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“Nós somos a Revolução”: em Cuba, se luta e se resiste como mulher

Cuba, sob um bloqueio criminoso.

Emma Doris Ricardo Santana é professora do ensino superior, mas teve que interromper seu trabalho porque o mal a assaltou. Há alguns meses, teve um agressivo câncer de mama. E, por culpa do bloqueio econômico estadunidense contra a ilha, não pôde receber o tratamento completo para sua cura. Não havia naquele momento soros citostáticos suficientes para combater a doença.

Para enfrentar a adversidade, teve que ir a três hospitais diferentes, buscando em cada um deles o medicamento necessário. O transporte para as distintas instalações médicas tornou-se um calvário. Um enfermo com um padecimento tão devastador e um tratamento tão invasivo sofre para ir de um lado para outro. Mesmo assim, foi em frente.

Finalmente, Emma pôde ser atendida graças à infraestrutura sanitária e ao apoio de seu esposo, de seus companheiros de trabalho e de sua comunidade. Rememorando sua cruzada, diz comovida: “Os remédios curam, mas a solidariedade também. Te faz levantar.”

Ao longo de um ano, enquanto convalescia, a docente esteve desvinculada de seu trabalho. Já se reintegrou. E recuperou o cabelo que perdeu nas quimioterapias. É mãe de dois filhos, uma delas chamada Claudia, que acaba de fazer 10 anos. Tristemente, a menina também tem uma doença: não cresce. Mas não há reativos no país para poder atendê-la. Sentada em uma poltrona enfeitada com macramê, com uma prateleira às suas costas com vasos e coloridas flores de plástico, diz:

A maior prioridade da família é ela. Mas, o que fazer? A menininha requer um tratamento que ainda não podemos proporcionar aqui em Cuba. Não há hormônios do crescimento. Não chegam por causa do bloqueio. É muito complicado, mas mesmo assim é preciso seguir em frente.Emma Santana

Sobrevivente do câncer e com uma filha enferma, não se rende. Não pode. A mulher cubana — explica — é forte, é valente. Mais que os homens. Tem uma responsabilidade muito grande, pois apoia o homem, guia a família, contribui com a sociedade profissionalmente, tem que se superar, e quando chega em casa deve preparar os alimentos e enfrentar todo tipo de vicissitudes. Deve educar as novas gerações, seus filhos, e conversar com eles.

Reflexiva, situa o agravamento de seus padecimentos como parte de um contexto mais geral.

Não deixamos de buscar alternativas — afirma — para remediar a situação provocada pelo bloqueio. Em todas as arestas de nossa vida social, está presente. Nos impõe todo tipo de carências, desde os alimentos até as necessidades mais básicas. Mas os cubanos somos valentes e perseverantes ao buscar alternativas para resistir.Emma Santana

E conclui: “Estou com as botas postas. Não vamos nos intimidar. A rendição não cabe no cubano. Nosso destino somos nós que temos que decidir. Ninguém mais.”

Ânsia de maternidade

Rocío Rincón, 29 anos de idade, é trabalhadora civil do hospital Carlos J. Finley. Em uma espécie de terraço na entrada de seu apartamento, há um fogareiro com carvão aceso e uma panela com um cozido. Diante da crise energética, é assim que muitas famílias preparam seus alimentos. Em um canto de sua pequena sala, no chão, há um altar iorubá. E em uma das paredes está pendurado um quadro com cinco rostos de meninas, como se fossem anjos.

“Nenhuma dessas crianças é minha”, diz, com um rosto tomado pela tristeza, enquanto aponta o quadro com o dedo. “O que mais quero na vida é ser mãe. Conseguir ter um bebê é meu objetivo na vida”, diz.

