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Eleições no Peru: ausência de alianças estratégicas impõe desafio à Esquerda

É comum em setores populares a frase “Unidos, venceremos”. Parodiando a realidade e levando em conta o que ocorre hoje no Peru, poderíamos então nos perguntar sobre a validade do oposto dessa expressão: “Divididos, perderemos?”

Ocorre que, encerrado o prazo para a inscrição das alianças eleitorais, a esquerda deixou claro, mais uma vez, sua ostentosa debilidade. Por exemplo, ficaram fora das alianças aqueles que poderiam ser chamados de “partidos históricos da esquerda peruana”, ou seja, os Partidos Comunistas, nenhum dos quais fez, à época, esforços concretos para obter sua inscrição direta e própria no registro eleitoral.

Que um PC decida não participar de um evento eleitoral poderia ser considerado uma tática, ou mesmo resultar de uma análise política e até ideológica. Poderia se apoiar na ideia de que se trata de “eleições burguesas” e “carnavais eleitorais convocados pela classe dominante para distrair a atenção cidadã” e, portanto, merecer a indiferença dos comunistas e dos trabalhadores, e até seu repúdio.

Afinal, em seu tempo, Lenin chamou o Congresso de “estábulo parlamentar” e demonstrou pelas Câmaras Legislativas um desprezo qualificado e merecido. Isso foi sobretudo em 1906, depois da primeira Revolução Russa — a de 1905 — afogada em sangue nas barricadas de Moscou.

Dois anos depois, em 1908, o mesmo Lenin recomendava participar das eleições da Duma — o parlamento russo da época — e enfrentava inclusive a oposição radical de pessoas muito próximas a ele, os “optovistas” liderados por Bogdanov e até Anatoly Lunacharqui, qualificados revolucionários daquele tempo e adversários temporários do líder bolchevique.

Para Lenin, participar ou não de eleições burguesas não era uma questão de princípios, mas sim uma mera tática, que respondia a considerações concretas mais do que a análises teóricas. Ainda assim, estava ligada ao nível da luta de classes e ao grau de fortaleza que tivessem alcançado a unidade, a organização e a consciência de classe do proletariado.

No caso peruano, e quanto à decisão dos PCs, essa análise parece ter estado ausente. O PR quis participar e criou uma espécie de “carta de apresentação” – a Frente de Trabalhadores e Empreendedores –, mas parece que, no caminho, alguém lhes tomou a organização nascente e ficou com a sigla, decidindo com ela se unir a um “partido” de centro-direita liderado por Marisol Pérez Tello.

No caso do PC, parece ter iniciado algumas iniciativas e deixado-as truncadas, por considerá-las talvez inviáveis ou excessivamente trabalhosas. Em todo caso, parece se inclinar a se somar a alguma das candidaturas já lançadas, possivelmente à que julgue mais próxima dos interesses dos trabalhadores.

O fato é que as duas alianças “progressistas” constituídas deixaram de fora os Partidos Comunistas. E os outros já inscritos irão “sozinhos”. Se alguém quiser se candidatar como “convidado” em alguma dessas listas, poderá fazê-lo com outra sigla e representação, sem levar em conta sua verdadeira filiação política, se é que a tiver.

Além disso, as “alianças” inscritas deixaram pontas soltas: vários movimentos formalmente proclamados como “de esquerda” – entre eles “Juntos pelo Peru” – ficaram de fora e soltos. Agora, buscarão disputar suas próprias corridas e deixar pelo caminho aqueles que não os consideraram.

Desse modo, crescerão as propostas “de esquerda” e se multiplicarão as “alternativas” populares. E isso não fará bem a ninguém, exceto à reação.

O que se pode dizer que ficou claro neste assunto das “alianças”, tanto as inscritas quanto as frustradas, é que nelas esteve ausente o tema ideológico e político. Só se levaram em conta dois fatores: o interesse eleitoral coletivo (quantos votos poderemos alcançar) e as aspirações pessoais dos dirigentes.

Ainda assim, pode-se considerar a aliança melhor forjada aquela que integrou o Nuevo Perú e o Vozes do Povo, inscrita sob a denominação de “Venceremos”. Embora sejam fracos seus componentes, pode-se presumir que a unidade os tornará um pouco mais fortes. Em todo caso, seus integrantes fizeram um esforço que talvez valha a pena.

Não obstante todas as dificuldades, ninguém poderia dizer que tudo está perdido. Não somente porque, no campo da direita, se vive um cenário de dispersão semelhante, mas também porque esse segmento carrega a pesada mochila de se identificar com o governo de Boluarte.

Embora façam imensos esforços para sublinhar que ela foi “vice-presidenta de Castillo”, isso não convencerá ninguém. São eles que a mantêm no poder e a orientam para que governe como governa, dando completamente as costas ao povo.

O keikismo e seus aliados não poderão evitar a carga que isso representa. E, no devido momento, a cidadania, inexoravelmente, lhes passará a conta. Fuerza Popular, Avanza País, APP, Somos Perú e até Perú Libre encontrarão uma boa dose de rejeição em cada urna nas eleições que se avizinham. Não poderão evitá-lo.

Fato é que todos sabem que, por trás das calamidades que afligem os peruanos, está a mão de Dina e dos seus, que organizam inclusive bandos criminosos integrados por chefes da polícia, aos quais enchem de benefícios e privilégios e que, além disso, “plantam” armas e drogas para encarcerar inocentes, justificando falsos “operativos exitosos contra o crime”.

Gustavo Petro

Por ora, a direita e seus porta-vozes se deleitam com as declarações de Gustavo Petro sobre o tema de Santa Rosa e a fronteira com a Colômbia. E usam o assunto para atacar o mandatário colombiano, a quem detestam porque é de esquerda, porque sob sua administração Uribe foi condenado e, além disso, porque rejeita Boluarte. Em outras palavras, porque acumula “razões” suficientes para merecer o repúdio dos poderosos.

Curiosamente, acusam o presidente colombiano de “usar” o tema para “desviar a atenção de seu povo”, mas ocultam a realidade: o regime peruano usa artificialmente o assunto para mudar o foco e evitar que se discuta a insegurança cidadã, substituindo-a pela suposta necessidade “patriótica” de mobilizar tropas e condenar Petro. E isso, com a complacência, claro, da Grande Imprensa e dos áulicos de sempre.

No cúmulo do ridículo, os porta-vozes da reação asseguram que Petro precisa se agarrar a este tema para “recuperar popularidade”, dado que conta apenas com 40% de aprovação e 60% de rejeição. Omitindo que é exatamente o contrário, pois é Dina quem conta apenas com 2,1% de aprovação e, em contrapartida, 97,9% a repudia. Quem é que precisa levantar este tema para ganhar popularidade, então?

Por enquanto, os moradores da ilha Santa Rosa estão agradecidos ao presidente da Colômbia. Graças a ele, Lima se lembrou de que eram peruanos e, então, enviou ministros, funcionários e promessas para reverter a realidade e o estado de abandono que os aflige.

Retomando o tema eleitoral, diremos que nada está perdido, porque a batalha política ainda está no seu início.

Em última instância, a unidade será feita pelas massas, que decidirão o que lhes parecer melhor. O que não é possível forjar “por cima” terá de ser construído “de baixo”. E o povo sabe como fazê-lo.

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