O Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes, celebrado em 31 de agosto, convida à reflexão sobre a presença africana na República Dominicana, onde apenas 33% da população se identifica como negra ou parda — um reflexo do racismo estrutural e da negação identitária no país. Confira a análise.
* * *
A história da América Latina é impossível de ser contada sem mencionar a mistura de culturas que moldaram sua identidade — entre elas, a africana, cuja diversidade deixou marcas em muitas nações, inclusive na República Dominicana.
Este foi um dos primeiros territórios para os quais foram trazidos escravizados da distante África. Eles trouxeram consigo, como algo sagrado — talvez para amenizar a dor da ignomínia — as diversas manifestações de sua cultura, enriquecendo, sem saber, o patrimônio imaterial deste Estado caribenho.
Desde a chegada dos primeiros africanos no início do século XVI à ilha batizada de La Española pelos colonizadores europeus (atualmente compartilhada pela República Dominicana e pelo Haiti), para trabalhar à força nas minas e plantações de cana-de-açúcar, eles e seus descendentes passaram a ser parte fundamental da construção social, cultural e econômica deste país e da região do Caribe.
Os escravizados negros não apenas deram seu suor e suas vidas ao desenvolvimento dessas terras caribenhas, mas também marcaram presença no campo social, com sua resiliência e rebeldia na busca pela liberdade.


Foi o que afirmou à Prensa Latina a jornalista dominicana, ativista afro e defensora dos direitos humanos Maribel Núñez, para quem a resistência dos escravizados negros frente ao sistema colonial — a necessidade de lutar, a rebelião contra seus senhores impostos e a não aceitação da escravidão — constitui uma de suas maiores contribuições históricas.
A história registra que o primeiro levante de escravizados negros em Santo Domingo ocorreu em 1522, numa usina de açúcar. “A rebeldia do povo dominicano”, assegura Núñez, “vem desse espírito do negro cimarrón (fugitivo)”.
Resposta cultural dominicana à escravidão
Diante da escravidão, nasceu uma resposta cultural, a qual para Núñez, que é de ascendência haitiana, ainda persiste e tem a religiosidade como elemento central.
Nesse sentido, ela mencionou entre os costumes e tradições herdados os ritmos como o palo, a salve, o balsié e o gagá — todos vindos da África e fundamentais nas celebrações religiosas e sociais do país.

Outros especialistas concordam com Núñez. Na obra “Vozes do Purgatório: estudo da salve dominicana”, a antropóloga Martha Ellen Davis explica que “a salve é assim chamada porque originalmente consistia em versões musicais do texto da oração Salve Regina, de origem eclesiástica, embora atualmente, nesta nação, pouco ou quase nada da letra sagrada seja utilizado”.
Ela observa que “com o tempo, fruto do sincretismo cultural, passou a ser uma expressão ritual que, hoje em dia, é executada em honra a diversos santos e santas — não necessariamente à Virgem Maria — e que também inclui temas seculares”.
No caso da salve dominicana ou crioula, são cantos a capela ou acompanhados por instrumentos de percussão, geralmente interpretados durante as vigílias de santos.
Mas também, afirma Núñez, em épocas de plantio, em algumas zonas rurais, canta-se a salve — principalmente em Baní, Villa Mella e San Cristóbal.
No entanto, ela chama atenção para o fato de que, se antes os negros realizavam celebrações clandestinas para se despedir de seus mortos, nos últimos anos há uma certa resistência à salve popular, ao toque do tambor e ao gagá — consequência da xenofobia e do racismo.
Gagá: tradição cultural e religiosa
A influência africana também se percebe no sincretismo religioso, especialmente nas práticas vinculadas ao vodu dominicano.
Foi nos bateyes (pequenos povoados próximos às usinas de açúcar) que o gagá cresceu — uma tradição cultural e religiosa que mistura catolicismo e vodu, e que os negros das plantações de cana compartilhavam com os trabalhadores dominicanos.
Hoje, em alguns bateyes, embora com certo receio, ainda se desfruta dessa celebração durante a Semana Santa.

O pesquisador dominicano Geo Ripley afirmou certa vez à Prensa Latina que, no gagá, a percussão, a dança e as crenças se fundem como resultado, primeiro, das distintas nacionalidades presentes nas terras colonizadas e, depois, do contato com os trabalhadores haitianos que atuavam nos engenhos de açúcar.
“Trata-se de uma celebração muito particular, que ocorre durante a Semana Santa e está associada ao processo de vida, paixão, morte e ressurreição”, explicou Ripley.
São festas, afirmou ele, que coincidem com os cultos à fertilidade realizados no início da primavera na África — e nelas sobressaem tanto a presença do deus cristão quanto dos espíritos do vodu, os loás, que se identificam com santos cristãos.
Para o professor, esse ritmo folclórico — em que acrobacias com facões e a dança são elementos fundamentais — se enraizou e se enriqueceu na República Dominicana.
O gagá dominicano, com suas cornetas, apitos, tabaco, cerveja e rum, adapta-se ao cerimonial Rará haitiano — termo de origem africana que começa na noite da Quinta-feira Santa e se estende até o Domingo de Páscoa, entrelaçando-se com o ritual vodu.
Na visão do também artista visual, com o passar do tempo, esse som contagiante e alegre deu lugar a celebrações urbanas, nas quais é possível observar uma evolução das vestimentas tradicionais para formas mais modernas, além do uso de outros instrumentos, como a trombeta.
Bachata e merengue
A influência africana na República Dominicana é evidente também em gêneros tão populares como o merengue e a bachata.
Com letras atraentes e românticas, as primeiras bachatas no país — onde a cultura é uma fusão de raízes que permitiram a criação de ritmos únicos — estão registradas no início da década de 1960.
Antes disso, embora fossem tocadas e dançadas, a censura imposta pelo ditador Rafael Leónidas Trujillo impedia que fossem reproduzidas nas rádios. Eram anos em que esse estilo musical era considerado música de pobres, de bordéis e bares.
Como grande parte da música dançante do Caribe, suas raízes estão nos ritmos africanos, no bolero e no som cubano.