Com certeza, Rocío rezou para todas as divindades para ser mãe. Mas seu desejo não se cumpre. Ela relata:

Eu tenho — explica — uma doença que é um tumor na hipófise. Como consequência do bloqueio imposto pelo presidente Trump, muitas vezes não tenho meus medicamentos para minha doença. Estou em tratamento. Sou muito grata ao comandante Fidel Castro. Graças a ele, toda minha cura saiu de graça. Não tenho que pagar médicos. Não sei o que é ir comprar meus comprimidos. Estão aí. Tenho, e às vezes não tenho. São doações, graças aos países amigos que os mandam.Rocío Rincón

E acrescenta:

Há muita gente que está sofrendo com este bloqueio. Pessoas demais estão passando maus momentos por isso. A situação agora com Trump é muito pior do que era antes. Está mais difícil. As medidas são muito mais agressivas. Condeno todas as imposições com que ele quer nos sufocar e nos ter sob seu punho. Não vai conseguir.Rocío Rincón

Como trabalhadora do hospital, ao qual vai muita gente, vê o impacto na saúde causado pelo estrangulamento econômico. Assiste ao sofrimento dos pacientes que necessitam de respiração artificial, os de nefrologia, os de câncer; todos os que precisam de remédios, como ela mesma.

Apagões programados, resistência criativa: a vida sob cerco energético em Cuba

O hospital conta com uma usina elétrica. O fluido se destina às áreas que mais o necessitam. Há, ainda, políticas de economia. Por exemplo, não se liga o ar-condicionado. Estão criando hortas medicinais para tratar as enfermidades de uso comum, como as dores. São enormes os esforços que se fazem para remediar a escassez de recursos. Mas ainda assim não são suficientes.

O objetivo de Trump é nos asfixiar, nos pôr de joelhos. Mas nunca vai conseguir. Está perdendo tempo com suas patranhas. Aqui há um povo que resiste, luta e vai vencer. Os cubanos sabemos nos reinventar. Aqui há uma jovem que vai lutar até sua última gota de sangue se for necessário. Porque a Revolução sou eu, somos todos.Rocío Rincón

A confeiteira

A professora Ricardo Santana é uma das 1.064 habitantes da comunidade Manuel Isla Pérez, encravada nas vizinhanças da Província de Havana, uma zona afastada da capital. Ocupa uma das 284 moradias, de dois ou três quartos e uma extensão de 85 m², distribuídas nas 284 casas do conjunto habitacional. Comparado com as telas planas de outras casas, sua pequena televisão parece uma peça digna de uma loja de antiguidades.

Segundo a engenheira de construções Marilesydis Maura Álvarez, de 40 anos de idade e uma das primeiras habitantes da comunidade, que trabalhou em sua construção desde 2012, o projeto nasceu para dotar os trabalhadores de serviços de habitabilidade.

A comunidade foi batizada de Manuel Isla em homenagem a um jovem combatente do Movimento 26 de Julho que perdeu a vida lutando na Revolução, com apenas 19 anos de idade. A cada aniversário de seu nascimento e de sua morte, lhe rendem homenagens. Vivem ali educadores, profissionais, militares e trabalhadores. As casas são deles. Adquirem-nas pagando cotas simbólicas, sem juros.

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A localidade possui dez Comitês de Defesa da Revolução. Cada um tem seu nome patriótico e seus monumentos alegóricos. Buscam gerar alternativas para conseguir produtos alimentícios. Uma vez por mês levam artistas e realizam atividades culturais. Organizam feiras agropecuárias. Procuram fazer com que a população tenha acesso a serviços sem ter que se deslocar.

Os apartamentos estão cheios de plantas e flores. Há terrenos para produzir alimentos e plantas medicinais. Onde há um trecho sem cultivo, preparam-no para semear. E isso ajuda a levar comida saudável ao prato diário. Também fazem guardas e se encarregam de garantir a vigilância para manter a tranquilidade da zona.

Numância sim, escravidão nunca: a inspiração milenar que guia Cuba frente à asfixia

María Eva Puentes Torres é uma orgulhosa confeiteira desta comunidade, com mais de 60 anos de idade. Faz os bolos por encomenda, com imaginação e arte. Vive há 10 anos em Manuel Isla. É do oriente, de Santiago, onde o comandante Fidel Castro lutou na serra. Ataviada com um avental quadriculado vermelho e branco com três coelhinhos, dá os últimos retoques a um enorme bolo para celebrar o aniversário de uma jovem de 14 primaveras. Assa as tortas em sua casa. E os apagões a afetam muitíssimo. Para lá de brava, diz:

