal multinacional para levá-lo à justiça por terrorismo contra Cuba – processo do qual escapou com a proteção dos Estados Unidos –, foi advogado de Elián González e de seu pai no famoso caso do menino cubano, entre outros, e é analista e comentarista sobre a relação bilateral e as relações interamericanas há décadas. Em conversa com o La Jornada, ele fala sobre a conjuntura da relação de Washington com Havana. Confira:
La Jornada: Há algo novo na relação bilateral com Cuba com a chegada, há seis meses, do segundo governo de Donald Trump?
José Pertierra: É uma continuação de Trump em seu primeiro período e de [Joe] Biden. É realmente uma continuação da política dos Estados Unidos em relação a Cuba, com a possível exceção do último ano da presidência de (Barack) Obama e a presidência de Carter. Mas tem havido, desde o triunfo da Revolução Cubana até agora, uma política cuja premissa é asfixiar o povo cubano para que se rebele contra o governo. E não funciona. Asfixiam e apenas conseguem, primeiro, irritar muitas pessoas e jogá-las ainda mais contra os Estados Unidos, e segundo, fazer com que saiam fugindo de Cuba e venham aos Estados Unidos em balsas ou a pé, com vistos, seja como for. Mas é a mesma política. Não mudou.
Alguns temiam que, com o retorno de Trump à Casa Branca, houvesse medidas mais extremas.
Há mais retórica, e com mais força. Mas a política é a mesma. Biden seguiu a política de Trump, e não a de Obama; já não estava muito bem da cabeça e atuou cercado por assessores que realmente conduziam a política externa dos Estados Unidos e seguiram a conduta de Trump. É asfixiar. É como o famoso memorando escrito em 1960 por um assistente do secretário de Estado, Lester Mallory, que deu o eixo do bloqueio. Qual era a finalidade? Asfixiar economicamente o povo cubano para que se rebelasse contra o governo. Essa é a mesma política do começo ao fim. Há algo pior que poderiam fazer e ainda não fizeram? Bom, colocaram uma sanção em Díaz-Canel, e agora não pode vir à Disneylândia.
Mas, por exemplo, reduziram-se os voos dos Estados Unidos para Cuba.
Sim, mas isso foi por razões econômicas, não porque os proibiram. Isso já ocorria durante Biden. O turista estadunidense, o cubano-estadunidense, não pode se hospedar em quase nenhum hotel devido às medidas de Washington. Assim, tem que ficar em casa, com a família ou em um Airbnb. E o que um cubano-estadunidense que vai a Cuba quer? Se hospedar em um hotel em Varadero ou em Havana, com piscina. Convidar a família para aproveitar o hotel, comer no hotel e desfrutar da piscina. Não quer ficar em uma casa em Havana Velha com apagões, esse turismo não faz sentido. Então as pessoas não vão.
Mas com as deportações de imigrantes cubanos – e venezuelanos – na Flórida, não estão ameaçando as bases que votaram por Trump e seu governo?
Sim, sai nas notícias que deportam um ou outro. Mas é a base dos republicanos que vota, e esses novos imigrantes não fazem parte dela. É uma vergonha a forma como a comunidade cubano-estadunidense se comporta em relação ao tema da migração. Veja, compare com Los Angeles: os chicanos (pessoas de ascendência mexicana que nasceram ou moram nos EUA) e os mexicano-estadunidenses que vivem na cidade saíram gritando para o ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas) “vá se ferrar”; um senador federal confrontou a secretária de Segurança Interna, foi derrubado no chão e levado preso por fazer perguntas e questionar as políticas anti-imigrantes… onde estão os politiqueiros cubanos de Miami? Bla, bla, bla. É uma vergonha, sinceramente. Não se esqueça de que o mexicano que cruzou a fronteira cruza 40 vezes, é deportado e volta. E tudo ilegalmente. O cubano veio com parole (proteção condicional) convidado pelos Estados Unidos e agora é deportado. Cancelam o parole antes de acabar e o deportam. Onde está o que, em inglês, chamamos de indignação da comunidade?
A esse respeito, surpreende, já que sempre falam dos que migram como exemplo da crise da Revolução, assim como sobre os venezuelanos.
A comunidade cubano-estadunidense de Miami é mais racista do que solidária, e também racista com sua própria gente e classista contra sua própria gente. O cubano-estadunidense que vive há muito tempo nos Estados Unidos vem de família abastada, educado e com a ajuda do governo estadunidense para conseguir empréstimos, ajuda alimentar, cheques de moradia, seguro saúde. Com tudo isso, avançar e se educar aqui é coisa para a classe média ou a classe média alta cubana. Quem veio a partir do Mariel e de outras ondas migratórias foi sempre visto com desprezo, e há uma divisão classista e racista em Miami. Não suportam os mexicanos, não suportam os haitianos, não suportam os cubanos recém-chegados.
Os sociólogos sabem mais do que eu sobre essa questão, mas a sensação que eu sempre tive quando fui a Cuba – e que me chama muito a atenção – é que o cubano-estadunidense que vive há muitos anos nos Estados Unidos e tem família em Cuba não vai a Cuba; os que vão são os recém-chegados.
O que é preciso entender, a que se deve atentar, no México e no resto da América Latina, para compreender a conjuntura da política estadunidense para Cuba?
Temos um valentão na Casa Branca que quer se tornar dono não só de Cuba, mas do planeta inteiro. E Cuba é um país que vem resistindo há mais de 60 anos. A política de mudança de regime continua igual – asfixiar, asfixiar e causar sofrimento ao povo. Eles dizem que estão fazendo isso para o povo cubano. Mas é o povo cubano que está passando mais dificuldades. E o governo estadunidense está usando a fome como arma de política externa, o que é uma violação do direito internacional. Segundo a Carta das Nações Unidas, não se pode usar a fome como ferramenta de política externa. Diga isso também aos israelenses. Então, por um lado, há isso, e por outro, há um grupo de energúmenos em Miami que quer invasão, que está pedindo intervenção militar. As consequências disso para os Estados Unidos são nefastas, porque a imigração ilegal massiva surge de uma situação instável e dramática em Cuba. E também não é possível fazer uma mudança de regime tão facilmente em Cuba. Há no país uma longa tradição de resistência contra os Estados Unidos.
Isso vai contra os interesses do povo cubano, do governo cubano e do governo estadunidense. Então, quem se beneficia desta política dos Estados Unidos?

