O novo presidente da República do Chile será José Antonio Kast. Assim decidiu a cidadania no segundo turno, realizado no último domingo (14), no qual o candidato do Partido Republicano reuniu mais de 7 milhões de votos (59%), uma cifra que supera os sufrágios obtidos por todos os mandatários anteriores. Sua adversária comunista também obteve um considerável apoio eleitoral, muito superior às cifras históricas de sua coletividade e da esquerda.
Depois de longos meses de campanha, o fato é que desta vez as pesquisas acertaram ao indicar a preferência cidadã por Kast, embora muitos tenham estimado que o bom desempenho de Jeannette Jara nos debates midiáticos poderia inclinar a balança a seu favor. No entanto, tudo indica que essas confrontações favoreceram mais o voto nulo ou em branco. Essas modalidades refletiram um amplo repúdio a ambos os candidatos, alcançando uma cifra que supera em muito o voto daqueles que haviam apoiado, no primeiro turno, Franco Parisi — cujo “Partido da Gente” convocou a não se manifestar em favor dos candidatos que passaram à segunda rodada.
Como era de se esperar, as celebrações da direita foram contundentes, assim como ficou evidente a frustração do numeroso conjunto de partidos de centro-esquerda. Não faltam agora aqueles que asseguram que a melhor candidata para enfrentar a direita teria sido Carolina Tohá, do Partido para a Democracia (PPD), que, no entanto, perdeu nas primárias desse setor, nas quais se impôs Jeannette Jara. Da mesma forma, entre os que acabaram dando seu apoio a Kast, há quem afirme que o triunfo da direita teria sido ainda mais contundente se a candidata tivesse sido Evelyn Matthei. Contudo, o resultado da primeira rodada eleitoral inclinou a balança para os candidatos dos partidos mais extremos do espectro partidário, razão pela qual os maiores derrotados agora são os setores de centro-direita e centro-esquerda.
Kast fez um chamado à unidade nacional e se propõe a liderar um governo de emergência, em um “país que está caindo aos pedaços”, segundo vários de seus partidários. Mostra-se também bastante disposto a combater o crime organizado e o narcotráfico, além de ativar a repatriação (deportação) de mais de 350 mil estrangeiros que estariam em situação irregular no país, em um propósito que ignora a enorme contribuição da mão de obra imigrante para a economia chilena e, muito especialmente, para a agricultura e o amplo setor de serviços.
Ainda assim, é evidente que nos últimos anos ingressaram no Chile numerosas quadrilhas criminosas que os tribunais e as polícias conseguiram prender e encarcerar apenas parcialmente, em unidades prisionais que hoje se encontram superlotadas e onde a Gendarmaria (guarda prisional) aparece sobrecarregada pelas ações de muitos chefes criminosos, dentro e fora desses recintos. Por tudo isso, o novo governo terá de enfrentar a urgente necessidade de construir mais centros de isolamento, mais seguros e inexpugnáveis.
Possíveis barreiras e resistências
Para a nova ordem que pretende edificar, o presidente eleito terá de alcançar acordos em um Parlamento novamente dividido e tensionado, no qual muito provavelmente se expressará uma oposição férrea ao seu mandato. Kast não conseguirá aprovar determinadas leis se não obtiver a maioria de que necessita, mas tudo dependerá de sua liderança e habilidade como governante, pois existe no novo Legislativo um número de parlamentares independentes passíveis de serem conquistados.
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Sem dúvida, a oposição ao novo governo se expressará com maior força na sociedade civil, nas instituições gremiais e sindicais, bem como no campo dos Direitos Humanos, onde se teme a gestão de um mandatário radical, a quem se atribuem simpatias pelo pinochetismo e até mesmo por ideias do nazismo — movimento no qual teriam militado os pais e avós do novo presidente, os quais também foram imigrantes em seu tempo.
Certamente, a tranquilidade política nas ruas durante o governo de Gabriel Boric deveu-se ao fato de que muitos dos que promoveram, por exemplo, o Estallido Social de 2019, chegaram ao Executivo e passaram a colaborar com ele por meio de assessorias e fundações que lhes deram abrigo. Trata-se justamente dessa “crosta parasitária” que o governo de Kast se propõe a extirpar de toda a administração pública a partir do primeiro dia de sua gestão.
Supõe-se que, inevitavelmente, os grupos opositores serão ativados, agora que todo o antigo oficialismo estará com os dois pés nas ruas, somando-se às ações dos partidos de centro-esquerda a partir dos meios de comunicação e do próprio Parlamento.
Prejudicará o povo que o elegeu?