Imagine o que acontece quando nos cortam a eletricidade. Não temos como trabalhar. Eu tenho uma filha que está na universidade, estudando filosofia. Não há combustível, não há transporte para que a menina vá para a universidade. E sem eletricidade não pode carregar o celular para ver suas matérias. Tudo isso nos afeta.María Torres

Está indignada com Donald Trump. Diz, sem deixar de trabalhar nos últimos detalhes da torta: “Repudiamos energicamente as medidas que o governo dos Estados Unidos tomou contra nosso país. Depois de tudo o que lutamos por isso, não vamos deixar que nos tirem. Vamos resistir com criatividade e buscar alternativas para seguir adiante.

Este país ninguém nos tira. É nosso. Aqui ninguém se rende. Vamos defendê-lo de todas as formas. Este é um país livre e soberano. É de Cuba, não dos Estados Unidos. Aqui lutaremos e resistiremos. Não vamos nos dobrar porque esta é uma pátria livre e soberana. Aqui ninguém se rende! Viva Cuba!María Torres

Pioneira

A vida de Tatiana Coll está muito associada a Cuba. Colaborou estreitamente com Arnaldo Orfila, diretor da Editora Siglo XXI, um editor fundamental nas lutas de libertação nacional na América Latina e na difusão do pensamento crítico da maior das Antilhas. Ela participou da histórica safra de 1970 e viveu em distintos momentos na ilha. Sempre solidária com a Revolução, lembra que em sua época, naquelas terras, se dizia:

Cara, o cubano é um relaxado. Não é tão bom para o trabalho diário e disciplinado, mas quando soa a trombeta de guerra e defesa, ninguém o supera. Ficam em modo guerrilha indomáveis e é Pátria ou morte!Tatiana Coll

Agora não tem dúvida alguma de que, nestes tempos difíceis, crescem como só eles sabem fazer, como Fidel lhes ensinou a fazer.

A bravura cubana para defender o país e a Revolução, da qual fala Tatiana, lhes vem desde pequenos. Basta conversar com Ainara Neira Reyes para calibrar a resposta de uma parte da infância ao sinal dos tempos em Havana. Tem apenas 11 anos e está no sexto ano, mas fala como se tivesse cursado um doutorado e solucionado todo tipo de problemas. Acredita que seus professores são bons, joga futebol e é pioneira. Também gosta de voleibol, mas agora não podem praticar porque a bola murchou. Explica:

Os pioneiros somos crianças que, apesar das dificuldades que o país tem, sempre vamos à escola, cumprimos tarefas e participamos de atividades. Sempre vamos em frente e temos a proteção dos professores.Ainara Reyes

No centro de suas reflexões estão os problemas provocados pelo bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Por sua culpa — assegura — impede-se a entrada de materiais de estudo suficientes, e as crianças que não têm o privilégio de morar perto de uma escola nem sempre podem ir, porque não entra petróleo suficiente para que o transporte que as leva até a escola possa circular. Não há cadernos nem lápis suficientes, ainda que seus professores busquem dá-los para continuarem seus estudos e “serem alguém no futuro”.

Ainara sempre busca estar informada. Vê o noticiário da televisão e procura estar a par de tudo. Nas aulas, seus professores também lhes contam o que está acontecendo.

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Na escola — diz — ensinam-lhes valores como respeitar a Revolução, participar das atividades dos Pioneiros e não permitir que o bloqueio os afete tanto. Nunca têm medo de que outras pessoas intervenham em seus estudos. Estão seguros de que sua vida sempre vai estar respaldada.

Para ela, Trump os odeia e lhes impõe o bloqueio para que os cubanos entreguem seu país e sua Revolução. Mas está certa de que Cuba se caracteriza por não se render. “Nós — afirma — não vamos nos render por causa do bloqueio, ainda que o intensifiquem ou ponham muitos obstáculos no caminho”. Por fim, envia uma mensagem especialmente aos meninos e meninas do México:

Nós — diz — estamos passando por um momento difícil. Caso vocês passem por um momento igual, nós daqui vamos apoiá-los. Não se deixem vencer!Ainara Reyes

Em Cuba, a solidariedade e a resistência têm rosto de mulher.

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