Igrejas e prefeitos, junto abrigadas de milhares de voluntários em todos os Estados Unidos, seguem encabeçando a resistência local contra as cada vez mais severas e cruéis medidas anti-imigrantes e contra refugiados impulsionadas pelo governo Trump.
De repente, neste tempo de Natal, surgiram presépios em frente a igrejas que oferecem uma interpretação contemporânea da história de Jesus Cristo e sua família. Em um deles, em Dedham, perto de Boston, estão ausentes o recém-nascido, José e Maria, restando apenas um aviso: “O ICE esteve aqui e a família sagrada teve que se esconder”, tudo sob um letreiro sobre a cena que diz: “Paz na terra?”. Apesar das pressões da arquidiocese e do ICE (a agência federal de controle migratório) para desmontar o presépio, a igreja se recusou, argumentando que a cena retrata a família sagrada como o que de fato foram: refugiados perseguidos.
Em outro presépio, Jesus, Maria e José estão separados, cada um dentro de uma jaula. Em outro, ainda, figuras mascaradas com uniformes com a sigla ICE cercam a cena. Já num presépio em Evanston, perto de Chicago, o menino Jesus está envolto em um cobertor do tipo usado para detidos nos centros do ICE, com as mãozinhas algemadas, enquanto uma figura de Maria aparece próxima, usando uma máscara antigás para se proteger dos agentes — antes soldados romanos, agora identificados como ICE.
Enquanto isso, em esferas mais seculares, prefeitos de cidades de todo o país continuam expressando sua oposição às medidas antimigrantes, ordenando que suas polícias e funcionários municipais não cooperem com agentes federais na perseguição a famílias imigrantes. Muitos foram ameaçados pelo governo Trump com investigações e até processos judiciais por supostamente obstruírem essas medidas.
Na maior cidade do país, Nova York, o prefeito eleito Zohran Mamdani, que iniciará seu mandato em janeiro, divulgou um vídeo no qual explica os direitos dos imigrantes em suas interações com as autoridades migratórias. Ele afirmou que as operações são “cruéis, desumanas e não servem em nada para a segurança pública” e declarou que será o prefeito de todos na cidade nova-iorquina: “Incluindo milhões de imigrantes, dos quais eu sou um”, acrescentou.
Ele não está sozinho, nem foi o primeiro. Os prefeitos de Los Angeles, Chicago e Portland enfrentaram e repudiaram anteriormente o que chamaram de “invasões” de agentes de imigração e até de tropas federais. Muitos outros seguiram o mesmo caminho, incluindo a prefeita de Boston, Michelle Wu, e suas contrapartes em Charlotte, Durham e Raleigh, na Carolina do Norte. Mais recentemente, as prefeitas eleitas de Miami, Eileen Higgins (a primeira não republicana em 30 anos), e de Nova Orleans, Helena Moreno (nascida no México, filha de pai mexicano e primeira latina no cargo), também expressaram críticas à forma como as operações são conduzidas. Higgins declarou que o “fervor antimigrante” de Trump “é desumano, cruel”: “Sou católica, então penso que é um pecado”, assinalou.

Além de todos esses políticos serem democratas — e todas as operações anti-imigrantes terem ocorrido em cidades e regiões governadas por esse partido —, eles lideram cidades onde os imigrantes são vitais. E é a organização das comunidades imigrantes — em grupos comunitários, sindicatos, igrejas, escolas e espaços culturais — que constitui o eixo central de toda essa resistência. Atualmente, brigadas de milhares — talvez dezenas de milhares — de cidadãos se organizaram em cidades e vilarejos para proteger suas comunidades dos agentes do ICE: desde a coordenação de alertas por meios digitais e também por uma forma muito mais antiga de comunicação — os apitos — sobre a presença dos agentes, até a oferta de orientação sobre direitos básicos, o acompanhamento de crianças cujos pais temem sair para levá-las à escola ou a consultas médicas, e ações de apoio mútuo para a entrega de medicamentos e alimentos.
Não há mensagem mais natalina do que a solidariedade e a defesa dos refugiados Jesus, Maria e José e de seus contemporâneos, e a história nos lembra que, afinal, eles são os salvadores de todos.
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