As consequências serão sentidas por anos, e as feridas abertas funcionam como um sinal de alerta para países como o Brasil — que precisa, cada vez mais, fortalecer uma democracia
Sob a acusação de narcoterrorismo, envolvimento com o tráfico de drogas e comércio de dispositivos militares, movida pelo Estado de Nova York, Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, tornou-se alvo das recentes investidas de Donald Trump na América Latina. A recompensa pelo líder chavista alcançou 50 milhões de dólares.
A captura de Maduro em Caracas, em 3 de janeiro de 2026, por forças especiais dos EUA, realizada de forma irregular e contrária aos ditames do direito internacional, foi precedida por movimentos de exclusão naval e incursões aéreas que resultaram na violação territorial unilateral de um Estado soberano, sem declaração formal de guerra e sem precedentes na história recente da América Latina.
O comportamento arbitrário do governo dos EUA remonta à aplicação da Doutrina Monroe, que justificava a atuação do país na América Latina. Ao mesmo tempo, Washington não possui um histórico de construção de laços com os países da região, relegando-os a uma posição de menor importância. Essa diretriz foi aprofundada durante a Guerra Fria, período marcado por intervenções e pela constituição de regimes voltados ao afastamento do comunismo, uma vez que os EUA disputavam espaços de influência com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Após o fim da Guerra Fria, a reconfiguração da ordem mundial em curso, somada ao ressurgimento da Rússia e da China no cenário global, tem forçado os EUA a reposicionar sua política e atuação internacionais. Conflitos recentes, como os da Ucrânia e da Palestina, revelam a face imperialista da estratégia estadunidense, voltada a assegurar acesso a recursos e, ao mesmo tempo, demonstrar vigor diante de seus rivais estratégicos.
Por isso, é necessário considerar de forma mais profunda a ação militar ocorrida em Caracas. Trata-se de uma intervenção cuja repercussão carrega recados às demais potências envolvidas em operações militares em outros cenários. O perigo dessa ação de Trump, que deve ser rechaçada pela comunidade internacional, reside no uso unilateral da força, prática que se mantém viva em diferentes regiões do globo por meio da violência em conflitos de fundo econômico.
Ressalta-se, ainda, que as acusações dos EUA, aliadas à inércia da Organização das Nações Unidas (ONU) nos últimos anos, mostraram-se catastróficas e nunca foram comprovadas, o que contribui para o descrédito dos Estados Unidos e, por conseguinte, para o questionamento da democracia. Esse cenário tem servido de base para o avanço da extrema-direita em escala global.

Portanto, as consequências desse ato serão sentidas por anos, e as feridas abertas funcionam como um sinal de alerta para países como o Brasil — que precisa, cada vez mais, fortalecer uma democracia sob ataque sistêmico. Diante das mudanças na condução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2026 e do pleito presidencial, o país deverá ser resiliente em tempos disruptivos, marcados por ações midiáticas cujas repercussões agravam os desafios à manutenção da paz mundial.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

