Artistas, escritores e músicos transformam indignação em linguagem pública, denunciando a escalada fascista do regime de Donald Trump
São versos contemporâneos e histórias de lutas e resistência; são expressões de ira, condenação e dignidade na música, nos cartazes e no resgate de literatura, discursos e declarações de décadas e até séculos atrás que, de repente, voltam a ser muito urgentes, mesclados com expressões que nascem nesta conjuntura. Versos e prosa, gráficos, ecos e ritmos nos EUA que deixam claro do que se trata.
Que nosso país
nos dispare pelas costas
não é apenas brutal…
é execução…
Nossa maior ameaça
não são os de fora entre nós…
Não temas os que não têm papéis,
mas os que não têm consciência…
A única coisa que não morre é a misericórdia, a coragem de nos abrirmos como portas,
abraçar nossos vizinhos
e salvar mais uma vida brilhante, impossível.
Fragmento do poema Para Alex Jeffrey Pretti – assassinado pelo ICE em 24 de janeiro de 2026, de Amanda Gorman. A autora é a mais reconhecida jovem poeta dos Estados Unidos:
“Parece fascismo, soa como fascismo, age como fascismo, se veste como fascismo, fala como fascismo, mata como fascismo e mente como fascismo, irmãos e irmãs, é o maldito fascismo. Está aqui, é agora, está na minha cidade, está na sua, e precisa ser resistido, protestado… precisa ser expulso. Por quem? Por você e por mim. Mineápolis é uma inspiração para toda a nação… Não há ninguém que venha nos salvar além de nós mesmos”, afirmou o músico Tom Morello em um concerto na referida cidade na semana passada.
Em um ato organizado pelo grande centro cultural nova-iorquino The Public Theater, em suas escadarias de entrada, dezenas de artistas consagrados e iniciantes, políticos locais, escritores, dramaturgos e poetas fizeram leituras durante oito horas de fragmentos de discursos famosos, de romances (incluindo o inevitável 1984, de George Orwell), poemas e até partes da Constituição e da Declaração de Independência, em um ato de denúncia, protesto e solidariedade. De Susan Sarandon a Peter Dinklage, Christine Baranski, John Leguizamo, Oscar Isaac, Lin-Manuel Miranda e Tony Kushner, entre outros, participaram do evento local, que também foi transmitido ao vivo pela internet para todo o país. Entre as leituras, um fragmento do discurso de Martin Luther King Jr. ao receber o Prêmio Nobel da Paz:
A não violência é a resposta à questão política e moral crucial de nosso tempo, a necessidade do ser humano de superar a opressão e a violência sem recorrer à violência e à opressão… Creio que a verdade desarmada e o amor incondicional terão a palavra final na realidade.Martin Luther King Jr.
De vez em quando, as leituras eram interrompidas por motoristas que passavam gritando “fuck ICE” (“Dane-se o ICE”, em tradução livre), e o público respondia do mesmo modo.
Na cerimônia do Grammy, transmitida mundialmente neste domingo (1º), vários músicos usavam bottons com os dizeres “ICE Out” (“Fora ICE”, em tradução livre). Entre eles estava Bad Bunny, que será a estrela do show do intervalo do Super Bowl no próximo domingo (8) e prometeu fazê-lo quase todo em espanhol. O Green Day, que será a atração de abertura do mesmo evento esportivo, são roqueiros que em todos os seus shows recentes convidaram o público a entoar “Fuck ICE” e “Fuck Trump” (“Dane-se Trump”, em tradução livre). De fato, o presidente dos Estados Unidos expressou irritação com a escolha de ambos e decidiu não comparecer ao espetáculo televisivo mais assistido do ano no país — ou seja, ficou com medo.
Uma cidade em chamas luta contra fogo e gelo
Sob as botas do ocupante…
Na primeira luz do amanhecer
Cidadãos se levantaram pela justiça
Suas vozes ecoando ao longo da noite…
E dois mortos, nas ruas cobertas de neve
Alex Pretti e Renee Good.
Oh, nossa Mineápolis, ouço a tua voz
Cantando através da névoa ensanguentada
Aqui estaremos defendendo nossa terra
E o estrangeiro entre nós…
Lembraremos os nomes daqueles que morreram
Nas ruas de Mineápolis…
Fora ICE.
Fragmento da nova canção de Bruce Springsteen, Ruas de Mineápolis, que já ocupa o primeiro lugar em vários países.
São apenas alguns vislumbres do que este momento representa nos Estados Unidos.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

