Começou a chover por volta das quatro da tarde e não parou nem um segundo. Fausta se encomenda, acende uma vela ao Senhor de Esquipulas e abriga seus seis filhotes na cama com o poncho que comprou a prestações de um vendedor que chega todas as quintas-feiras desde Momostenango, oferecendo fronhas para travesseiros, lençóis, ponchos e toalhas típicas. Sempre chega com seu filho adolescente e percorre todo o povoado e as aldeias com suas vendas carregadas no mecapal [1].
Fausta lhes dava um lugar para esquentar as tortilhas nas brasas do comal. Eles as levavam em um morral que penduram cruzado nas costas antes de pôr a carga da venda. Ficava com pena de vê-los com tanto peso. Mas o favor é mútuo, assim vê Fausta, porque também lhe fazem companhia enquanto ela assa os pishtones [2] no comal. Sempre os espera com café de milho ou de tortilha fervendo no batedor, sua panela de feijões espessos e um quarto de queijo ou requeijão. Eles se deleitam com a comida, à qual sempre acrescentam pimenta chiltepe que carregam em seus morrales. Na época de calor, ela lhes faz refresco de massa e, quando está inspirada, os recebe com um copo de chicha de milho amarelo.
Em troca, ajudam-na a rachar lenha e empilham-na na parede atrás da cozinha. Trazem para ela semitas, milho-roxo e café também da própria colheita. Fausta lhes arruma compradoras e responde por elas para que consigam comprar a crédito, porque são muito pontuais com os pagamentos. Fiado é a única forma que podem comprar: os maridos trabalham como empregados em fazendas de Chiquimula e Zacapa e chegam a Escuinapa uma vez a cada três meses, durante um fim de semana, e logo partem novamente. Enquanto isso, cabe a elas buscar o sustento como puderem.
Fausta faz queijadinhas de arroz, marquesote, queijo e requeijão. Compra o leite com tio Tibe, que sempre vende fiado. Com dor, também sacrifica suas galinhas, corta-as, coloca os pedaços em uma bacia plástica e sai para vendê-las no povoado, o que não demora muito, embora às vezes tenha que vender fiado. Vende mais rápido por partes do que inteiras: algumas compram duas asas, outras as patas, miúdos. Há quem sempre peça os pescoços, porque não dá para comprar o peito e nem as coxas. Nía Margarita, a diretora da escola, sempre compra as rabadilhas.
A ela, Fausta ajuda lavando roupa, passando, fazendo faxina na casa, e é daí que tira seus trocados para comprar o mais urgente: sal, açúcar, óleo, fermento, o que precisar para continuar vendendo suas queijadinhas e marquesotes. Nos tempos em que as vendas caem, caminha mais longe, até a saída do povoado, sempre com o menor dos seus filhotes, de apenas quatro meses, deitado na manta amarrada cruzada nas costas, e o outro, de dois anos, montado na cintura.
Com nía Romelia, deixa dois sob cuidados, enquanto os dois mais velhos estão na escola. Na entrada do povoado há uma venda de grãos; ali, ela trabalha socando feijão, debulhando milho e fazendo maços de palha. Difíceis são os dias em que lhe desce a menstruação — o trabalho de socar é duro e ela queria estar deitada na cama, mas dobra um pano que usa como absorvente, toma uma xícara de chá de orégano e, sem tempo para pensar, começa a caminhar.
Dependendo da época do ano, assim é o trabalho, tanto para mulheres quanto para homens. Mas o trabalho doméstico continua sendo exclusivamente das mulheres, por isso Fausta se propôs a criar seus seis filhotes de forma diferente: mãos eles têm, assim como as mulheres; ela lhes ensinará a lavar sua própria roupa, a cozinhar, a fazer faxina, a amassar tortilhas e a respeitar as mulheres — não como o marido que tem, que gasta o dinheiro do trabalho na cantina e ainda chega em casa para bater nela. Seus filhos não serão assim!
Chove tão forte que ela sente que o céu vai desmoronar sobre o teto; os bebês logo vão despertar com os trovões, e não tem nada quente para tomarem e esquecerem o susto. Lembra que há na cozinha um recipiente com soro do leite que sobrou quando fez o queijo. Guardava para dar aos porcos pela manhã, mas vai fazer mingau.
Calça as botas de borracha, destranca a porta que dá para o pátio, cobre-se com uma toalha e sai correndo para a cozinha. Coloca o soro para ferver, joga uns pedacinhos de canela, dissolve a massa, derrama no líquido e começa a mexer com a colher de pau. Doem-lhe os joelhos — passou o dia no mato procurando azeitonas para fazer sabão. A cozinha começa a se impregnar com o aroma do mingau.
Acrescenta açúcar e alguns grãos de sal — receita de Mamá Bartola, sua bisavó, que dizia que foi ensinada por Mamá Toribia, sua tataravó. Ela contava, na hora da oração, que com isso enganavam a fome nos montes, onde, à noite, o único som era o canto da coruja pousada nos galhos de plumajillo.
Notas
[1] Mecapal: Faixa com duas cordas nas pontas, usada para carregar uma carga nas costas, colocando parte da faixa na testa e as cordas segurando a carga.
[2] Pishtón: Tortilha grossa.

