Do “Aqui é Jerusalém” (1936) ao genocídio televisionado, a mídia palestina resiste

No rádio, na TV ou no digital, a transmissão a partir de Gaza pode ser interrompida, mas a voz palestina provou e segue provando, há 90 anos, que não pode ser apagada

Na história palestina, a mídia não é medida pelo número de emissoras nem pela potência do sinal, mas pelo momento da primeira fala, quando a voz se transforma em um ato de existência. Em 1936, Mohammad Bishnaq, filho da cidade deslocada de Cesareia, surgiu pelas ondas da Rádio Palestina para pronunciar uma frase que se tornaria um marco na consciência coletiva: “Senhoras e senhores, aqui é Jerusalém”. Não era uma simples frase de abertura, mas uma declaração explícita da presença da Palestina no tempo e no espaço.

Bishnaq, que iniciou seu trabalho com a inauguração da Rádio Palestina em Jerusalém, foi o primeiro radialista palestino a fazer sua voz ecoar pelo rádio. Ao longo de 12 anos, até a Nakba de 1948, sua voz abriu as transmissões a partir de Jerusalém, fixando a cidade pela palavra, em um tempo em que ela era alvo político e geográfico. A ironia é que essa primeira voz palestina veio da garganta de um homem cuja cidade natal seria posteriormente apagada do mapa, como se o destino quisesse condensar a tragédia palestina na trajetória de alguém que antecedeu sua própria Nakba com a voz.

Após a ocupação de Jerusalém em 1948, tudo mudou. A administração da rádio foi transferida para Ramallah e, depois, submetida ao controle jordaniano. Mohammad Bishnaq voltou a se posicionar diante do microfone para dizer desta vez: “Aqui é Amã”. A frase não foi uma simples transição técnica entre duas estações, mas uma condensação dramática de uma transformação política profunda, da perda de uma cidade e do colapso do significado do lugar. A mesma voz permaneceu, mas a geografia foi usurpada, assim como Cesareia e centenas de cidades e vilas palestinas.

Essa história não pertence apenas aos arquivos da mídia, mas ao coração da disputa pela narrativa. Ela confirma que o palestino nunca esteve sem voz nem à margem da modernidade, mas esteve entre os pioneiros no uso do rádio para se comunicar com o mundo, antes do início das tentativas sistemáticas de silenciá-lo ou confiscar sua voz.

Hoje, quase nove décadas após o primeiro “Aqui é Jerusalém”, a mídia palestina vive um momento ainda mais brutal, especialmente na Faixa de Gaza. Ao longo de dois anos de uma guerra de genocídio, a ocupação não se limitou a atacar edifícios e infraestrutura, mas travou uma guerra direta contra a mídia. Sedes de rádios foram destruídas, estúdios bombardeados e todas as emissoras locais de Gaza foram forçadas a sair do ar. Jornalistas foram mortos, suas famílias perseguidas e suas casas destruídas, numa tentativa clara de silenciar a voz e arrancar a narrativa pela raiz.

Do Aqui e Jerusalem 1936 ao genocidio televisionado a midia palestina resiste
Mohammad Bishnaq, autor da célebre transmissão “Aqui é Jerusalém”. (Foto: Matson Collection / Wikimedia Commons)

Mas esse ataque, como em todas as fases anteriores, fracassou em atingir seu objetivo. É verdade que as rádios de Gaza silenciaram tecnicamente, mas sua voz não desapareceu. Ela permaneceu viva nas palavras, nas imagens e na documentação diária que emerge debaixo dos escombros. O jornalista de Gaza transformou-se em uma rádio itinerante, em uma testemunha ocular e em um documento vivo que transmite a verdade quando os equipamentos já não conseguem transmitir.

De Mohammad Bishnaq, que disse “Aqui é Jerusalém” antes da Nakba, aos jornalistas de Gaza que continuam a relatar a verdade sob bombardeio, estende-se a trajetória da mídia palestina como uma cadeia contínua de confronto com as tentativas de apagamento. Os títulos podem mudar, a transmissão pode ser interrompida e o jornalista pode ser assassinado, mas a voz palestina provou, repetidas vezes, que não pode ser apagada.

Na Palestina, a mídia não é apenas uma profissão, mas um ato de resistência. E quando a câmera, o rádio e o microfone são alvos, é porque a verdade continua sendo mais perigosa para a ocupação do que qualquer arma. Por isso, apesar da destruição e do genocídio, a mensagem permanece clara, mesmo que não ecoe pelo éter:

Aqui é a Palestina… a voz que não foi derrotada.

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