Em Porto Rico, está renascendo um movimento anticolonialista com uma nova geração e um novo ritmo, enfrentando as políticas de submissão aos fundos abutres, o despojo e a “gentrificação” impulsionada pelos especuladores de terras e moradias e a continuação de quase 130 anos de colonização pelos Estados Unidos. Quem explica é o veterano sindicalista José La Luz Díaz, em entrevista ao La Jornada.
Organizador político e educador popular, com longa trajetória em lutas sociais e eleitorais tanto nos Estados Unidos quanto em seu país, além de figura-chave em diversas lutas de solidariedade nas Américas, La Luz — sempre um otimista realista — está entusiasmado com o futuro imediato de um Porto Rico que há anos vive uma crise cada vez mais severa. Entre a ação anticolonialista que desperta no país e é encabeçada por forças sociais, culturais e políticas, está o Movimento Vitória Cidadã, do qual La Luz é integrante.
“Há forças emergentes, compostas em sua grande maioria por jovens. Coloca-se a necessidade de construir uma frente ampla, que aqui chamamos de Aliança País, algo parecido com o que foi feito na Colômbia e no Uruguai, entre outros países”, comenta. Não é uma tática nova: “Tudo o que aprendemos das experiências na Nossa América é aplicado aqui. Houve diálogos com companheiros da América Latina, ou seja, afinou-se o critério da necessidade de construir essa ampla aliança”.
E nesse movimento há uma cooperação cada vez mais dinâmica. “Desde 1952, não havia uma participação tão significativa das forças progressistas nesta ilha caribenha”, explica, em referência às eleições de 2024, a partir da qual se passou a construir a força anticolonial.
Bad Bunny, o combustível em Porto Rico
Um dos fatores surpreendentes dessa nova mobilização é a figura de Bad Bunny, que atualmente está na metade de uma série de 30 megaconcertos na ilha e é um fenômeno musical internacional.
“Esse rapaz, que até há pouco insultava meio mundo com suas canções e sua música, de repente se transforma em uma figura importante no incentivo ao crescimento desse movimento — não apenas desde sua tribuna cultural e musical, mas inclusive com recursos para contratar pessoas que organizam o movimento. E o mais recente é essa residência, onde pessoas da nossa geração estão presentes com seus filhos, filhas, netos e netas. É um fenômeno que nos dará muito mais força.”Ele cita em particular a canção “Lo que le pasó a Hawaii” (O que aconteceu no Havaí, em tradução livre), que ilustra o que está acontecendo em Porto Rico. Além disso, o militante atribui parte da evolução da consciência de Bad Bunny ao músico porto-riquenho René Pérez, o Residente.
Diáspora porto-riquenha
Um fator importante sobre as recentes ações é a “relação dinâmica [de La Luz] com a diáspora porto-riquenha”, aponta o entrevistado. “Na ilha restam apenas 3 ou 3,4 milhões [de cidadãos], enquanto nos Estados Unidos há mais de 8 milhões. Ou seja, a imensa maioria do nosso povo vive hoje na diáspora”. Nesse contexto, ele ressalta a importância de políticos estadunidenses de origem porto-riquenha, como a deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez, que estão apoiando a nova corrente.
La Luz, inclusive, foi recentemente eleito pelo Movimento Vitória Cidadã como um dos representantes dessa diáspora. “O desafio que enfrentamos é como conscientizar nossos companheiros em Porto Rico de que o trabalho dentro dos Estados Unidos tem uma importância estratégica. Não é útil apenas para levantar fundos, como muitos dos nossos partidos da América Latina costumam pensar. A organização precisa ser binacional, transnacional e transfronteiriça”.
Vale dizer que, ao contrário de todos os demais imigrantes, os porto-riquenhos chegam aos EUA com algo único: o direito ao voto. Ao mesmo tempo, apenas os porto-riquenhos que residem nos Estados Unidos podem votar para presidente e legisladores federais; já os que moram na nação porto-riquenha, não.
Controle e saque
Voltando a Porto Rico, La Luz reitera que o novo movimento surge em parte como “resposta a esse projeto terrível de austeridade que foi implantado há quase duas décadas. O governo da ilha declarou falência, e foi aprovada uma lei de falência territorial em Washington, durante o governo de Barack Obama, porque, como Porto Rico não é um estado da União, não tem a prerrogativa de recorrer às leis federais de falência, e por isso questões como essa são decididas em Washington”. Parte daí a imposição, pelo governo estadunidense, da Junta de Controle Fiscal, conhecida como “La Junta”, que é encarregada de administrar a crise financeira “e efetivamente governa a ilha”.
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Durante quase uma década, essa Junta impôs uma política de austeridade e privatização de serviços públicos, incluindo no setor elétrico, e provocou o fechamento de escolas. Críticos apontam que a economia de Porto Rico agora está a serviço dos chamados “fundos abutres”, que controlam sua dívida, e de investidores que exploram os recursos da ilha. No início de agosto, o presidente Donald Trump demitiu cinco dos sete chefes da Junta, visando nomear apenas pessoas leais a ele. Analistas preveem mais do mesmo — ou pior — na gestão da ilha.
Diante de tudo isso, La Luz destaca: é fundamental “construir um movimento de massas para poder enfrentar uma investida cada vez mais selvagem. Obviamente, os dois principais partidos coloniais — o Partido Novo Progressista, que não é novo nem progressista, e o Partido Popular Democrático, que não é popular nem democrático — formam um binômio. São como o PRI [Partido Revolucionario Institucional] e o PRD [Partido da Revolução Democrática] no México, entende? Ou o PAN [Partido de Ação Nacional]”, comenta. Prova da crítica do educador é que a governadora da ilha é uma das cofundadoras do grupo “Latinas por Trump”.
La Luz afirma que, apesar da atual conjuntura, “há um ressurgimento, um renascimento das forças progressistas”. Dentre elas, explica, “nem todas são necessariamente a favor da soberania ou da independência”, mas muitas defendem um projeto de descolonização de Porto Rico. “Muitos dos que já participavam da construção desse movimento agora também estão construindo esse novo partido, o Movimento Vitória Cidadã.”

Para os que se consideram independentistas, ele destaca: “O problema é que, para entender a necessidade de soberania, é preciso antes entender que somos uma colônia — é preciso descolonizar. E descolonizar significa que as pessoas precisam se libertar da maneira colonizada de ver o mundo”.
Para La Luz, um movimento não pode se limitar a se opor a um projeto como o imposto atualmente à ilha — é preciso propor uma alternativa. “Nesse sentido, aprender com a experiência de outros movimentos em outros países será fundamental” para enfrentar, entre outras coisas, a chamada “gentrificação colonial”, como o espólio da riqueza que ainda resta na ilha — especialmente a que pertence ao povo.
La Luz liderou a luta para fundar o sindicato mais poderoso de Porto Rico em meados dos anos 1990, reunindo 120 mil funcionários públicos. Participou de múltiplos esforços de educação popular, sindicalização e impulsionamento da eleição de políticos progressistas nos Estados Unidos, chegando a ser representante do candidato presidencial Bernie Sanders. Até recentemente, atuou como membro do comitê nacional da organização Democratic Socialists of America (DAS – Socialistas Democráticos da América, em tradução livre).
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