nos-50-anos-da-operacao-condor,-bolsonaro-inicia-pena-por-golpe-contra-soberania-brasileira

Nos 50 anos da Operação Condor, Bolsonaro inicia pena por golpe contra soberania brasileira

A prisão nesta data simboliza a derrota de um projeto autoritário que buscou restaurar lógicas de exceção, enquanto a memória sobre a Operação Condor reforça a urgência de evitar retrocessos democráticos

Cinco décadas após o início da Operação Condor — o pacto de terror que uniu ditaduras do Cone Sul sob tutela dos Estados Unidos para perseguir, sequestrar, torturar e eliminar opositores — o Brasil assiste a um marco histórico de sentido profundamente simbólico. Neste 25 de novembro de 2025, data que rememora 50 anos daquela engrenagem transnacional de violência de Estado, Jair Bolsonaro começa oficialmente a cumprir sua pena de 27 anos e três meses pela tentativa de golpe de Estado. O mesmo país que sofreu com as estruturas de exceção vê agora um de seus expoentes contemporâneos do autoritarismo responder por seus crimes.

A decisão do Supremo Tribunal Federal põe fim ao processo judicial e determina que o ex-presidente permaneça encarcerado na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, onde já estava detido preventivamente. Ali, em uma sala de Estado-Maior com prerrogativas previstas para ex-chefes de Estado, Bolsonaro dá início à execução da pena que lhe foi imposta por tramar contra a democracia e buscar submeter a soberania brasileira a um projeto de poder inconstitucional. A tentativa frustrada de fuga e o descumprimento de medidas judiciais reforçaram a necessidade da custódia.

Não há como ignorar a força histórica desta coincidência. Bolsonaro sempre exaltou a ditadura militar, o aparato repressivo, o torturador e a tutela estrangeira — pilares que sustentaram a própria Operação Condor. Seu governo recuperou métodos de assédio institucional, militarização da política e alinhamento automático aos interesses imperiais, recusando a soberania popular e tentando reinstalar lógicas de exceção. Ao ser condenado por atentar contra a democracia, ele se torna símbolo da derrota pública desse projeto neofascista que buscou trazer o passado de volta.

Cinco décadas depois do início de uma máquina transnacional de terror, a América Latina ainda enfrenta novas formas de intervenção, controle e violência: o lawfare, a manipulação midiática, a vigilância digital e a criminalização das lutas populares. A prisão de Bolsonaro, nesta data que carrega a memória de tantos desaparecidos, torturados e assassinados, reafirma a necessidade de manter viva a verdade e a justiça. Não apenas para reparar o passado, mas para impedir que o autoritarismo retorne disfarçado de salvação nacional. Hoje, mais do que nunca, lembrar é resistir — e ver a democracia fazer valer sua força é parte fundamental dessa resistência.

A luta no audiovisual

É nesse contexto que nasce o projeto da série documental “Operação Condor”, dirigida por mim e por Luiz Gonzaga Belluzzo. Produzimos esta obra porque acreditamos que o resgate da memória é uma trincheira política e ética. Almejamos um gesto que ultrapasse a arte audiovisual para se afirmar como um compromisso histórico. Não buscamos revisitar o horror como registro frio ou arqueológico, mas transformá-lo em ferramenta concreta de resistência: compreender o passado para impedir que ele retorne como futuro.

A série será filmada em sete países, totalizando sete episódios com a reconstituição de fatos, arquivos, testemunhos e investigações que evidenciam a dimensão continental da articulação repressiva. Em cada capítulo, prestaremos homenagem a figuras que, com coragem e dignidade, resistiram à barbárie e transformaram suas vidas em símbolo de liberdade e esperança.

No Chile, evocaremos Pablo Neruda, cuja morte permanece envolta em suspeitas de assassinato político. Na Argentina, lembraremos Hebe de Bonafini e Estela de Carlotto, mães que enfrentaram a ditadura exigindo justiça diante do desaparecimento forçado e do roubo de crianças. No Uruguai, homenagearemos José “Pepe” Mujica, preso político por mais de 12 anos, exemplo vivo de resistência e ética pública. No Paraguai, celebraremos a coragem de Martín Almada, que revelou ao mundo os Arquivos do Terror, prova documental da própria Operação Condor. Na Bolívia, o destaque será Dom Luis Aníbal Rodríguez Pardo, voz firme contra o silêncio imposto. No Peru, a trajetória a ser registrada é de Hugo Blanco Galdós, líder camponês cuja força atravessou oceanos. E no Brasil, o episódio dedicado à luta por Memória, Verdade e Justiça homenageará Rubens Paiva, Stuart Angel, Zuzu Angel, Paulo Freire e Miguel Arraes de Alencar — figuras centrais na resistência à ditadura e símbolos permanentes da defesa da democracia.

Relembrar essas vidas é um ato de justiça histórica. É recusar o silêncio que o autoritarismo impôs e que tantos ainda tentam restaurar. É devolver voz a quem o terror quis apagar. É impedir que revisionismos e negacionismos se apresentem como verdade. A memória não é passado: é território de disputa presente.

Vamos reunir sobreviventes, familiares de vítimas, pesquisadores, lideranças políticas e entidades de defesa dos direitos humanos de todo o continente, reafirmando que não haverá naturalização da violência. Não aceitaremos que a América Latina volte a ser laboratório de dominação imperial nem que o terror retorne sob novas máscaras e justificativas.

Este projeto é um compromisso com a democracia e com a soberania. É insistir na educação para a memória, tão atacada por aqueles que temem a verdade. É dizer, de maneira clara e firme: não esquecer é uma forma de lutar.

Neste dia, quando a Operação Condor completa 50 anos, nossa tarefa coletiva é simples e urgente: denunciar, lembrar e resistir — para que nunca mais aconteça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *