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Ormuz: a carta estratégica do Irã contra a sanha petrolífera de Washington

As guerras dos Estados Unidos para se apoderarem do petróleo se tornaram um tema recorrente na política e diplomacia do país: desde o século 19, o conceito de Destino Manifesto inclui a expansão territorial e o controle dos recursos naturais, em especial do petróleo.

Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, o petróleo tornou-se um recurso estratégico, e os Estados Unidos utilizaram seu controle sobre jazidas petrolíferas para influenciar as estratégias militares de outros países.

Hoje, o petróleo continua sendo um fator-chave na política e na economia dos EUA, e o país desenvolveu diversas estratégias para garantir seu acesso a esse recurso vital.

Deve-se considerar que o Irã dispõe da terceira reserva de petróleo bruto mais importante do mundo, depois da Venezuela e da Arábia Saudita. O país é também o quinto produtor da  Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), atrás da Rússia, da Arábia Saudita, do Iraque e dos Emirados Árabes Unidos. Produz cerca de 3,3 milhões de barris diários, ou seja, 11% do total dos 12 países que integram a OPEP, o equivalente a 4,5% do bombeamento global.

As reservas da Venezuela estão agora supervisionadas pelos EUA e a Arábia Saudita é um país aliado de Washington, disposto inclusive a se envolver neste conflito contra o Irã, seu rival no Golfo Pérsico.

O Irã é um dos grandes abastecedores da China, para quem envia 90% de sua produção, o que corresponde a 10% das compras de petróleo bruto chinesas. Obviamente, na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA figura o estrangulamento energético da China, seu maior competidor global.

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Sendo o Irã um dos grandes abastecedores da China, é compreensível que Pequim tenha se preocupado e exigido o “cessar imediato” das hostilidades.

O Departamento de Justiça dos EUA apresentou uma ação judicial para tomar posse legalmente de um petroleiro sancionado e de quase dois milhões de barris de petróleo apreendidos ao largo da costa da Venezuela em dezembro — mais um passo do governo de Donald Trump para reafirmar seu poder sobre o setor petrolífero venezuelano após bombardear Caracas e sequestrar o mandatário Nicolás Maduro. É a primeira ação apresentada por Washington para iniciar o processo legal com o objetivo de assumir formalmente o controle de pelo menos um dos dez petroleiros interceptados pelas autoridades estadunidenses desde o final do ano passado.

O governo de Trump propôs-se a controlar a produção, o refino e a distribuição global do petróleo da Venezuela, e a decidir para onde fluem as receitas. Já começou a suspender sanções abrangentes para permitir que empresas estrangeiras operem na Venezuela e garantir a apropriação dos resultados de suas vendas.

É nesse contexto que os EUA bombardearam o Irã. Além de derrubar o regime islâmico iraniano e acabar com seu potencial bélico, interessava a Trump sobretudo se apoderar do petróleo do país, assim como fez com Caracas, e assim controlar o fluxo mundial do petróleo.

O Irã, porém, não é a Venezuela — o que talvez não percebam na Casa Branca, mas sabem muito bem em Israel. Netanyahu poderia ter dado esse passo há muito tempo, mas o risco era elevado demais e considerou ser melhor que fosse assumido pelos EUA, sobretudo porque desvia os olhares do genocídio em Gaza e na Cisjordânia. Interessa muito a Netanyahu que esta crise, transformada em guerra aberta, se estenda por toda a região, pelo menos como uma hecatombe econômica que faça tremer os mercados e alcance lugares tão distantes como a China ou a União Europeia.

Trump, então, deixou cair definitivamente a máscara de pacificador mundial e abandonou seu compromisso de evitar pela via diplomática que o Irã fabrique armas nucleares.

Os objetivos reais do ataque combinado lançado pelos EUA e Israel incluem ainda a consolidação do Estado judeu como superpotência aliada no Oriente Médio, já sem inimigos de peso na região, somado ao reforço do controle do fluxo mundial não apenas de petróleo, mas de gás.

Mercado em alerta

O que os EUA temem é o dano que Teerã poderia causar ao tráfico de hidrocarbonetos no Oriente Médio caso se veja sob uma ameaça existencial. Se o Irã atacar em represália as jazidas petrolíferas de seus vizinhos do Golfo — e tem capacidade para fazê-lo — ou fechar o estreito de Ormuz para a passagem dos petroleiros árabes, asiáticos e ocidentais, a catástrofe estará garantida.

Não por acaso, os mercados financeiros entraram em estado de choque diante da iminente paralisia do Estreito de Ormuz. Com o Brent se aproximando da barreira dos 100 dólares antes da abertura da última segunda-feira (2), a comunidade internacional observa com temor como esta escalada militar poderia se transformar, em questão de horas, em uma crise inflacionária a níveis não vistos desde os anos 1970, preveem analistas de Wall Street, e no início de um reordenamento forçado do mercado energético global.

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Quase todo o gás natural liquefeito (GNL) do Catar e o petróleo bruto da Arábia Saudita, do Iraque, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos dependem dessa via: não existem rotas terrestres ou gasodutos com capacidade suficiente para compensar um bloqueio desse estreito. (Imagem: NASA / Wikimedia Commons)

Especialistas do J.P. Morgan e analistas do Barron’s advertem que, se as hostilidades se mantiverem ou escalarem, o preço disparará rapidamente para a faixa de 100 a 150 dólares o barril. A combinação de uma operação de “mudança de regime” e a represália imediata do Irã contra aliados dos EUA criou um prêmio de guerra sem precedentes.

A maior ameaça para a estabilidade econômica é o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde transitam 20 milhões de barris de petróleo diários, o equivalente a 22% do consumo mundial, além de 20% do gás liquefeito. Um bloqueio, ainda que parcial, deixaria as refinarias da Ásia e da Europa sem fornecimento básico em questão de dias. A capacidade de resposta da OPEP, liderada por Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, permite injetar entre dois e três milhões de barris de petróleo adicionais por dia — o que será inútil se os mísseis iranianos alcançarem os terminais de exportação de seus vizinhos ou se a passagem por Ormuz permanecer minada.

Quase todo o gás natural liquefeito (GNL) do Catar e o petróleo bruto da Arábia Saudita, do Iraque, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos dependem dessa via: não existem rotas terrestres ou gasodutos com capacidade suficiente para compensar um bloqueio desse estreito.

O excremento do diabo

O venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonso, arquiteto da OPEP, previu em seu livro fundamental Afogando-nos no excremento do Diabo (1976) a cobiça e as pressões externas que iriam cercar a exploração petrolífera na Venezuela, décadas antes de os EUA agredirem o país e sequestrarem seu presidente.

O especialista advertiu que as divisas estrangeiras obtidas com a venda do petróleo bruto — chamado pelos indígenas pré-hispânicos de “excremento do diabo” — só podiam ser empregadas em bens e serviços estrangeiros. “Estamos obrigados a comprar coisas estranhas que, para trazer bom proveito, têm de combinar-se habilmente com bens e serviços nacionais a fim de satisfazer as verdadeiras necessidades dos venezuelanos.”

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