No entanto, não se pode ignorar o imenso apoio popular obtido por Kast, por seu Partido Republicano e pelas coletividades da centro-direita, que também conseguiram presença nas mobilizações de rua. Todos eles veem na direita a possibilidade de se manter no poder por mais de um ou dois períodos presidenciais, como afirmou o ex-líder da União Democrática Independente (UDI), Pablo Longueira.

Dessa forma, o novo governo deveria se comprometer a manter os direitos conquistados pelo povo em matéria salarial e sindical, bem como a promover novos avanços que assegurem a paz social. Não lhe bastará combater os grupos mais radicais da esquerda sem resolver a trágica realidade das milhares de famílias que vivem em acampamentos ao longo de todo o país, a situação do milhão de desempregados e, conforme prometido, pôr fim às longas filas de espera nos hospitais. Soma-se a tudo isso a necessidade de reformar o sistema previdenciário e atender às demandas educacionais, onde hoje se observa um clima extremo de tensão, marcado por violentas manifestações estudantis.
A tarefa do próximo governante será muito árdua, uma vez que ele também se propõe a uma drástica redução do orçamento fiscal, o que implica o combate à corrupção que compromete toda a administração pública — incluindo os tribunais de justiça —, não poucos municípios e, inclusive, as polícias e as Forças Armadas — ou seja, até onde se estende a longa mão do narcotráfico no suborno e na malversação dos recursos públicos.
A “mudança” prometida por Kast supõe ainda uma profunda inovação na diplomacia chilena, de modo a fortalecer relações de amizade, por exemplo, com os regimes da Argentina e de El Salvador, bem como a estimular a desestabilização do governo venezuelano — postura bastante consonante com as ações do presidente estadunidense Donald Trump na América Latina, as quais ameaçam a soberania de suas nações.
Essa guinada nas relações exteriores prenuncia tensões internas, se considerarmos os muitos chilenos de orientação latino-americanista e anti-imperialista que não estão dispostos a alinhar a política externa chilena aos regimes de direita que hoje se multiplicam em todo o mundo.
Ainda que os resultados eleitorais sejam muito contundentes, neste caso em favor da ultradireita, não se pode descartar que, entre os votos dados a Kast, haja muitos eleitores que o apoiaram por enxergar nele a possibilidade de neutralizar a criminalidade expressa em múltiplos homicídios, roubos, sequestros, assaltos e outros delitos. Apostam, assim, na existência de uma ação governamental drástica que cumpra a promessa de recolocar o Chile entre os países mais seguros do mundo, seguindo, nesse aspecto, os passos do presidente salvadorenho Nayib Bukele, que teria reduzido quase a zero o fenômeno da criminalidade em seu país. Isso ocorre porque a propaganda eleitoral e a orientação midiática foram eficazes em convencer os chilenos de que vivem uma realidade certamente exagerada, se comparada ao que de fato ocorre nos países mais afetados pela chaga da insegurança social.
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Somado ao que foi exposto, é preciso registrar as denúncias e ações judiciais relativas à corrupção envolvendo militantes e operadores políticos do governo de Gabriel Boric, possivelmente também exageradas durante a disputa eleitoral. Processos que poderão ser esclarecidos ao longo da gestão do novo governo, gerando as tensões correspondentes.
É necessário reconhecer a debilidade governativa de todos os últimos governos, tanto de centro-esquerda quanto de direita, que deixaram o país com crescimento econômico mínimo e elevados índices de inconformidade social. Governos liderados por mandatários que venceram eleições, mas que muito rapidamente perderam apoio popular no exercício do poder.
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Isso explica, em grande medida, a agulha eleitoral inclinada agora a favor do candidato mais radicalizado da direita, tal como ocorreu em outros momentos da história universal e regional, que resultaram em governos autoritários ou até mesmo totalitários. Ainda assim, é preciso aceitar que foram sobretudo o acúmulo de erros e despropósitos dos governos anteriores que levaram a cidadania nacional a apostar na saída mais extrema.
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Faz-se necessária a autocrítica dos derrotados, assim como a temperança dos novos mandatários. Pois é igualmente evidente que temos uma população profundamente dividida e indignada diante das desigualdades sociais, do sectarismo, do caudilhismo e do ideologismo insensato — fatores que, se prolongados, continuarão a tensionar gravemente a convivência.
Convém acrescentar que o Chile viveu a campanha eleitoral mais suja das últimas décadas, especialmente em razão do desempenho irresponsável nas redes sociais e do protagonismo televisivo de um jornalismo gravemente enviesado. Tudo isso não contribuiu para um voto livre e informado, considerando o baixo nível educacional da população chilena e sua escassa vocação cívica.

