“Quem está no fundo dos povos, como no fundo dos homens,
que, a despeito deles mesmos, e com voz determinada e imponente,
aconselha ao ouvido o que, nas horas de perigo, devem fazer,
e os lança pelo caminho da salvação, em temporâneo arrebato de virtude,
que os sustenta e levanta quando já estão à beira da queda?”
José Martí, 1885 [1]
Como situar a agressão de que vem sendo objeto o povo da Venezuela nas circunstâncias de nosso tempo? Como incorporar essa experiência às tarefas de previsão que os tempos por vir demandam? São múltiplos os fatores que convergem nesse problema. Eles se sintetizam na crise geral pela qual atravessa a organização internacional do sistema mundial estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, mas também — e talvez sobretudo — no fato de que essa crise ingressou em uma fase de transição na qual aquele sistema se vê esgarçado, sem que ainda tenha tomado corpo aquele que deverá substituí-lo.
A isso se refere, por exemplo, o economista boliviano Álvaro García Linera em um artigo intitulado O tempo obscuro dos leviatãs, publicado pelo jornal argentino Página 12 [2] em 10 de janeiro. Suas primeiras linhas nos conduzem diretamente à transição em questão. “É catastrófico, mas real”, diz o autor: “A ‘ordem internacional baseada em regras’ morreu. O conjunto de normas e instituições que regulamentavam grande parte da convivência entre os Estados nacionais foi enterrado por quem foi seu criador: os EUA.”
Aquela ordem buscava se regular “por três princípios básicos: a) o respeito mútuo à soberania territorial dos Estados; b) a aceitação compartilhada de que cada país deve resolver internamente seus assuntos políticos sem interferência estrangeira; c) a resolução pacífica de controvérsias entre Estados”.
As grandes potências, acrescenta, “podiam violar pontualmente essas regras, mas elas constituíam um destino-força em torno do qual se regulavam os vínculos e as legitimidades das ações estatais”.
Na década de 1990, com o auge da globalização, aquela ordem mundial deu lugar a uma expansão sem precedentes do livre comércio de mercadorias e capitais, acompanhada da proteção ao investimento estrangeiro, de cadeias de valor mundializadas e de “valores expansivos” de cunho liberal-democrático. Esse auge converteu-se em uma crise que supõe
uma reorganização dos atores protagonistas da economia mundial. Se antes eram os mercados anônimos que redefiniam os fluxos de investimento, comércio e rentabilidade, subordinando os Estados a essa lógica, agora serão os próprios Estados que planejarão e utilizarão seus poderes monopolistas para orientar a atuação e o enriquecimento dos capitais.Álvaro García Linera
Estamos, assim, em uma “transição borrascosa, em direção a uma nova ordem que ainda tardará a chegar”. Ela constitui um sintoma “do crepúsculo de um regime de dominação”, do qual participam tanto o ciclo globalista dos últimos 40 anos quanto o “ciclo hegemônico norte-americano dos últimos 100 anos”. E, no que diz respeito à nossa circunstância, destaca-se que:
Todo declínio de uma autoridade exacerba o desespero daqueles que dela se beneficiaram, levando-os a tentar deter o inevitável de maneira violenta. Mas a brutalidade é também um sintoma do nascimento tormentoso da nova ordem. A coerção estatal nua é uma característica própria dos tempos liminares.Álvaro García Linera
Para García Linera, essa nova ordem operaria a partir de certos “princípios de regularidade” que levariam os Estados a integrar o comando e a reorganização territorial da acumulação de capitais, diferenciando-os entre Estados-padrão e Estados-vassalos, segundo sua capacidade infraestrutural, seu poderio econômico, sua coesão política e sua logística militar. A soberania já não seria um reconhecimento pactuado por tratados internacionais, mas sim resultado de “força econômica, sólida legitimidade interna, capacidade de defesa e possibilidade de infringir danos a outros Estados”. Da mesma forma, a elasticidade das fronteiras regionais “não dependerá de acordos comerciais, mas de ondas de guerras tarifárias, chantagens geopolíticas e intromissões na vida interna dos Estados”.
