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Ofensiva de EUA e Israel contra o Irã repete roteiro da guerra no Iraque

Nesta semana, a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ganhou novos contornos, alcançando o nível de tensão global. O assassinato do líder supremo Ali Khamenei gerou uma onda de ataques em série que pressionam rotas energéticas do comércio internacional — com o Estreito de Ormuz parcialmente paralisado e navios retidos, fazendo o preço do petróleo disparar mundialmente.

Donald Trump e os senhores da guerra vendem ao mundo a falácia de mais uma “operação cirúrgica” — a outra foi contra a Venezuela — apresentada como inevitável para garantir a segurança mundial. A ladainha foi repetida pelo chanceler alemão Friedrich Merz que, após encontro com o presidente estadunidense, disse compartilhar o desejo de se “livrar do regime iraniano”. Anteriormente, diante do Conselho de Segurança Nacional, afirmou que o Irã é uma ameaça à paz e à segurança.

A máscara caiu e a Europa passa a defender abertamente ataques contra um país soberano à revelia de todo o sistema do direito internacional, da Organização das Nações Unidas (ONU) e de seu Conselho de Segurança, em nome da mudança de regime. O argumento da segurança — entenda-se, a segurança israelense — funciona como senha: não se trata de um risco concreto, mas de uma justificativa para a agressão e tudo o que vem junto a ela — sanções, bombardeios, assassinatos políticos e, por fim, a tentativa de reorganizar um país inteiro a partir de fora.

Outros argumentos contra o Irã aparecem dispersos na mídia e nos discursos de líderes ocidentais: teocracia, atraso, violação de direitos humanos, direitos das mulheres, falta de democracia. São slogans que anestesiam a opinião pública enquanto o objetivo real avança: desorganizar um polo regional que limita Israel, reposicionar correlações de força no Oriente Médio e reafirmar o princípio que estrutura o imperialismo contemporâneo.

Guerra preventiva, propaganda e fabricação da ameaça 

O mundo já viu esse enredo, mas com outro nome: Guerra no Iraque. Em 2003, também se invocou a defesa da segurança internacional para justificar uma “guerra preventiva” baseada em mentiras. O resultado foi a destruição de um Estado, décadas de instabilidade regional e uma guerra cujas consequências ainda moldam o Oriente Médio.

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Há outro paralelo histórico ainda mais dramático — e que Merz parece fazer questão de varrer para debaixo do tapete: Gleiwitz, agosto de 1939, quando o regime nazista encenou um ataque à estação de rádio alemã para “provar” uma agressão polonesa que nunca existiu e, com isso, fabricar a legitimidade política para invadir a Polônia, fato que desencadearia a Segunda Guerra Mundial.

Temos, portanto, uma engrenagem recorrente do poder: primeiro se produz a narrativa do perigo, depois se apresenta a violência como resposta “obrigatória”, “defensiva”, “inevitável”. É a alquimia da propaganda convertendo mentira em ameaça e ameaça em licença para atacar quem não atacou.

Guerras iniciadas sob mentira e arrogância raramente têm fim controlável. Elas se espalham, atraem novos atores, transbordam fronteiras. Neste caso, a tendência é novamente transformar o Oriente Médio em campo de instabilidade permanente e exportar os efeitos, sobretudo econômicos, para quem já vive sob vulnerabilidade.

Mudança de regime e laboratórios de guerra 

A doutrina da “mudança de regime” pela força foi testada, refinada e exportada durante décadas na América Latina, com golpes, guerras sujas, bloqueios e terrorismo de Estado terceirizado patrocinado pelos Estados Unidos. Gaza também se converteu, mais recentemente, em laboratório de devastação, desta vez pelas mãos de Israel.

Mas é uma ilusão acreditar que o mesmo roteiro se transplanta sem custo para o território histórico do antigo império persa, com sua densidade institucional, memória política e redes regionais.

A Revolução Iraniana não produziu um poder concentrado em uma única figura que, eliminada, derrubaria o edifício como um dominó. Ela instaurou um sistema político complexo, com camadas de decisão e reprodução de autoridade que não se resumem ao líder espiritual.

A morte de Khamenei não equivale automaticamente, portanto, a “abrir caminho” para um novo arranjo político. Não existe uma oposição nacional pronta, coesa e capilarizada capaz de ocupar o vazio e assumir o controle do país como se fosse um tabuleiro. Mesmo que comandos militares tenham sido “decepados”, a engrenagem institucional não desaparece por decreto: há cadeias de comando, mecanismos de recomposição e continuidade do Estado.

Guerra regional, eixo da resistência e diplomacia sabotada 

Israel, por sua vez, depois de operar Gaza mais uma vez como laboratório de devastação genocida, tenta expandir o raio de destruição para além do enclave. O alvo é o chamado eixo da resistência, a rede político-militar articulada pelo Irã e composta por Hezbollah no Líbano, Hamas e Jihad Islâmica Palestina, Ansar Allah (houthis) no Iêmen, além de milícias xiitas no Iraque e grupos na Síria.

A guerra contra o Irã, portanto, não é um episódio isolado. Ela funciona como etapa de uma estratégia mais ampla: enfraquecer o principal polo regional capaz de sustentar alianças, capacidade militar e articulação política que contrariam os projetos do imperialismo estadunidense.

Há ainda outra contradição devastadora. O chanceler russo Sergey Lavrov apontou que, se Europa e Estados Unidos realmente temessem o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã, o caminho jamais deveria ter sido a agressão militar. Aliás, analistas russos são quase que unânimes em apontar que o Ocidente deu a Teerã o argumento perfeito para – agora sim – desenvolver uma bomba atômica. Afinal, países com armas nucleares não são bombardeados.

Diplomacia como instrumento de guerra 

Sob a presidência de Trump, o direito internacional vem sendo rasgado diante do mundo, que assiste em silêncio. O ápice desse processo foi a agressão ao Irã enquanto ainda havia uma via diplomática em curso. Conversas em Viena continuavam e havia sinais públicos de disposição iraniana para negociar. Washington e Tel-Aviv, no entanto, utilizaram o diálogo como cortina de fumaça para trair Teerã e assassinar Khamenei.

Torna-se cada vez mais difícil sustentar, portanto, que o objetivo real dos Estados Unidos era um acordo sobre o programa nuclear iraniano. Se fosse, a história oferece uma prova incômoda: o entendimento costurado em 2009 com protagonismo do Brasil, na figura de Celso Amorim, poderia ter sido aprofundado e fiscalizado. Não foi.

Porque a meta central sempre pareceu outra. Não se trata apenas de conter um suposto programa nuclear ou garantir “segurança regional”. O objetivo é reduzir o poder dissuasório do Irã, asfixiar sua economia e enfraquecer sua capacidade de defesa diante das agressões contínuas de Israel.

Ao mesmo tempo, busca-se abrir caminho para o controle de suas vastas reservas de petróleo e neutralizar qualquer ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das artérias energéticas mais estratégicas do planeta.

Mas o cálculo vai ainda além. A guerra contra o Irã também responde a uma lógica geopolítica mais ampla: conter a expansão da China, da Rússia e do Brics como polos de poder em um mundo que se move, cada vez mais rapidamente, para além da hegemonia dos Estados Unidos.

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