As manifestações que sacudiram o Irã entre o final de dezembro de 2025 e os primeiros dias de janeiro de 2026 emergiram em um contexto de forte pressão econômica provocada pelo endurecimento das sanções unilaterais dos Estados Unidos, pela instabilidade cambial e pelo aumento do custo de vida nas principais cidades do país. Inicialmente impulsionados por reivindicações sociais ligadas à inflação, à desvalorização acelerada do rial e às dificuldades enfrentadas por comerciantes e trabalhadores urbanos, os protestos rapidamente passaram a ocupar o centro da disputa geopolítica internacional.
Em poucas semanas, mobilizações localizadas — sobretudo em Teerã e em importantes centros comerciais — foram amplificadas por campanhas digitais externas e por redes políticas ligadas à oposição no exílio, transformando demandas econômicas legítimas em um cenário de confrontação política explorado por potências ocidentais interessadas em fragilizar o Estado iraniano em um momento decisivo da transição para uma ordem mundial multipolar.
A escalada coincidiu com o recrudescimento das tensões regionais no Oriente Médio e com a intensificação da ofensiva diplomática e tecnológica de Washington e de seus aliados contra países que desafiam sua hegemonia energética e financeira. Assim como ocorre há anos com a Venezuela, o Irã tornou-se alvo simultâneo de guerra econômica, operações de influência informacional e tentativas de fomentar processos de desestabilização interna sob o discurso da “defesa da democracia”.
É nesse contexto que Shervin Ahmadi, jornalista iraniano radicado em Paris, delineia um marco geopolítico em que Irã e Venezuela aparecem não apenas como aliados estratégicos, mas como expressões de uma mesma resistência soberana diante das pressões imperiais.
Responsável pela edição persa do Le Monde Diplomatique, intelectual e analista atento à política iraniana e à geopolítica regional, Ahmadi viajou recentemente a Teerã. Ao retornar, propõe uma leitura distante dos clichês midiáticos predominantes no Ocidente e situada nos acontecimentos recentes e nas disputas globais que atravessam o país persa em um momento de profunda reconfiguração das relações internacionais. Confira.
* * *
O senhor vive em Paris, mas acaba de voltar do Irã. Pode nos contar sua trajetória e o que motivou sua recente viagem? Que atmosfera encontrou em Teerã em comparação com o relato feito pela mídia hegemônica na Europa?
Há dois anos passo metade do meu tempo no Irã. Estive em Teerã durante os eventos que sacudiram o país nos dias 8 e 9 de janeiro. Em um contexto de crise econômica e de manifestações pacíficas dos comerciantes do bazar, o filho do xá [Reza Pahlavi, o filho mais velho de Mohammad Reza Pahlavi, o último xá, termo relativo a “rei” no Irã], aproveitando o descontentamento generalizado, instou à derrubada do regime, prometendo que estadunidenses e israelenses interviriam para apoiar os manifestantes.
Muitos manifestantes acreditavam que uma aventura semelhante à da Venezuela era possível e esperavam que os Estados Unidos interviessem para sequestrar os dirigentes do país. Assim, as manifestações pacíficas contra a carestia de vida e a desvalorização da moeda local frente ao dólar transformaram-se em confrontos violentos, causando quase 3.500 vítimas, das quais 500 eram membros das forças de segurança, segundo cifras oficiais.
A mídia ocidental anunciou o fim iminente do regime iraniano, transmitindo repetidamente imagens provenientes do Irã. No entanto, a situação no país se acalmou rapidamente. O regime conseguiu retomar o controle graças a uma repressão feroz e ao bloqueio massivo da internet. Afirma-se que até mesmo a Rússia teria desempenhado um papel ao ajudar o regime a neutralizar o sistema Starlink, de Elon Musk. Esse bloqueio da internet mostrou-se muito eficaz, permitindo pôr fim rapidamente às manifestações violentas.
Israel, EUA e o “príncipe” Pahlevi: a quem interessa a “mudança de regime” no Irã?
Outro aspecto, frequentemente ignorado pelos meios de comunicação ocidentais, é o papel desempenhado por Israel por meio do intermediário representado pelo filho do xá. Durante essas manifestações, responsáveis do Mossad teriam enviado mensagens de incentivo aos manifestantes, assegurando-lhes que agentes do Mossad estavam presentes entre eles para protegê-los das forças repressivas do regime.
Venezuela e Irã compartilham um destino comum como nações sitiadas por “sanções” que são, na realidade, atos de guerra econômica. Como o povo iraniano vive hoje esse bloqueio e de que forma o Estado consegue manter a coesão nacional apesar da agressão tecnológica e financeira dos Estados Unidos?
A situação é muito complexa no Irã. As sanções dos Estados Unidos, assim como as orientações econômicas do regime, favoreceram o surgimento de clãs oligárquicos que atualmente dominam a economia do país. Esses oligarcas tornaram-se tão poderosos que podem agir inclusive contra o próprio regime.
