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O mito da “Europa civilizada” | Pt. 2: Renunciar à subalternidade e fortalecer a autoestima no Brasil

  • Esta análise compõe uma série de dois artigos de Verbena Córdula. Confira a primeira parte:

O mito da “Europa civilizada” | Pt. 1: a bonança construída sobre saques e extermínios

Infelizmente, o Brasil ainda parece não ter internalizado a necessidade de se afirmar como uma nação autônoma, como uma cultura rica e múltipla, que não depende da aprovação do “mundo civilizado” para existir. O culto à imagem de países europeus e a constante comparação com o Ocidente alimentam uma mentalidade de subordinação, que sugere que nós, brasileiras e brasileiros, devemos, de alguma forma, nos espelhar em modelos estrangeiros, muitas vezes ignorando nossas próprias realizações históricas, culturais e sociais. Essa visão distorcida enfraquece a autoestima coletiva e, sobretudo, dificulta a construção de uma identidade nacional genuína, que reconheça as nossas  raízes indígenas, africanas e mestiças, sem a necessidade de buscarmos constantemente uma validação externa.

É urgente que o Brasil se liberte dessa mentalidade subalterna e passe a se afirmar com orgulho de sua própria história e cultura. Em vez de adotar o papel de coadjuvante na narrativa global, o país precisa se posicionar como protagonista de sua própria trajetória. A riqueza cultural brasileira, com suas manifestações artísticas, literárias, musicais e sociais, deve ser reconhecida como uma força. O nosso país precisa entender que, longe de ser um “apêndice” do Ocidente, é uma potência regional com um legado profundo, que deve ser celebrado e valorizado internamente.

China como exemplo

O combate a esse espírito de subserviência começa na educação, com uma revisão crítica da história que leve em conta as realidades das opressões coloniais e seus efeitos duradouros. O Brasil precisa ensinar sua própria história com autonomia e coragem, destacando a resistência de seus povos e as conquistas que, muitas vezes, são ignoradas ou minimizadas no contexto global. Isso não significa um nacionalismo isolado ou xenófobo, mas um reconhecimento da identidade e da contribuição brasileira no cenário internacional. O país não pode continuar a olhar para o passado e ver seu próprio desenvolvimento como algo a ser validado por potências estrangeiras.

Ao mesmo tempo, é necessário que o Brasil assuma um papel mais ativo e autossuficiente nas relações internacionais. Isso implica reforçar sua soberania política, econômica e cultural, buscando alianças que respeitem suas particularidades e não sua subordinação. Para isso, precisa fortalecer suas instituições, promover a justiça social e garantir que os direitos humanos sejam respeitados em seu território, sem a necessidade de recorrer a “modelos” estrangeiros que não consideram a realidade local. Em última instância, é preciso que nós, brasileiras e brasileiros, compreendamos que nossa grandeza está na diversidade, na capacidade de transcender os limites impostos pelo colonialismo e, principalmente, na construção de um futuro que se baseie em nossas próprias necessidades e aspirações, sem nos curvarmos às expectativas de outras nações.

A afirmação do Brasil no cenário mundial — para ser verdadeira e eficaz — depende essencialmente da valorização de nossa própria história e cultura. Não podemos continuar nos deixando consumir por um complexo de inferioridade que perpetua a ideia de que só podemos ser verdadeiros “protagonistas” globais se seguirmos os moldes de nações mais poderosas ou se buscarmos constantemente a validação externa. Ao contrário, devemos reivindicar nosso lugar no mundo com orgulho, reconhecendo nossas falhas, mas também celebrando nossas vitórias e riquezas culturais. Ao fazermos isso, seremos capazes de construir uma nação que se reconhece plenamente em sua identidade e no poder de sua própria história. Para tanto, é necessário, em parte, que combatamos o espírito de subordinação que ainda persiste em muitas esferas da nossa sociedade.

