O Kremlin “está ciente” das “graves” declarações de altos funcionários do governo de Donald Trump sobre o possível uso de mísseis Tomahawk na guerra da Ucrânia contra alvos dentro da Rússia, e determinará sua resposta em função “das ameaças que isso representa”.
Segundo seu porta-voz, Dmitri Peskov, caso se confirme a autorização de Trump, “surgem perguntas óbvias: quem pode ou deve fazê-lo, o exército dos Estados Unidos? Quem define os alvos, os estadunidenses ou os ucranianos? Apenas para mencionar essas”.
Para o secretário de imprensa da presidência russa, “mesmo que isso (os ataques à Rússia com mísseis de até 2.500 quilômetros de alcance) aconteça, não existe panaceia capaz de mudar a situação na frente para o regime de Kiev. Não há arma mágica, nem Tomahawk nem outros mísseis que possam alterar a dinâmica da guerra”.
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Trump avalia pedido de Zelensky por Tomahawk
Na véspera, o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, confirmou que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, solicitou ao ocupante da Casa Branca, Donald Trump, que venda mísseis de cruzeiro Tomahawk a países europeus para que estes os entreguem à Ucrânia. O republicano, segundo palavras de Vance, “está analisando esse pedido”.
O enviado especial de Trump para a Ucrânia, Keith Kellogg, declarou à Fox News que Washington ainda não decidiu se Kiev poderá usar ou não os Tomahawk. Ao mesmo tempo, esclareceu que “não existem santuários” e que Trump deu luz verde a Zelensky para atacar, com armas de longo alcance, o interior do território russo — dando a entender que cada operação teria que ser avaliada pelo Pentágono (o Departamento de Guerra dos Estados Unidos) e que a decisão final dependeria de Trump.
Rússia abandona Convenção contra a Tortura
O chefe do Kremlin também promulgou a lei que oficializa a retirada da Rússia da Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1984 e em vigor desde 1987, assim como de seus protocolos adicionais.
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Putin tomou essa decisão devido à recusa do Conselho da Europa em garantir a representação da Rússia em seus órgãos estatutários, o que, segundo a agência oficial Tass, enfraquecia o mecanismo de monitoramento mútuo do cumprimento das obrigações internacionais no âmbito da proteção contra a tortura.
Putin reforça exército em meio à guerra da Ucrânia
Em outra frente, o presidente Vladimir Putin assinou nesta segunda-feira (29) o decreto que dá início à campanha de outono do serviço militar obrigatório, que de 1º de outubro a 31 de dezembro incorporará ao exército russo 135 mil homens entre 18 e 30 anos de idade, que se somarão aos 160 mil recrutas da campanha de primavera.
Um representante do Estado-Maior das Forças Armadas russas, o vice-almirante Vladimir Tsimliansky, prometeu que “esses recrutas não serão enviados para cumprir tarefas da operação militar especial”, como as autoridades denominam as missões na zona de combate na Ucrânia.
Mais mobilização e envio de soldados
Em outra frente, o chefe do Kremlin terá de tomar uma difícil decisão: anunciar ou não uma mobilização que reúna ao menos meio milhão de soldados, mas já não “voluntários” que combatem por dinheiro, como agora, e sim civis obrigados, sem remuneração.
O general Valeri Guerasimov, chefe do Estado-Maior e responsável militar pela campanha na Ucrânia, foi quem recomendou isso ao Kremlin como única forma de romper o atual equilíbrio de forças nos campos de batalha, já que Putin continua obstinado em “liberar” toda a região de Donbass (faltam-lhe 30% dos territórios de Donietsk e Lugansk), sem falar do restante de Kherson e Zaporíjia, quatro territórios incorporados de forma incompleta à Constituição como parte da Federação Russa.
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Não é fácil tomar essa decisão que, por um lado, poderia inclinar a balança a favor da Rússia e, por outro, gerar amplo descontentamento na sociedade, além de que a economia russa não vai tão bem quanto afirma a versão oficial: começa a sentir os efeitos das sanções ocidentais e a guerra consome metade do orçamento do país.
Um exemplo recente: para compensar o déficit previsto para o próximo ano, planeja-se aumentar o IVA de 20% para 22%, o que renderia 1 trilhão e 30 bilhões de rublos, quando, para comparação, o déficit acumulado entre janeiro e agosto passados chegou a 4 trilhões e 200 bilhões de rublos.

