“Quem não está comigo está contra mim (…)” [1]
“Soberano é quem decide sobre o estado de exceção” [2]
Um espectro ronda o Brasil, e não é o do Comunismo, conforme a predição de Karl Marx (1818 – 1883) para a Europa — em seu “Manifesto Comunista”, de 1848 — e a obsessão de muitos brasileiros que sequer sabem o que significa o termo “mais-valia”.
A cineasta Petra Costa (1983), em seu documentário “Apocalipse nos Trópicos”, capturou com suas objetivas não o espectro de Marx, mas o avanço real de um poder teológico-político que os indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mapeiam desde os anos 1980: o crescimento vertiginoso do evangelicalismo. Mais do que um fenômeno demográfico, o que se revela é a ascensão de figuras como o pastor Silas Malafaia (1958), a voz mais agressiva do bolsonarismo. Sua recente inclusão no rol de investigados da Polícia Federal por atentar contra o Estado de Direito não é um fato isolado, mas a consequência lógica de um projeto de poder que visa refundar o Brasil à sua imagem e semelhança.
O historiador britânico Eric Hobsbawm (1917 – 2012), em “A Era dos Extremos”, já havia diagnosticado este cenário: o colapso das grandes utopias seculares no século 20 deixou um vácuo de sentido. No Brasil, este vácuo foi pragmaticamente preenchido pela promessa de ganhos imediatos na Terra – a chamada “Teologia da Prosperidade”, que líderes como Silas Malafaia manejam com notável eficácia para uma massa desassistida pelo Estado. Em vez de esperar por uma revolução distante, oferece-se a bênção material aqui e agora, promovendo um poderoso reencantamento do mundo em chave capitalista e individual.
A nova paisagem religiosa, mapeada pelo IBGE desde os anos 1980, revela uma revolução demográfica sem precedentes. Naquela década, o Brasil contava com 90% de católicos contra 6% de evangélicos. Os dados de 2022, porém, atestam não uma transição gradual, mas uma avalanche de conversões que desafia os sociólogos: os católicos decresceram para 56,7% da população, enquanto os evangélicos saltaram para 26,9%.
Esta fé não se traduz numa expressão passiva, que espera na imanência sua salvação eterna. Seus conversos desejam a instalação do Reino de Deus na Terra, aqui e agora, e veem na política nacional hodierna o principal instrumento de operação para alcançar tal intuito.
A hegemonia católica ruiu precisamente no período da redemocratização. O passaporte para a relevância política, antes chancelado por outras instituições, passou a exigir o selo de aprovação de uma nova força. O marco desta mudança é indelével: se em 1985 Fernando Henrique Cardoso (1931) pôde se esquivar sobre sua fé e ainda assim governar o país, em 2002 a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (1945) já dependia de alianças explícitas com este novo eleitorado. Foi nesse momento que, a partir da Zona Norte do Rio de Janeiro, emergiu a figura que melhor encarnaria a face pública deste poder: Silas Malafaia.
E, por uma dessas ironias da História, no exato momento em que o poder de Malafaia se consolidava em Brasília, o pontificado intelectual de Bento XVI (2005 – 2013) dava lugar, em Roma, à agilidade pastoral do jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio: o Papa Francisco (2013 – 2025). É neste ponto que se cristalizam os dois projetos em disputa: de um lado, um cristianismo que busca a conquista do Estado pela lógica schmittiana do amigo-inimigo; de outro, uma fé que busca interpelar o poder a partir da defesa dos excluídos. Este ensaio se debruçará sobre esta dualidade que, hoje, disputa a consciência da República.
A anatomia do poder
O mundo intelectual de Malafaia é simples; não oferece perigo. O que corta como lâmina é sua língua: uma retórica hipnótica, repetitiva e estruturalmente eficiente. Ele parte de uma premissa schmittiana – definir o inimigo – para em seguida armar os exércitos que lutarão ao seu lado. Arrogando para si a voz de todo o “povo evangélico”, ele mobiliza o termo bíblico “nação” para definir sua tribo: a heteronormativa, branca e, acima de tudo, fiel à sua liderança.
