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Mohammad Bakri e a ousadia de fazer do cinema uma arma contra a narrativa sionista

Conceder às vítimas o direito à palavra: por esse “crime”, Mohammad Bakri foi perseguido judicialmente e alvo de pressão política e midiática; ainda assim, não recuou

A morte do artista e cineasta palestino Mohammad Bakri, em 24 de dezembro último, não foi um acontecimento passageiro no cenário cultural palestino, mas uma perda dolorosa de uma voz que permaneceu elevada diante da repressão e de uma consciência artística que escolheu estar no lugar mais difícil: o lado da verdade. Com sua partida, desaparece um dos artistas palestinos mais corajosos em transformar a arte em um ato de resistência e a palavra em uma arma ética contra a narrativa colonial israelense.

Mohammad Bakri, filho da aldeia de al-Ba‘na, na Galileia, não foi apenas um ator talentoso, mas um intelectual orgânico que levou a Palestina consigo a cada palco e tela. Desde cedo, compreendeu que a ocupação não teme apenas o fuzil, mas também a narrativa, a imagem e a memória. Daí surgiu seu filme mais conhecido, “Jenin, Jenin” (2002), não apenas como uma obra cinematográfica, mas como um testemunho vivo de um dos crimes israelenses mais brutais durante a Segunda Intifada.

O filme causou enorme controvérsia dentro e fora de Israel. A ousadia de Bakri em romper o monopólio israelense da narrativa não lhe foi perdoada: foi perseguido judicialmente e alvo de pressão política e midiática, sem outro “crime” além de conceder às vítimas o direito à palavra. Ainda assim, não recuou. Manteve-se firme na convicção de que a arte não é ornamento, mas posição, e que o silêncio diante do massacre é traição.

Em uma de suas frases mais conhecidas, Mohammad Bakri afirmou: “Sou mais forte que Israel”. Não era uma frase de efeito, mas a síntese de uma experiência — a força da postura, da verdade e do ser humano quando se liberta do medo. Israel, com todo o seu arsenal militar e jurídico, fracassou em silenciar sua voz, porque quem possui a verdade não é facilmente derrotado, mesmo que perca a batalha visível.

Mohammad Bakri representa o modelo do artista palestino que se recusou a separar a criação da causa. Não foi seduzido pelo reconhecimento israelense nem por uma projeção internacional condicionada; escolheu ser testemunha, mesmo pagando o preço do cerco, da difamação e do isolamento. Em um tempo em que muitas vozes recuam sob a pressão da repressão ou da sedução, Bakri permaneceu fiel à Palestina do coração, não àquela apresentada em festivais em versões esvaziadas.

Com sua partida, os palestinos perdem um artista e o mundo perde uma testemunha corajosa de um crime contínuo. Mas Mohammad Bakri não parte por completo. Ele permanece em seus filmes, em suas palavras e na lição simples e profunda que nos deixou: quando a arte se alia ao ser humano, torna-se mais forte que os tanques, e a verdade, por mais que seja cercada, sempre encontra quem a conte.

Adeus, Mohammad Bakri… você foi mais do que um artista, foi uma posição.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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