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Do México a Guernica: herdeiro de Franco, rei da Espanha insiste em não reconhecer massacres

Na última sexta-feira (28), representantes políticos do nacionalismo basco exigiram ao rei da Espanha, Felipe VI, que, como “herdeiro” da ditadura franquista, peça perdão à cidadania da localidade de Guernica, onde em 1937 se registrou o primeiro bombardeio indiscriminado contra uma população civil, perpetrado pelo exército nazista em plena Guerra Civil a pedido do então general sublevado Francisco Franco.

Diferentemente da Alemanha — que, representada pelo presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, reconheceu a responsabilidade do então regime alemão pelo massacre —, nem a Casa Real nem o governo espanhol aceitaram realizar o gesto de contrição e reconciliação. A postura é a mesma ocorrida diante das reivindicações de perdão aos povos originários da América Latina em geral, e do México em particular, pelos abusos e excessos cometidos durante a Conquista e o período colonial.

O bombardeio de 1937

Em 26 de abril de 1937, com a praça do povo repleta de comerciantes e moradores, a cidade de Guernica foi bombardeada sem piedade pela Legião Condor alemã, apoiada pela aviação italiana, a pedido do grupo fascista espanhol em plena Guerra Civil (1936-1939).

O saldo do ataque, segundo os informes mais recentes publicados pelo governo basco, foi de 1.654 pessoas assassinadas e 889 feridas, além da destruição quase total da pequena localidade da província de Biscaia.

Esse episódio histórico, um dos mais graves do cruento enfrentamento civil na Espanha, também passou à história como o primeiro bombardeio indiscriminado contra uma população civil por um exército, o que por sua vez inspirou o pintor espanhol Pablo Picasso na criação de uma de suas obras mais importantes, o mural Guernica, que rapidamente se converteu em símbolo de inspiração na luta pacifista e antibelicista.

Steinmeier, presidente e chefe de Estado da Alemanha, visitou a localidade basca para pedir perdão por esse episódio e o fez acompanhado do rei Felipe VI.

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Daí que representantes do Partido Nacionalista Basco (PNV) e da coalizão da esquerda separatista Euskal Herria Bildu (EH-Bildu) aproveitaram sua visita para reclamar também um perdão público por parte do monarca espanhol, em sua condição de herdeiro do regime que apoiou esse massacre.

Um mero acompanhante

Aitor Esteban, presidente do PNV, afirmou que o governo federal alemão atual “não tem nada a ver com a Alemanha nazista, mas a chefia de Estado na Espanha procede de uma transição na qual a monarquia foi imposta pelo regime de Franco. Por isso é incompreensível que o rei venha a Guernica e não faça o mesmo gesto de pedido de perdão”. E acrescentou: “Se vem até aqui, deve ter algum significado, que não seja ser um mero acompanhante.”

O deputado de EH-Bildu, Oskar Matute, por sua vez declarou: “O franquismo e Franco, que inclusive após morrer deixou tudo atado e bem atado, são responsáveis pelo que ocorreu aqui, por isso, seus herdeiros também são responsáveis.”

Assim concluiu Matute: “Hoje [28/11] é um dia significativo para o povo de Guernica e para toda Euskal Herria. E quisemos estar aqui, mais uma vez, para reivindicar o antifascismo e uma memória completa. A memória e o reconhecimento às vítimas do bombardeio foram, durante décadas, um clamor neste país.”

Milhares protestam contra Governo Sánchez

No último domingo (30), no centro de Madri, mais de 40 mil pessoas, segundo a Delegação do Governo central na capital espanhola, e 80 mil, segundo o direitista Partido Popular (PP), expressaram repúdio ao acúmulo de casos de corrupção que surgiram no entorno do Executivo, presidido pelo socialista Pedro Sánchez. O Templo de Debod, um monumento egípcio doado à capital espanhola em 1968 pelo Egito, foi o marco da primeira grande concentração.

Na concentração, convocada pelo Partido Popular, de direita, os manifestantes exigiram a convocação de eleições gerais antecipadas diante do colapso da atual legislatura, destacando a falta de aprovação de orçamentos nos últimos três anos, a condenação do procurador-geral do Estado pelo crime de revelação de segredos e a falta de apoio do atual governo no Parlamento para levar adiante suas iniciativas, sobretudo após a retirada do apoio dos nacionalistas catalães do Junts per Catalunya (JxCat), que alegam que os acordos firmados em 2023 para apoiar Sánchez vêm sendo sistematicamente descumpridos.

As últimas eleições gerais, em julho de 2023, deram a vitória ao PP, mas o partido foi incapaz de somar apoios suficientes para alcançar uma maioria parlamentar que lhe garantisse a investidura — o que Pedro Sánchez conseguiu, conquistando sua primeira reeleição no cargo que já ocupa há sete anos. Isso foi possível graças a um pacto entre vários partidos, com diferentes orientações ideológicas e interesses: desde a coalizão de esquerda Sumar — que integra o Executivo — até os independentistas catalães, bascos e galegos de esquerda e os nacionalistas bascos e catalães de direita. Graças a essa aliança, a investidura do socialista foi alcançada, mas o pacto não serviu para aprovar os orçamentos nos últimos três anos, e poucas leis ou reformas foram aprovadas por falta de votos no Congresso.

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O mais grave para o Executivo de Sánchez é a proliferação de casos de corrupção ao seu redor: seus dois ex-secretários de Organização no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Santos Cerdán e José Luis Ábalos, são processados por corrupção e tráfico de influência: o primeiro está em liberdade condicional com acusações após passar mais de 120 dias na prisão, e o segundo se encontra preso desde a semana passada, após a Procuradoria Anticorrupção solicitar uma pena de 24 anos contra ele.

Foi nesse contexto que o PP convocou seus militantes e simpatizantes, que compareceram em massa à concentração de dezenas de milhares de pessoas, portando bandeiras espanholas e cartazes nos quais qualificaram o governo como “máfia”, “corrupto” e “delinquente”.

O líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, afirmou diante de seus seguidores: “Nem mais um dia de abuso, mentiras, impunidade e corrupção. Nem mais um dia deste governo. Porque eles perderam a vergonha, mas a Espanha não perdeu a dignidade. E por isso estamos aqui. O sanchismo é corrupção. É corrupção política, econômica, institucional, social e moral. O sanchismo está na prisão e tem que sair do governo.”

Após a concentração, dezenas de pessoas tentaram se aproximar da sede central do PSOE, na rua Ferraz, a apenas alguns metros do Templo de Debod, mas foram impedidas por agentes antidistúrbios, que em alguns momentos utilizaram seus cassetetes para evitar o avanço dos manifestantes.

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