A trajetória recente da China — especialmente nas últimas décadas — é um reflexo poderoso de como uma nação pode se reerguer de um passado de subordinação e humilhação para se tornar uma potência econômica e política mundial. A ascensão da China se deu, entre outras questões, pela forte valorização de sua própria história, cultura e identidade. Apesar das suas imperfeições e contradições, aquele país asiático tem sido um exemplo de autoestima nacional e de como a afirmação da identidade cultural pode ser um motor de crescimento e influência global. 

O Brasil, por sua diversidade e capacidade de dialogar com múltiplas tradições, tem potencial para se tornar um articulador de novas perspectivas e, com isso, contribuir para uma ordem internacional menos hierárquica e mais inclusiva. (Imagem: Gerada por IA)

A China não busca se alinhar com modelos ocidentais de governança ou democracia liberal, e, apesar das críticas que recebe, seu sucesso está em sua capacidade de afirmar um projeto nacional autêntico. Para o Brasil, esse exemplo deve ser observado com atenção. Em vez de buscar referências de nações que impõem seus próprios valores como padrão global, devemos olhar para nossa própria trajetória de resistência, criatividade e superação. Em vez de ser um “aluno” que constantemente pede a aprovação do Ocidente, o Brasil deve começar a se comportar como um sujeito ativo e confiável no cenário global, com um projeto que respeite suas especificidades culturais e históricas.

Somente a partir de uma autoestima sólida e uma identidade nacional forte é que o Brasil poderá se posicionar de maneira mais justa e propositiva no cenário internacional. E, ao aprender com exemplos como o da China — que, embora não isenta de críticas, soube resgatar e afirmar sua autonomia com força —, o nosso país poderá redescobrir seu poder de transformação e de influência, tanto dentro de suas fronteiras quanto além delas.

Ao fortalecer sua autoestima e sua identidade, o Brasil também será capaz de desafiar a narrativa eurocêntrica que ainda domina muitas discussões globais. A Europa, com todo o seu peso histórico e cultural, deve entender que outras nações, como o Brasil, possuem trajetórias próprias e têm o direito de moldar seu futuro sem se submeter a modelos externos. Ao assumir com firmeza sua pluralidade cultural, histórica e social, o Brasil se posicionará como protagonista de sua própria história, mas, principalmente, reivindicará um espaço legítimo na redefinição das dinâmicas internacionais.

Desafiar o eurocentrismo não implica rejeitar a Europa ou seu legado, mas equilibrar vozes, permitindo que narrativas latino-americanas, africanas e asiáticas ganhem a mesma legitimidade no debate global. O Brasil, por sua diversidade e capacidade de dialogar com múltiplas tradições, tem potencial para se tornar um articulador de novas perspectivas e, com isso, contribuir para uma ordem internacional menos hierárquica e mais inclusiva.

Além disso, fortalecer a autoestima nacional envolve reconhecer o valor estratégico do país — seja em biodiversidade, criatividade cultural, inovação social ou poder geopolítico. Trata-se de uma compreensão madura de que o Brasil não é um mero receptor de modelos estrangeiros, mas um produtor de soluções próprias, capazes de dialogar com o mundo de igual para igual.

A ascensão chinesa ao status de potência global não ocorreu por acaso. Foi resultado de políticas de Estado de longo prazo, que priorizaram a formação de cientistas, de engenheiros e de profissionais altamente qualificados; da modernização das universidades; da criação de centros de pesquisa de ponta e do incentivo à inovação tecnológica como base no desenvolvimento econômico e na soberania nacional. A China compreendeu que um país só conquista respeito internacional quando domina conhecimento avançado, e não quando depende dele.

Para o Brasil, seguir um caminho semelhante significa romper com ciclos de descontinuidade e de improviso. É necessário transformar educação e ciência em pilares nacionais, o que não é feito com slogans eleitorais a cada quatro anos. Isso implica desde a garantia de uma educação básica de qualidade — capaz de desenvolver pensamento crítico, criatividade e alfabetização científica — até o fortalecimento das universidades e dos institutos de pesquisa, com investimentos estáveis, carreiras estruturadas e projetos estratégicos que articulem governo, setor produtivo e Academia.

