Nesta terça-feira (20), o chanceler russo, Serguei Lavrov, afirmou que há países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que ainda “querem combater” a Rússia, e qualificou como “suicida” qualquer provocação contra o enclave russo de Kaliningrado, no Báltico.
O chanceler reiterou que a Rússia “está aberta ao diálogo”, embora considere “pouco provável” chegar a um acordo com os atuais líderes europeus, devido “ao ódio profundo que sentem em relação à Rússia”.
As declarações foram feitas na conferência de imprensa dedicada anualmente a fazer uma espécie de balanço da política externa nos 12 meses anteriores. Lavrov iniciou a solenidade fazendo menção especial a três importantes aliados de Moscou que enfrentam fortes pressões vindas de Washington:
O ano começou de maneira turbulenta. Fomos testemunhas de fatos sem precedentes: a intervenção armada dos Estados Unidos na Venezuela, que deixou dezenas de mortos e feridos; a captura e o traslado (para Nova York) do presidente legítimo do país bolivariano, Nicolás Maduro, e de sua esposa (Cilia Flores). De modo paralelo, observamos ameaças contra Cuba e outras nações da América Latina e do Caribe. Nos preocupam as tentativas abertamente proclamadas de forças externas de desestabilizar a situação política no Irã.Serguei Lavrov
Lavrov lamentou que “todas as regras da política internacional tenham sido apagadas e que estejam jogando um jogo no qual o mais forte tem razão”. E acrescentou: “Na Venezuela, em Cuba e no Irã, vemos com clareza a falta de congruência nas ações da administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no que diz respeito às questões relacionadas à garantia da segurança no mundo, em relação ao direito internacional”. A seguir, apontou:
O presidente Trump, ao responder a uma pergunta sobre o tema, destacou há alguns dias que pouco lhe importa o direito internacional e que todas as normas de comportamento no âmbito mundial são determinadas por sua própria moral. Declaração interessante!Serguei Lavrov
No entanto, para o ministro, Trump é “o único (dirigente ocidental) que entende que a Rússia tem interesses legítimos” na Ucrânia e que “está disposto a trabalhar para eliminar as causas originárias desse conflito, criado em grande parte por seu antecessor, Joe Biden”.
“Nós (os russos) nunca pensamos que teremos 100% de concordância com qualquer país, inclusive com nossos vizinhos mais próximos. E menos ainda pode haver essa concordância entre as duas potências nucleares mais poderosas: os Estados Unidos e a Federação Russa”, acrescentou.
Lavrov recordou que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, no início de sua reunião em Riade (Arábia Saudita, fevereiro de 2025), lhe disse, em linhas gerais, “que os interesses nacionais dos Estados Unidos e da Rússia nem sempre coincidirão — na maioria das vezes, não coincidirão —, mas que, quando coincidirem, seria um grave erro não aproveitá-los para delinear e concretizar projetos mutuamente benéficos nas áreas da economia, do comércio e dos investimentos. Quando não há coincidência de interesses nacionais entre as duas potências, seria um crime permitir que a situação se degradasse até uma confrontação direta”.
O diplomata russo comentou ter respondido ao funcionário estadunidense que compartilha essa filosofia e essa lógica, e disse ainda esperar que “em Washington compreendam os argumentos do enfoque exposto por Rubio”.
Groenlândia e Palestina
Ao ser questionado sobre um tema de grande atualidade, como a Groenlândia, o chanceler russo a comparou com a Crimeia.
“A Crimeia não é menos importante para a segurança da Federação Russa do que a Groenlândia é para os Estados Unidos”, mas rejeitou que Moscou ou Pequim queiram se apoderar da ilha pertencente à Dinamarca.
“A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vive uma crise muito profunda. (…) Era difícil imaginar a possibilidade de um país da aliança (os Estados Unidos) estar disposto a atacar outra nação integrante (a Dinamarca)” simplesmente porque Trump considera que a Groenlândia é fundamental para a segurança estadunidense, observou Lavrov.
