Série confirma que a arte no contexto palestino não é luxo: é necessidade existencial, memória contra o esquecimento
Os Donos da Terra não foi uma obra dramática passageira na temporada de Ramadan, mas sim um testemunho vivo de um tempo de feridas abertas. Não a assistimos como público distante da história, mas como pessoas que viveram seus detalhes e pagaram seus preços com sangue e memória. A série egípcia nos levou de volta à guerra de extermínio que ainda habita nossas almas, à morte repetida, à perda que se tornou parte do cotidiano e a imagens que não se apagam, por mais que tentemos seguir em frente.
Recordo um dos momentos mais difíceis da minha vida quando um dos centros de abrigo em Gaza foi sitiado e perdemos contato com meus familiares que estavam lá dentro. Dois dias completos sem qualquer informação, sem comunicação, sem nada que tranquilizasse o coração. O tempo parecia congelado e as possibilidades sombrias se multiplicavam na mente. Quando finalmente recebi notícias deles, isso não foi suficiente para apagar o peso daquelas horas. A sobrevivência foi temporária, mas o medo permaneceu na alma como uma cicatriz.
O que Os Donos da Terra fez foi trazer essa memória de volta com honestidade e responsabilidade. Não explorou a dor nem recorreu ao exagero, mas apresentou o sofrimento com dignidade humana. A atuação foi profunda e consistente, dando vida real aos personagens.
Mas não foi apenas a tela que evocou a dor — a memória pessoal também estava presente.
Lembro do martírio do meu sobrinho Yahya em 26 de março de 2024 (16 de Ramadan), enquanto cumpria seu dever como enfermeiro durante o cerco ao Hospital Nasser em Khan Younis. Perdemos totalmente contato com ele e vivemos dias entre esperança e medo até que o cerco terminou e seu destino foi revelado. Foi enterrado no pátio do Hospital Europeu de Gaza.
Depois veio uma dor ainda maior com o martírio de seu irmão Karam em 31 de agosto de 2025, quando recebi a notícia de sua morte no Hospital Al-Shifa, em Gaza. Choramos muito. Não era fraqueza, mas uma reação humana diante de uma tragédia que se repete.
“Yamma Mweel El Hawa”… quando a canção encontra a memória
A série trouxe de volta a canção que se tornou símbolo da dignidade palestina desde os anos 1970. Hoje, seu significado se tornou ainda mais forte.
A série e a canção se encontram em um ponto essencial: dignidade antes da segurança temporária, liberdade antes de uma vida sem sentido.
Arte como defesa da existência
Os Donos da Terra confirma que a arte no contexto palestino não é luxo, mas necessidade existencial. É memória contra o esquecimento.
No fim, tela e canção contam a mesma história: a história de um povo que insiste em viver com dignidade mesmo nos tempos mais sombrios.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