Combate ao eurocentrismo é ruptura

Ao mesmo tempo, é preciso criar um ecossistema de inovação que reduza a dependência tecnológica externa, o que inclui criar e apoiar indústrias de alta complexidade, ampliar laboratórios públicos e fomentar uma produção científica que dialogue diretamente com desafios nacionais, como agricultura familiar, saúde e tecnologia digital — somente para citar alguns. O exemplo chinês demonstra que nenhum país avança sem dominar tecnologias-chave, e que soberania, no século 21, depende tanto de chips e algoritmos quanto de território e recursos naturais.

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Só assim o Brasil poderá deixar de ser visto como um fornecedor de commodities e passar a ser reconhecido como um centro de inteligência e inovação global. Investir em educação, ciência e tecnologia não é apenas uma estratégia de desenvolvimento: é um ato de afirmação nacional, um caminho para que o país realmente se enxergue — e seja visto — como protagonista de seu próprio destino.

E, ao trilhar esse caminho, o Brasil também fortalecerá a sua capacidade de desafiar o eurocentrismo que por tanto tempo ditou padrões, modelos e referenciais de progresso. Quando um país desenvolve saberes próprios, produz tecnologia de ponta e consolida instituições científicas robustas, deixa de depender das narrativas e das estruturas de conhecimento produzidas exclusivamente na Europa, passa a participar da conversa global com voz autônoma, propondo soluções enraizadas em sua realidade, e contribuindo para a pluralidade de perspectivas que o mundo contemporâneo exige.

Ao afirmar seu poder intelectual e tecnológico, o Brasil se emancipa das hierarquias históricas, e, sobretudo, demonstra que o conhecimento não tem um centro único — e que a construção do futuro será tanto mais rica quanto mais diversa for a origem das ideias que o moldam. Combater o eurocentrismo, portanto, é um gesto de ruptura, mas muito mais de equilíbrio; significa incluir plenamente o Brasil entre os produtores de conhecimento, de inovação e de sentido no cenário internacional.

Da Namíbia ao Pará: Merz e o imaginário alemão de grandeza

O mito da Europa civilizada é uma construção histórica que, ao longo dos séculos, foi amplamente difundida para justificar a superioridade cultural, política e econômica do continente europeu em relação ao restante do mundo. Essa narrativa, que remonta à era colonial e aos discursos iluministas, tratou outras culturas como “selvagens” ou “primitivas”. Esse mito foi instrumentalizado para legitimar a dominação imperialista, o extermínio de povos nativos e a exploração de recursos e territórios fora da Europa. Ao retratar os europeus como portadores de valores universais e civilizatórios, o mito da Europa civilizada silenciou as vozes das culturas não-europeias, minimizando suas complexidades e conquistas, e ainda hoje reverbera em muitos debates globais, reforçando estruturas de poder desiguais e uma visão eurocêntrica do mundo. Desafiar essa narrativa é essencial para reconhecermos a pluralidade de civilizações e os muitos saberes e conquistas que existiram fora dos limites do continente europeu.

É fundamental que os povos do Sul Global, incluindo o Brasil, invistam na desconstrução desse mito, pois essa narrativa distorce a história e perpetua desigualdades estruturais no cenário global. Ao questionar essa visão eurocêntrica, os países do Sul podem recuperar suas próprias histórias, saberes e tradições, afirmando suas identidades de maneira autônoma e resistente às imposições externas. Isso é também um ato de libertação intelectual, um movimento necessário para que as sociedades do Sul Global não se vejam mais como periféricas, mas como atores essenciais na criação de um novo mundo multipolar, onde diversas formas de saber e de ser coexistem e se reconhecem. Ao investir nesse processo de reconstrução e de afirmação de suas próprias narrativas, nossos países podem promover uma nova ordem mundial, mais justa, inclusiva e capaz de olhar para o futuro sem o fardo de um passado colonial.

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