Embora, com uma boa dose de probabilidade, nunca tenha lido o jurista alemão Carl Schmitt (1888 – 1985), ele opera por sua lógica filosófico-política. Cria uma espécie de “estado de exceção” schmittiano. Suspende, pelo discurso, as regras do sistema democrático brasileiro. Elege como inimigo o Ministro do Supremo Alexandre de Moraes (1968), o comunismo e o Presidente Lula: todos eles são anulados, não há espaço para negociação. A execução de sua ópera bufa resulta numa convocação para a guerra total contra os dois maiores nomes da República, e contra uma ideia difusa. A operação intelectual que utiliza, repito, é simples, mas a retórica inflamada e a energia para proclamá-la são eficientes. O gestual corta o ar enquanto fala, perdigotos inundam o microfone, a língua salta da boca, e uma multidão na Av. Paulista pula e grita como se estivesse numa micareta de Jesus, onde a guitarrada vem da boca do homem Silas.

Malafaia se converte então num jesuíta canhestro, sem Exercícios Espirituais, sem Constituição, sem ardor Missionário legítimo, que o levaria às costas da Indonésia para pregar, se necessário, e, o mais importante, sem o quarto voto feito pelos jesuítas ao Papa, aquele da obediência irrestrita ao pontífice que a maioria das ordens católicas não o faz. Malafaia faz o Quarto Voto unicamente a si mesmo, e sua lealdade flutua conforme as circunstâncias do poder: ontem com o Lula de 2002, hoje com o bolsonarismo, amanhã com quem detiver as chaves do cofre e do palácio.
O contraste com o jesuíta de formação, o Papa Francisco, é absoluto. Se o corpo de Malafaia é um espetáculo de agressão provinciana, o corpo ferido do pontífice foi seu próprio grito silencioso. Seus gestos foram medidos não por fraqueza, mas por necessidade: não falou para a Avenida Paulista, mas para os quatro cantos de um globo fraturado. O homem que se vestiu de branco se opõe ao homem em mangas de camisa amarelas, que faz do patriotismo, como sentenciou Samuel Johnson (1709 – 1784), o seu último refúgio.
Por natureza e projeto, Francisco não pôde operar sob a lógica schmittiana. Seu método foi outro, e pode ser descrito pelo conceito foucaultiano de parrhesia: a coragem de dizer a verdade ao poder, arriscando-se no processo. Seu capital político não foi uma denominação religiosa, mas a autoridade moral para interpelar o sistema financeiro, a indústria bélica e a indiferença global. Não buscou tomar o poder, mas desnudá-lo.
A Polícia Federal, portanto, não investiga um pastor, mas um projeto de poder que só serve a si mesmo e que jurou fidelidade à exceção como regra. Este projeto está fadado ao fracasso, não por paralelos históricos complexos, mas por uma lógica imanente: a exceção permanente que Malafaia propõe exige a criação constante de inimigos, até que a própria República se torne o inimigo final. Nesse ponto, ou o projeto devora o Estado, ou o Estado, por sobrevivência, age para conter o projeto. É o que assistimos agora.
Em meio ao rio caudaloso e hostil da política contemporânea, Francisco se esforçou para construir uma ponte, ciente de que ela é a única via para um futuro que não nos anule, mas nos enriqueça. O projeto de Malafaia, por outro lado, dinamita todas as pontes em nome da pureza de sua cidadela. Para o Brasil, a escolha se impõe com urgência: ou a travessia arriscada rumo ao outro, ou a segurança do bunker, entrincheirados em uma batalha inglória e permanente contra nós mesmos.
Notas
[1] Mt, 12, 30. Bíblia Sagrada. São Paulo – SP. Editora Ave-Maria. 289. Edição.
[2] SCHMITT, Carl. Teologia Política. São Luís do Maranhão – MA. Ed. Livraria Resistência, 2024, p. 60.
* Imagens na capa
– Silas Malafaia: Alan Santos – Palácio do Planalto / Flickr
– Papa Francisco: Igreja Católica da Inglaterra e País de Gales / Flickr

