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Monica Bruckmann: Ataque à Venezuela escancara desespero dos EUA, mas há saídas para América Latina

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, a partir das 2h (horário de Brasília), os Estados Unidos executaram uma operação militar de grande escala contra a Venezuela. Com uso de força desproporcional, ataques aéreos simultâneos e ações de distração, a ofensiva resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, retirados do país por helicóptero, segundo informações oficiais venezuelanas. Há relatos confirmados de mortes de civis. A ação marca uma ruptura histórica no padrão de atuação dos EUA na América Latina e transforma, de forma dramática, o caráter da região, até então reconhecida como zona de paz.

Ponto de inflexão e limbo constitucional

Para a jornalista e analista internacional Vanessa Martina-Silva, diretora de jornalismo da Diálogos do Sul Global, o episódio não pode ser tratado como mais uma crise diplomática. “Não se trata de uma crise internacional, se trata de um ponto de virada, um ponto de inflexão. Até esse momento, os EUA tiveram um determinado padrão de comportamento na América Latina, agora a situação é outra”, afirmou durante live realizada horas após o ataque.

Vanessa destacou que a agressão extrapola o território venezuelano e inaugura um cenário de instabilidade regional profunda. “Não se trata só da Venezuela, se trata de uma crise que atinge todos os países latino-americanos, inclusive, com grande predominância, o Brasil. Estamos em ano eleitoral no Brasil, e não dá para acharmos que é um problema estritamente venezuelano. Temos uma crise regional. A América Latina, a América do Sul principalmente, de zona de paz, agora tem uma guerra declarada pelos EUA”, disse.

A jornalista manifestou ainda forte preocupação com a possibilidade de escalada contra a população civil, resgatando precedentes históricos da política externa estadunidense. “Imaginemos que a população venezuelana se insurja, como de fato está acontecendo, e os EUA resolvam fazer como na Guatemala em 1954. Eles bombardearam civis conscientemente, ou seja, a agressão contra a Guatemala tinha como alvo civis. Me alarma muito que possa acontecer uma coisa parecida”, alertou.

Segundo Vanessa Martina-Silva, o próprio presidente Nicolás Maduro vinha advertindo que uma invasão estrangeira poderia transformar a Venezuela em um “Vietnã” regional. Na avaliação da jornalista, esse risco é real diante da mobilização popular promovida ao longo dos anos pelo chavismo. O cenário inclui, inclusive, a possibilidade de guerra civil, caso a agressão se prolongue.

Outro elemento central apontado por Vanessa é o vazio jurídico aberto pela operação. Trump sinaliza publicamente a intenção de impor uma nova eleição no país, mas, como destacou a jornalista, a Constituição venezuelana não prevê o sequestro do presidente como hipótese institucional. O país mergulha, assim, em um limbo constitucional sem precedentes.

Lógica da força bruta e riscos regionais

Essa avaliação é compartilhada pela analista internacional Amanda Harumy, graduada em Relações Internacionais, que aprofundou o debate sobre a inexistência de marcos legais capazes de responder ao episódio. Para ela, a conjuntura atual esvazia por completo o direito internacional. “É muito difícil hoje na conjuntura de um mundo sendo guiado pelas vontades, pela personalidade de Donald Trump a gente utilizar o direito internacional, a Carta das Nações Unidas. Ou até mesmo a gente pegar a Constituição venezuelana e dizer ‘nesse caso se encaixaria em tal regra’”, afirmou.

Segundo Amanda, a ação dos EUA demonstra que a lógica vigente é a da força bruta. “O que vale hoje é a disputa de força, é o que os EUA mostraram. A regra na Constituição [venezuelana] de chamar eleições valeria se houvesse uma normalidade. Mas não há normalidade. Temos fotos do presidente [Nicolás Maduro] algemado, sem escutar e vendado”, ressaltou.

Ela também chamou atenção para as declarações explícitas de Trump após a operação. “Pra quem tem dúvida, vá ver a coletiva de imprensa de Trump. A demarcação que ele traz nesse segundo ano de governo é ‘somos fortes o suficiente para entrar num país, bombardear e sequestrar seu presidente. Não importa qual é o país’. O que importa são os EUA mostrando sua capacidade de intervenção imperialista. Ela ficou hoje para além do imaginário, é concreta”, disse.

Trump acabou de postar essa foto do Maduro.

