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Peru: Boluarte exalta “heróis” da repressão, reedita fujimorismo e mascara fracassos de governo

A canção infantil nos conta que Mambrú foi à guerra e ninguém sabe quando voltará. Pois bem, parece que sua versão feminina em nosso país também está disposta a ir à guerra. Assim indica o incendiário discurso que Dina Boluarte pronunciou em 11 de setembro, na sede do Governo, por ocasião de uma “homenagem aos heróis da democracia”.

Dá a impressão, no entanto, de que há aqui um certo mal-entendido. Para ela, os heróis da democracia não são os cidadãos que a enfrentam no cotidiano, mas aqueles que, nos anos do terror, mataram, torturaram, violaram, sequestraram, saquearam e incendiaram povoados inteiros sob o pretexto de “combater o Sendero”.

Pode-se supor que todos se reuniram naquela noite solene para receber abraços, beijos e medalhas, além de reconhecimentos que, mais adiante, deverão se traduzir em benefícios de outra natureza. Dá a impressão de que foram convocados todos: os de Accomarca, Umaro, Santa Rosa e Llocllaopampa; os de Huancapi e Pomatambo, Parcco Alto e Puccas, Cayara e Cangallo, os de Angaraes e Los Molinos. E outros também.

Provavelmente não compareceram, mas estiveram espiritualmente presentes os que assassinaram os nove estudantes e o professor em La Cantuta; os que mataram uma criança e vários moradores em Barrios Altos; os que sequestraram Pedro Ayala Sulca e o enterraram no estádio municipal de Huanta; os que violaram Georgina Gamboa; os que introduziram uma baioneta na vagina de Edith Lagos depois de ultrajá-la; os que consumaram os crimes em El Santa e Pativilca e planejaram o massacre dos jornalistas de Uchuraccay — e tantos outros em diversas regiões do país. Nosso martirizado país nunca teve tantos “heróis”.

Na verdade, o que Dina quis foi exaltar o que até agora constitui sua “obra-prima” em seu festim governamental: a Lei da Impunidade, que os juízes se recusam a aplicar, amparando-se no Controle Difuso, que lhes dá o direito de escolher entre normas civilizadas ou selvagens para punir delitos.

Para sustentar essa lei em outros cenários, Juan José Santiváñez, ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, viajou a Genebra, onde permaneceu isolado, como político em ostracismo, porque ninguém quis se reunir com ele. Lá, sentado no banco dos réus, coube a ele receber e escutar em silêncio a reprimenda de Volker Turk, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Depois tentou responder, sem ousar sustentar nada. Extremamente encolhido, só conseguiu dizer que, na visão de seu governo, os assassinos eram heróis. Depois disso, calou-se até o infinito.

Fato é que Santiváñez não tem mesmo muita autoridade para falar: é o único ministro da Justiça no mundo réu na Justiça de seu próprio país, e precisa pedir autorização judicial para viajar, além de bater ponto assim que retornar, porque, se não o fizer, vai preso.

Repressão avança no Peru e mobilização popular reage ao projeto autoritário de Boluarte

Como se sabe, Dina vive cercada por belicistas de meia pataca, que lhe propõem transformar o país em um cárcere gigantesco. E mais: exigem condenar o povo à prisão perpétua, submetê-lo ao veredito de tribunais escondidos, com juízes sem rosto, que emitam sentenças secretas, garantindo que os réus cumpram penas em centros clandestinos de reclusão.

Será nessas circunstâncias, dizem, que se imporá a verdadeira democracia. Nela, seus crimes e seus latrocínios estarão blindados — como já ocorre agora, quando se manifesta sua corte de sicários e aduladores com imunidade congressual. Neles, nem Satanás acredita.

No entanto, essa fórmula não é nova. Foi imposta pelo fujimorismo no final do século passado, e agora é saudada por todos os seus seguidores. Promovem sua reinserção no sistema de Justiça porque estão convencidos de que, por esse caminho, conseguirão erguer uma cortina tão alta que lhes permitirá esconder todos os seus crimes e latrocínios — como ocorreu no passado, quando o chefe de Estado transportava drogas no avião presidencial. Lembram disso?

Evidentemente, terão muito a esconder – ou tentar esconder. Para começo de conversa, há os negócios relacionados à aquisição de armas, aviões ou veículos de guerra, bem como a entrega, por 30 anos, do petróleo à Chevron, para que fortaleça a capacidade operativa dos Estados Unidos no mundo, já que não conseguem com a Venezuela. Adicionalmente, há outras trapaças que afetam inclusive a vida policial: lhes entregam fuzis sem balas e depois cobram por elas; os obrigam a comprar “coletes” de proteção que não servem para nada e os envolvem no descrédito de uma instituição apodrecida desde a cúpula.

No plano interno, a coisa não é diferente. A mineradora “La Poderosa, vinculada ao regime, obteve em concessão 114 mil hectares de terra, mas trabalha em apenas 3 mil. Dispõe de todos os recursos que o Estado proporciona — desde guarda e sistemas de segurança até pistas para aterrissagem de aviões de pequeno porte — o que lhe permite enviar ao exterior o ouro que não deseja declarar. Afinal de contas, poderosa é.

A guerra no Peru, então, tem suas extensões. Não se trata apenas de uma proclamação inflamável. É uma vontade ligada a uma prática concreta. Os discursos radicais, a linguagem de ódio e os gestos altivos de alguém que se considera muito valente são apenas o adorno de uma política destinada a explorar os peruanos.

Busca-se fazer com que o povo acredite que “a guerra continua”. E para que acredite, já surge uma nova “operação” no Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAE), onde revivem “colunas senderistas que atacam o Estado”. Como nos filmes de Hollywood dos anos 1950, a encenação é feita pela metade.

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O que se pretende com esse filme de terror de segunda categoria? Em primeiro lugar, fazer o Peru voltar ao passado, de modo que as pessoas se acostumem novamente e não pensem que a violência cotidiana se intensificou por culpa da incapacidade do regime ou por sua cumplicidade com ela, mas sim pela existência de um “imenso inimigo externo” que nos ameaça a todos.

A partir desse discurso, pode-se construir outro: o Peru é vítima de um ataque coordenado vindo de fora que devemos enfrentar com “patriotismo”, em nome da “soberania”. A “ofensiva” vem — não poderia ser diferente — de países cujos governos expressaram preocupação com o que ocorre no Peru. Venezuela, então, mas também México, Colômbia e outros que não optaram por se calar para não se tornarem alvos da fúria reacionária. Mesmo assim, devem ser enfrentados porque demonstram uma opção “ideológica”. Tudo isso somado à reabertura de El Frontón, e pronto…!

Talvez pensem que, rompendo com esses países, acabarão de uma vez por todas com o sicariato, a extorsão, o crime organizado e todos os outros matizes da atividade delituosa. Nem sequer se importam em saber que essa “atividade delituosa” tem outras causas. Tampouco lhes interessa saber.

O Ministério do Trabalho acaba de divulgar dados interessantes: há 12 milhões de desempregados no país, oito milhões dos quais são jovens com estudos concluídos e até diplomas universitários. Mas isso não é preocupação para o governo. Não vai declarar guerra ao desemprego, mas sim “ao terrorismo”. Nesse primeiro caso, não haverá heróis, nem medalhas, nem estipêndios.

Quando a versão feminina de Mambrú voltar da guerra, descobrirá que ficou sem país.

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