Por isso, “quando tentam justificar o que ocorre em torno da Groenlândia dizendo que, se não for assim, Rússia ou China se apoderarão dela, não há nada que sustente essas afirmações”, enfatizou, acrescentando:
Se falamos da Groenlândia, trata-se de uma parte do problema relacionado às consequências da época colonial”, já que — em sua opinião — não é uma “parte natural” da Dinamarca, mas sim “uma conquista.Serguei Lavrov
Sobre o convite de Trump para que o presidente do Kremlin, Vladimir Putin, integre a chamada Junta da Paz, que pretende definir o futuro de Gaza, ressaltou que “muitos detalhes precisam ser esclarecidos antes de se tomar uma decisão”, mas — enfatizou — é evidente que não haverá estabilidade no Oriente Médio sem o cumprimento das resoluções das Nações Unidas e a criação de um Estado palestino.
Putin: “Caos internacional”
Em 15 de janeiro, ao receber na Sala Alexandre, do Grande Palácio do Kremlin, as cartas credenciais de 32 embaixadores, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que “dezenas de países em todo o mundo sofrem com o desprezo por seus direitos soberanos, com o caos e a desordem, já que carecem da força e dos recursos necessários para se defender”.
De acordo com Putin, “a situação no âmbito internacional se degrada cada vez mais. (…) Antigos conflitos se agravam e surgem novos focos de tensão”, enquanto a diplomacia “é frequentemente substituída por ações unilaterais e muito perigosas”.
Sem mencionar Trump expressamente, tampouco a intervenção ilegal imperialista na Venezuela ou as ameaças abertas do ocupante da Casa Branca contra Cuba, Irã e Groenlândia, o mandatário russo lamentou: “Em vez do diálogo entre as nações, escuta-se o monólogo daqueles que, segundo a lei do mais forte, acreditam ser admissível impor sua vontade, dar lições e emitir ordens”.
Putin exortou todos os países a “respeitar o direito internacional” para configurar “uma nova e mais justa ordem mundial multipolar, na qual cada país tenha o direito a seu próprio modelo de crescimento, a decidir seu destino e a preservar, sem ingerência estrangeira, sua cultura e suas tradições”.
Apoio a Cuba
Por meio da porta-voz da chancelaria, Maria Zakharova, a Rússia expressou, também em 15 de janeiro, sua “preocupação com o aumento da tensão e a escalada da retórica agressiva (dos Estados Unidos) em relação à amistosa República de Cuba”.
Em sua coletiva semanal, a funcionária indicou que Moscou defende a solução de qualquer controvérsia entre os Estados por meios políticos e diplomáticos.
A representante do Ministério das Relações Exteriores sublinhou: “Estamos convencidos de que a linguagem da chantagem e das ameaças é inaceitável, em particular em relação à Ilha da Liberdade, a seu povo e a seu governo, que sofreram durante décadas todo o horror das sanções ilegais que passaram à história como bloqueio”. Nesse sentido, seguiu Zakharova, a Rússia confia que, mais cedo ou mais tarde, “prevalecerão o pragmatismo e o senso comum”.
Os comentários de Zakharova responderam ao pedido de um repórter para comentar as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às autoridades cubanas, no sentido de que a ilha deve aceitar “um acordo”, isto é, as condições de Washington, “antes que seja tarde demais”.
Sobre o sequestro de Maduro
Ao responder outra pergunta, Zakharova também se referiu à Venezuela. Afirmou que qualquer decisão que a Justiça estadunidense tomar em relação ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro, sequestrado em 3 de janeiro e levado a Nova York, “seria ilegal”, salvo se ordenar que seja colocado em liberdade.
“Com base em normas do direito internacional reconhecidas por todos, entre elas o princípio da igualdade soberana dos Estados, Nicolás Maduro, na qualidade de chefe de Estado, possui imunidade absoluta perante a jurisdição dos Estados Unidos e de qualquer outro país”, indicou.
Plantão Venezuela: entenda a situação venezuelana com Vanessa Martina-Silva no YouTube.
Para Zakharova, “independentemente de a força ter sido usada de maneira ilegal” contra a Venezuela, “o próprio fato da captura e do sequestro de Maduro viola gravemente as obrigações jurídicas internacionais dos Estados Unidos”.
“Pelo mesmo motivo”, acrescentou, “qualquer decisão judicial seria igualmente ilegal, a menos que um tribunal estadunidense se recorde da existência do direito internacional e ordene sua libertação (de Maduro)”.
A Rússia considera que “os argumentos de que Nicolás Maduro presumidamente renunciou a suas funções presidenciais e, portanto, perdeu seu foro, não podem ser levados em conta, já que sua remoção ocorreu como resultado de uma operação militar ilegal dos Estados Unidos”, enfatizou Zakharova.
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