Nessa perspectiva, o pior da transição converter-se-ia na norma da nova ordem que dela resultar. No entanto, o declínio de uma forma de autoridade também expressa o desenvolvimento de novas formas na configuração do sistema mundial. A isso se refere, por exemplo, Ana Palacio [3] — ex-ministra das Relações Exteriores da Espanha e professora convidada da Universidade de Georgetown — em um artigo para o El País, no qual aborda o papel desempenhado por outros atores relevantes na transição. “Países como Brasil e Índia”, afirma, não se dobraram às tendências emergentes do Norte, “mas buscaram preservar sua autonomia e identificar as oportunidades criadas por essa nova ordem do pós-guerra”. A China, por sua vez,
deu um passo além. Depois de tentar durante muito tempo deslocar o Ocidente da política internacional, os líderes chineses viram na perturbação provocada por Trump em 2025 uma oportunidade: um mundo desestabilizado pela retirada dos Estados Unidos da liderança global inclinar-se-ia a acolher um novo defensor da estabilidade e da continuidade. Ao posicionar-se em conformidade, a China tornou-se a principal beneficiária da agitação.Ana Palacio
O que finalmente resultar dessa busca por novos caminhos será um todo superior à soma de suas partes, ou não será. Para todas as sociedades de nossa América, isso exige refletir de maneira proativa sobre um entorno por vezes volátil e ameaçador, a fim de transcender suas aparências imediatas e atender às suas tendências fundamentais. Assim, por exemplo, a decisão do governo dos Estados Unidos de dissociar-se de uma série de organismos e organizações internacionais que não correspondem a seus interesses — como o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, o Instituto de Análise da Mudança Global e os Conselhos Econômicos e Sociais regionais da Organização das Nações Unidas (ONU) — expressa uma tendência que limita a capacidade de nossos Estados de incidir sobre o desenvolvimento imediato da transição e exige formas mais ricas e amplas de participação de nossas sociedades na construção de novas modalidades de incidência a partir de nossos povos.
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Aqui não se trata apenas, em termos gerais, de que governar é prever. Trata-se, em particular, de contribuir para vincular nossas sociedades a esse processo de transição, sobretudo no que diz respeito à construção de relações e capacidades voltadas à sustentabilidade do desenvolvimento humano em nosso âmbito glocal.
Para tudo isso, haverá necessidades a atender e espaços a criar no que resultar dessa crise de transição. Para nossa América, o ponto de partida dessa tarefa reside na decomposição do auge progressista do início do século 21 — de Néstor Kirchner a Javier Milei, ou de Rafael Correa a Daniel Noboa, por um lado — e, por outro, na conformação de um grupo de Estados com governos de centro-esquerda, assim chamados, integrado por México, Brasil e Colômbia.
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Aqui está em jogo a disputa pela hegemonia em sociedades imersas em processos de decomposição de projetos progressistas esgotados. Para os setores dominantes, o principal recurso nessa disputa reside já em sua capacidade de intervenção político-militar e ideológica: interna, no plano do cotidiano; externa, quando isso não basta para atender às necessidades de sua própria dominação em sociedades em curso de transformação.
Aqui, o verdadeiro desafio político não está em preservar o sistema que se fragmenta, mas em construir aquele que o substitua. Para isso concorrem experiências do passado e expectativas de futuro que convergem com o que foi formulado por Antonio Gramsci [4] em referência a outros processos de transição. “Na realidade” disse,
cada fase histórica deixa marcas de si nas fases sucessivas, marcas que são, em certo sentido, o melhor documento. O processo de desenvolvimento histórico é uma unidade no tempo, pela qual o presente contém todo o passado e do passado se realiza no presente tudo o que é “essencial”, sem resíduo de um “incognoscível” que seria a verdadeira “essência”. O que se “perdeu”, o que não foi transmitido dialeticamente no processo histórico, era por si mesmo irrelevante, era “escória” casual e contingente, crônica e não história, episódio superficial, digno de ser esquecido, em última instância.Antonio Gramsci
Nesta hora de perigo, há de vir do fundo dos povos a voz que oriente a recuperação do melhor de nosso passado para a construção de um futuro que nos livre do perigo da queda, como advertia Martí. Como nunca, para enxertar o mundo em nossas repúblicas, é necessário que o tronco seja o de nossas repúblicas. Em compreender e exercer essa verdade elementar está a chave para contribuir, a partir do Novo Mundo de ontem, para a construção do Mundo Novo de amanhã.
Alto Boquete, Panamá, 17 de janeiro de 2026
Notas
[1] “Cartas de Martí”. La Nación, Buenos Aires, 9 de maio de 1885. X, 187-188.
[2] https://www.pagina12. com.ar/2026/01/11/el-tiempo-oscuro-de-los-leviatanes-2/
[3] “A ordem mundial posterior a 2025” https://www.project-syndicate.org/commentary/china-seeks-to-reshape-world-order-trump-has-abando ned-by-ana-palacio-2026-01
[4] Gramsci, Antonio (2003:106): O Materialismo Histórico e a Filosofia de Benedetto Croce. Nueva Visión, Buenos Aires.
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