Se tu defende esse ato entre nações fortes x fracas sendo latino americano é porque você não entendeu nada. pic.twitter.com/TsOjbUyxIn

— OMAR (@Omardeideais) January 3, 2026

Questionada por Vanessa sobre os impactos da ofensiva nas eleições brasileiras de 2026, Amanda foi categórica ao afirmar que haverá interferência direta. Segundo ela, o processo começará pela Colômbia, onde as eleições ocorrem em maio de 2026. Nesse contexto, a soberania deve se tornar eixo central do debate político regional. “Tanto na eleição do Brasil, quanto na da Colômbia, a pauta tem que ser soberania. Quem é o candidato que defende a soberania regional, a estabilidade e a paz? Na Colômbia é Petro, e no Brasil é Lula”, afirmou.

Amanda defendeu que a resposta à ofensiva estadunidense deve ser política e não militar. “Qual a disputa política que a gente pode fazer: defender corretamente o que está acontecendo no continente e denunciar que isso que o Trump faz é inaceitável. Trump mobiliza a extrema-direita, mas ataca inclusive aliados. Esse despertar político temos que disputar. Eu acredito na política. Não acredito numa resposta militar e nem em uma guerra”, concluiu.

EUA em desespero e reação em Washington

A cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Monica Bruckmann analisou o ataque como expressão de um momento de fragilidade estratégica dos Estados Unidos no cenário global. “A primeira coisa que fica clara é o grande nível de desespero dos EUA nesse cenário geopolítico complexo, onde eles veem profundas ameaças com a ascensão da China, na reorganização dos países do Sul, o fortalecimento dos BRICS como bloco que é capaz de fazer um contrapeso à visão unipolar dos EUA… é uma ação desesperada”, afirmou. Segundo ela, trata-se de uma iniciativa que só ocorre diante do “profundo desgaste de seus instrumentos econômicos, políticos e diplomáticos”.

Monica também destacou os efeitos internos da decisão de Trump. “Trump deu um passo extremamente perigoso, que já está tendo reações internas muito importantes. Não nos surpreenda que as tensões internas vão crescer nas próximas horas. Afinal, o que ele fez — e isso o The New York Times diz com todas as letras — é uma ação ilegal, contra a Constituição dos EUA”, lembrou.

Na avaliação da professora, o precedente aberto coloca toda a região sob ameaça. “Uma vez cruzado esse limite, qualquer país da região está em perigo. A soberania de qualquer país da região está em perigo”, disse, citando ameaças explícitas à Colômbia, ao Panamá, ao Brasil — com suas reservas do pré-sal — e à Bolívia, rica em minerais críticos.

O império dos EUA continua praticando impunemente seus crimes. Sequestraram o presidente Maduro e sua esposa. Fizeram antes no Panamá, no Haiti, em Granada, no Iraque, no Afeganistão, Líbia, Síria e apoiaram com armas o genocídio dos palestinos. +

— João Pedro Stedile (@stedile_mst) January 3, 2026

Monica vai no mesmo sentido de Amanda Harumy ao enfatizar que o pano de fundo da agressão é a disputa por recursos estratégicos. “A disputa por recursos naturais estratégicos, que em todos os documentos oficiais é considerada como uma questão de segurança nacional, não é nenhuma novidade. O que é novidade é que agora eles estão dispostos a ir atrás de ações unilaterais, mas também sem se preocupar claramente pelo apoio dos seus aliados. Eles vão sozinhos, se for necessário”, afirmou.

Apesar da gravidade do cenário, Monica Bruckmann apontou caminhos possíveis para a região. Para ela, a crise impõe a necessidade de pensar saídas integradas. “A situação dá algumas possibilidades de a gente pensar razoavelmente numa saída para a região. E acho que essa saída passa necessariamente pela recuperação de uma coordenação latino-americana intensa e pela recuperação, no médio prazo, dos espaços de integração regional”, disse, destacando o papel da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) como espaço estratégico de articulação.

A professora elencou ainda três elementos centrais para essa reconstrução: a retomada dos mecanismos de integração, o desgaste acelerado dos governos de ultradireita e a atuação de múltiplos atores políticos. “Uma coisa que fica clara hoje em dia é que a resposta popular perante governos de ultradireita está crescendo”, afirmou, ressaltando que esses governos.

Por fim, Monica destacou a importância de governos locais e regionais, mesmo em países governados pela direita, na defesa da soberania. “Mesmo os governos de ultradireita não querendo, você tem governos locais e regionais nesses países também que, com um pouco mais de razoabilidade, estão chamando atenção para a necessidade de uma ação em defesa de diferentes níveis de soberania”, concluiu.

Confira a live na íntegra:

* Falas decupadas com apoio de IA.
* Imagens na capa:
– Nicolás Maduro: Reprodução / X
– Donald Trump: Casa Branca / Flickr

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