As manifestações no Irã começaram em reação à desvalorização da moeda local frente ao dólar. Uma parte desses oligarcas, sem dúvida, desempenhou um papel determinante ao comprar massivamente dólares no mercado interno, evitando ao mesmo tempo repatriar as divisas que possuem no exterior. A política neoliberal conduzida por todos os governos nos últimos 30 anos não apenas facilitou a ascensão desses oligarcas, como também contribuiu para o desmonte das conquistas sociais da revolução de 1979.
Assistimos frequentemente a tentativas de “revoluções coloridas” ou à manipulação de reivindicações sociais por parte dos serviços de inteligência ocidentais. Segundo sua análise, como se articulam hoje as manobras de ingerência ocidentais para tentar enfraquecer o Irã a partir de dentro?
As manifestações violentas eclodiram dois dias após a visita de Netanyahu e Trump a Washington. A sincronização entre esses acontecimentos é particularmente suspeita. Alguns analistas sustentam que, durante esse encontro, Netanyahu teria tentado tranquilizar Trump quanto à influência dos serviços secretos israelenses no Irã, incentivando-o ao mesmo tempo a considerar uma intervenção militar contra o país. Uma coisa é certa: os serviços secretos israelenses desempenham um papel importante no Irã. Conseguiram eliminar vários altos responsáveis do programa nuclear iraniano, assim como Ismail Haniyeh, representante do Hamas, durante sua passagem por Teerã para assistir à cerimônia de posse do presidente Pezeshkian. Os agentes israelenses demonstraram uma eficácia temível nessas operações.
Vemos frequentemente o Ocidente utilizar a condição das mulheres no Irã como instrumento de propaganda para deslegitimar o Estado, uma espécie de “feminismo imperial” que ignora os avanços reais das mulheres iranianas nos setores da educação, das ciências e da política. De que maneira essa temática é instrumentalizada a partir de Washington e Bruxelas para justificar o cerco econômico? E qual é a realidade desse feminismo popular e soberano que participa ativamente da resistência da nação?
Para compreender a evolução da situação das mulheres, três dados são muito elucidativos: antes da revolução de 1979, 70% dos iranianos viviam em áreas rurais, 80% das mulheres eram analfabetas e a principal causa de mortalidade infantil era a diarreia, devido à falta de infraestrutura. Em menos de 20 anos, esses números se inverteram. Hoje, 80% dos iranianos vivem nas cidades e a histórica desigualdade entre zonas rurais e urbanas desapareceu. Atualmente, 98% das mulheres sabem ler e escrever e a maioria dos diplomados universitários é composta por mulheres.
“Pirataria” contra Venezuela: Rússia, Irã e Cuba reagem ao roubo de petroleiro pelos EUA
Certamente, as liberdades sociais fazem parte das reivindicações das mulheres, pois a sociedade mudou. No entanto, as reivindicações ligadas à ordem social continuam sendo mais prioritárias para elas. Os meios de comunicação ocidentais frequentemente enfatizam a liberdade social, mas tendem a ignorar as conquistas reais. De fato, observa-se nas sociedades ocidentais um paradoxo: um sistema de liberdade no plano social, mas repressivo no plano econômico e dos direitos. Como dizia a filósofa Michèle Clouscard: “Tudo é permitido, mas nada é possível”.
No cenário internacional, o Irã é um pilar do mundo multipolar e um aliado estratégico da Venezuela e do Brics+. Como Teerã percebe a atual agressão contra Caracas e qual papel desempenha o eixo Teerã-Moscou-Pequim para contrapor a hegemonia de Washington?
O Irã condenou imediatamente o sequestro do presidente Maduro e nunca deixou de apoiar a posição bolivariana da Venezuela. Como membro ativo dos Brics, o Irã ocupa uma posição geoestratégica determinante. Seu território constitui um corredor vital para a Rússia e a China, oferecendo-lhes uma via de escape diante das pressões ocidentais e garantindo acesso seguro ao Oceano Índico.
Em que medida a soberania tecnológica e militar tornou-se o centro da sobrevivência da Revolução iraniana diante das ameaças de Israel e dos Estados Unidos?
O Irã desenvolveu um sistema de mísseis balísticos com alcance de 1.400 km, que demonstrou sua eficácia durante a guerra de 12 dias do último mês de junho contra Israel. Uma das exigências dos Estados Unidos é limitar o alcance dos mísseis iranianos a menos de 250 km, uma demanda que o Irã considera inaceitável. Esse sistema foi concebido e implementado sem ajuda estrangeira, o que demonstra que é integralmente iraniano.
Para concluir, o que diria aos leitores europeus que veem o Irã apenas pelo prisma da “ameaça”, ignorando a resiliência de um povo que se recusa a se ajoelhar?
O Irã é um país muito instruído e moderno, e forma mais engenheiros do que a França. O grande problema do Irã é a predominância de uma visão neoliberal da economia que impede o país de criar empregos para essa juventude instruída. Além disso, os iranianos são muito patriotas e não toleram uma intervenção militar estrangeira.
