A farinha, esse símbolo simples da dignidade humana, transformou-se em Gaza num artigo raro, vendido por preços que só quem lucra com a dor do povo — não quem sofre junto com ele — pode pagar
Enquanto Gaza se afunda num mar de sangue e destruição, enquanto a vida quase se arranca da boca de suas crianças, uma outra catástrofe, não menos letal que bombas e balas, se agrava: a fome. Sim, a fome se tornou a outra face da guerra, um crime silencioso que se comete todos os dias nos mercados, às portas das padarias e nos olhos das mães incapazes de garantir 1 kg de farinha para alimentar seus filhos com um pão seco.
A farinha, esse símbolo simples da dignidade humana, transformou-se em Gaza num artigo raro, comprado e vendido com o sangue dos pobres, por preços que só quem lucra com a dor do povo pode pagar – não quem sofre junto com ele.
Num momento em que os bens essenciais – e em primeiro lugar a farinha – deveriam ser garantidos e subsidiados em tempos de guerra e cerco, seus preços em Gaza dispararam de maneira insana, a ponto de o valor de um saco de farinha se comparar ao do ouro. Quem é o responsável por essa catástrofe em cadeia? Para onde foram as caravanas de ajuda anunciadas por países e organismos internacionais? Por que os mercados são deixados à mercê da ganância dos comerciantes de crises?
Não há justificativa aceitável diante de uma realidade de colapso econômico total e de completa ausência de fiscalização real sobre o mercado e os preços. A desculpa de bloqueio nas passagens ou de escassez de recursos não resiste a uma pergunta simples: por que o comerciante encontra estoque de farinha para vender a preços absurdos, enquanto o pobre não consegue comprá-la?
E por que as autoridades oficiais em Gaza não decretaram estado de emergência alimentar de verdade, obrigando quem retém farinha a liberá-la imediatamente ou punindo quem faz do sustento dos cercados um negócio?
A crise da farinha em Gaza não é resultado apenas da guerra, mas da ausência de justiça na distribuição, de falhas graves na gestão do setor alimentar e de uma corrupção disfarçada que ninguém quer expor publicamente. As ajudas alimentares que chegam a Gaza, pelo que resta das passagens e corredores humanitários, não chegam aos que de fato precisam delas. Elas passam por canais cheios de buracos, negócios e favorecimentos.
As instituições internacionais, a começar pelo Programa Mundial de Alimentos, devem respostas claras:
Onde está sendo distribuída essa ajuda?
Quem supervisiona a entrega?
Por que não chega às famílias que são esmagadas entre a fome e o bloqueio?
A farinha em Gaza se transformou numa arma apontada contra os famintos, em vez de ser seu amparo.
E diante dessa realidade catastrófica, o silêncio oficial, local e internacional se torna uma cumplicidade injustificável.
O que se exige? Não é uma esmola passageira, nem um saco de farinha exibido em uma foto de imprensa. É um plano de socorro urgente, abrangente e transparente, que garanta a distribuição da farinha para todas as casas, sem intermediários, sem comerciantes, sem facções, sem atravessadores.
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É preciso redefinir o conceito de “segurança alimentar” em Gaza como um direito, não uma concessão, e responsabilizar todos aqueles que transformaram o pão em luxo e a fome em instrumento de submissão.
A guerra que matou milhares de crianças continua matando as que restaram, agora pela fome.
Quem vai salvar a farinha das mãos dos comerciantes?
Quem vai salvar as pessoas de cair no abismo da fome, depois que o teto já lhes caiu sobre a cabeça?
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A vergonha não está apenas em quem bombardeia. Ela também pesa sobre quem vende o pão pelo preço do sangue, deixando os famintos à margem da estrada… em uma pátria em chamas.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