Com suas letras melancólicas, a bachata começou a se expandir no gosto popular nos anos 1980, quando sua difusão se tornou massiva nos meios de comunicação, especialmente no rádio.
Quando se fala de Quisqueya, muitos a associam às suas praias — das mais belas do Caribe —, mas também ao merengue, outro ritmo contagiante, considerado a dança nacional.
Alguns historiadores indicam que o nome do gênero procede dos vocábulos muserengue ou tamtam mouringue, dança conhecida de algumas culturas africanas trazidas das costas da Guiné, embora existam outras teses.

Gastronomia: uma das mais apreciadas do Caribe
A culinária da República Dominicana é uma das mais apreciadas do Caribe — talvez por sua mistura de sabores e aromas distantes, que remetem às origens deste país caribenho e de seu povo mestiço.
Os taínos, primeiros habitantes da ilha depois chamada La Española pelos conquistadores europeus, deixaram sua marca na culinária atual com seus temperos. Os espanhóis trouxeram seus pratos tradicionais, e os africanos, os seus — adaptados às colheitas que aqui se produziam.
Dessa união intercultural surgiram as receitas crioulas, sem perder suas essências originais. Entre os alimentos mais utilizados na cozinha nacional estão o arroz, o feijão (vermelho ou carioquinha), a banana-da-terra e a mandioca (aipim).

Uma das iguarias da comida dominicana mais enraizadas na população é o mangú, um purê suave de banana verde, acompanhado de salame, queijo branco frito e ovo — originário da África Ocidental.
Embora em suas comunidades de origem fosse preparado com tubérculos — especialmente mandioca e inhame —, aqui foi substituído pela banana e sobrevive como o café da manhã por excelência da população local.
O delicioso “fufú” africano, que depois mudou de nome na República Dominicana, costumava ser servido pelos criados em suas choças com sobras de peixe, tomate e amendoim triturado, recolhidos das fartas mesas dos europeus.
Com a libertação dos escravizados, aquelas sobras foram substituídas por ingredientes como embutidos, carne seca, queijo e ovos. Por sua simplicidade e alto valor nutritivo, o mangú ultrapassou barreiras sociais e, atualmente, pode ser encontrado tanto no restaurante mais humilde quanto num hotel de luxo.
Devido ao seu valor histórico e simbólico, desde 2021 celebra-se o Dia Nacional do Mangú a cada segundo domingo do Mês da Pátria (26 de janeiro a 9 de março).
Invisibilidade do legado africano
Núñez declarou à Prensa Latina que os atuais grupos de poder impõem sua cultura na República Dominicana e, enquanto promovem a cultura anglo-saxã, omitem a africana — ausente, por exemplo, no teatro, e tampouco ensinada nas escolas.
Nas próprias instituições de ensino, afirma ela, a cultura afrodominicana — tão rica — é excluída, enquanto se impõe um discurso “antinegro”.
Tudo que está associado ao tambor, argumenta, é considerado proveniente do lado oeste da ilha — ou seja, do vizinho e empobrecido Haiti — e, portanto, desvalorizado.
Ainda assim, Núñez reconhece o trabalho de Luis Días, com seus cantos da terra e salves, e o de Xiomara Fortuna, para quem a história da escravidão e a falta de educação sobre a herança afrodescendente influenciam profundamente a forma como os dominicanos percebem sua identidade racial.
Nesse sentido, o censo nacional mais recente revelou que apenas 33% dos dominicanos se identificam como negros ou pardos, o que, segundo analistas, demonstra uma confusão generalizada sobre a identidade no país.
Núñez também destacou o músico dominicano Mario Rivera, reconhecido como um grande jazzista nos Estados Unidos e mestre na fusão de ritmos.

Ela mencionou ainda a Cofradia del Espíritu Santo, conhecida como “Los Congos de Villa Mella” (no município de Santo Domingo Norte), um grupo musical que, segundo ela, representa uma parte fundamental da identidade dominicana.
Os Congos da Cofradia del Espíritu Santo foram reconhecidos em 2001 como Patrimônio Cultural Oral e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Assine nossa newsletter e receba este e outros conteúdos direto no seu e-mail.
Diante dessa realidade, a pesquisadora defende a importância de valorizar as grandes contribuições da África à humanidade, promover o aprendizado e a aceitação de sua cultura e erradicar os preconceitos forjados ao longo da história nacional.
Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.
