Votação neste domingo ocorreu com normalidade, embora país tenha registrado casos isolados de hostilidades, sobretudo contra Andrónico Rodríguez
O povo boliviano quer a paz, mas não a paz do rebanho. Esse povo que finca raízes nas lutas históricas de suas nações indígenas, de mineiros, camponeses, cocaleiros e organizações de base em geral, passou pelas urnas mas segue alerta diante do que virá. Não é um momento fácil para o país. Sua política é atravessada por intensos debates, por vezes violentos, e frequentemente parece que essa hostilidade no discurso vem de cima para baixo. Da dirigência para a militância e para a cidadania em geral.
As eleições recém-concluídas transcorreram, em linhas gerais, com tranquilidade. Mas houve exceções: ataques a presidenciáveis, insultos e pedradas na hora em que foram votar. Relataram-se incidentes no Trópico de Cochabamba e em Santa Cruz, houve denúncias de ataques cibernéticos, rumores de motins na penitenciária de segurança máxima de Chonchocoro e acusações cruzadas de fraudes sem comprovação.
O Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) informou que a jornada transcorreu sem contratempos dignos de nota, com apenas algumas mesas fechadas em centros de detenção. Delegações da União Europeia e da OEA concordaram com essa avaliação e parabenizaram esse povo pacífico por seu civismo. Mesmo setores constantemente observados com lupa pelo revanchismo da direita — sobretudo os do Movimento ao Socialismo (MAS), que respondem a seu líder histórico Evo Morales —, não podem ser responsabilizados por nenhuma campanha desestabilizadora.
Referências cocaleiras deram uma entrevista coletiva na qual desmentiram o governo de Luis Arce — seu ex-aliado — quanto ao que chamaram de “supostas tomadas de instituições dos tribunais eleitorais em diferentes departamentos”. “Em nenhum momento se estabeleceu qualquer ação. Só na quarta-feira teremos uma ampliada nacional para avaliar a conjuntura”, comentou o dirigente Dieter Mendoza.
O senador Andrónico Rodríguez foi alvo do ataque mais grave do dia, ao comparecer para votar em Entre Ríos, departamento de Cochabamba. A terra de onde surgiu sob a tutela de Evo. Atiraram pedras contra ele e contra o carro em que se retirava, e houve confronto entre apoiadores e opositores. “Começaram a jogar pedras, garrafas e cacos de vidro. Dois colegas jornalistas foram atingidos nesses enfrentamentos. Também houve brigas com socos”, descreveu o correspondente de El Deber na região, o jornal de maior circulação da Bolívia.
Rodríguez havia adiado seu voto porque horas antes foi ouvida uma explosão na parte traseira da escola onde estava registrado. Seu rival na interna da esquerda, Eduardo Del Castillo, ex-ministro de Governo de Arce, também enfrentou dificuldades em Santa Cruz, embora não tenha corrido risco de ser apedrejado. Foi vaiado por não esperar sua vez junto aos demais. “Pra fila, que entre na fila como a gente entra na fila nos postos”, gritou uma mulher revoltada. Na mesma cidade, quem passou por situação pior foi Jhonny Fernández, prefeito e candidato presidencial da Fuerza Pueblo. Seus seguranças tiveram que intervir quando um grupo de pessoas tentou avançar sobre ele enquanto se dirigia à sala de votação.
Na capital, onde pela manhã votaram o presidente Arce e o candidato Samuel Doria Medina, não houve incidentes. Jorge Tuto Quiroga, o mais midiático entre os presidenciáveis, começou o dia de madrugada correndo em Santa Cruz, acompanhou sua vice ao voto, fez o mesmo em Cochabamba com sua mãe e encerrou o percurso em La Paz. Foi o último dos candidatos a depositar a cédula na urna.
O empresário Doria Medina denunciou uma tentativa de invasão hacker ao centro de apuração de sua força política, Alianza Unidad, e atribuiu, sem provas, ao MAS a intenção de criar terreno para alegar fraude. Também apareceu cedo em Santa Cruz ao lado de Luis Fernando Camacho Parada, filho do governador cruceño preso por golpismo, Luis Fernando Camacho Vaca. Doria Medina deu respaldo, com sua presença, à denúncia do primeiro de que seu pai corria perigo na penitenciária de segurança máxima de Chonchocoro por conta de um motim iminente — posteriormente desmentido pelo diretor do presídio. Sua versão se baseava no fato de que Eva Liz Morales, filha de Evo, teria se reunido com sete pessoas na prisão. E que, além disso, ao líder dos cívicos cruceños de extrema-direita teriam sido entregues um colete à prova de balas e um capacete como medida de precaução.
Morales, distante dessas disputas, hostilidades ou pressões sobre os diversos candidatos, votou cercado por sua gente em uma escola no Trópico de Cochabamba. Seus apoiadores formaram uma corrente humana ao seu redor e o aplaudiram enquanto caminhava até a escola da vila 14 de Septiembre. Nesse lugar, ele se sente seguro, fora do alcance da ordem de prisão que pesa contra ele. Praticamente todos os candidatos da direita já anunciaram que o encarcerarão, caso qualquer um deles chegue ao governo.

