A distância entre representantes e os anseios do povo chileno é apontada como fator central para a derrota da esquerda no último domingo (14) — um problema que, aliás, vai além de Boric
Enquanto as direitas se regozijam com a categórica vitória do ultraconservador José Antonio Kast nas eleições presidenciais de domingo (14) no Chile, ao obter cerca de 58% dos votos e em torno de 16 pontos percentuais de vantagem sobre a oficialista Jeannette Jara, no campo progressista começaram as recriminações em torno da surra eleitoral sofrida.
Entre as mais ásperas, a do senador socialista Fidel Espinoza, que criticou o partido governante Frente Ampla (FA), do presidente Gabriel Boric, responsabilizando-o pelo desfecho.
“Nossa derrota começa com o processo constituinte (2022), quando mentes excessivamente fundamentalistas provocaram um rechaço cidadão a esse texto constitucional; ali começou a debacle”, afirmou o parlamentar, que acrescentou: “A isso se soma a posição que o FA teve neste governo, nunca reconhecendo nem fazendo autocrítica diante de lamentáveis fatos de corrupção. Além disso, o fundamentalismo exacerbado de alguns ministros (…) na pauta ambiental freou o crescimento econômico e gerou desemprego.”
A presidenta do Partido Socialista, Paulina Vodánovic, reconheceu: “Arrastamos há bastante tempo a falta de um questionamento e de uma autocrítica profunda sobre o momento político desde o Apruebo (processo constituinte), após termos perdido aquela eleição”. E admitindo uma desconexão com a base social, enfatizou: é preciso “refletir de verdade e nos desafiar, porque nasce a intenção de entender o que está ocorrendo e interpretar os desejos de chilenas e chilenos”.
Outro senador oficialista, Ricardo Lagos Weber, pediu calma: “Em vez de sair buscando responsabilidades imediatamente, creio que há algo mais estrutural do que apenas o governo. Não descarto que isso possa ter influência ou não, mas o tema é (…) entender o que estão pedindo muitos chilenos, aos quais não demos a resposta adequada.”
Um ex-deputado comunista, Hugo Gutiérrez, que fracassou na tentativa de se reeleger em novembro último, escreveu: “Estamos presenciando o legado de Boric”. Declarou ainda que a derrota reflete uma gestão desconectada das bases sociais.
Primeira reunião
O presidente eleito foi recebido por Boric no Palácio de La Moneda, dando início à coordenação para a transição de governo, prevista para março.
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Ao término do encontro, Boric destacou “o clima positivo em que a reunião se desenvolveu”. “Aqui não faz sentido, do meu ponto de vista, maquiar as coisas. Vimos de visões políticas muito distintas. Estivemos em enfrentamento e em posições opostas durante grande parte de nossa trajetória política. Defendemos princípios e valores diferentes. No entanto, o Chile nos une, e somos parte do mesmo destino nacional.”
O fator Trump
Em Washington, o presidente Donald Trump comentou que havia tomado conhecimento do resultado das eleições: “No Chile, a pessoa que apoiei, que não liderava as pesquisas, acabou vencendo com bastante facilidade. Portanto, estou ansioso para parabenizá-lo. Ouvi dizer que é uma pessoa excelente”, declarou.
Kast viajou nesta terça-feira (16) à Argentina para se reunir com o presidente Javier Milei, que publicou sentir “enorme alegria pelo esmagador triunfo do” seu “amigo José Antonio”. É “mais um passo da nossa região na defesa da vida e da propriedade privada. Estou certo de que vamos trabalhar juntos para que a América abrace as ideias da liberdade e possamos nos libertar do jugo opressor do socialismo do século 21”, alegou.
O primeiro-ministro israelense e foragido da Corte Penal Internacional, Benjamin Netanyahu, somou-se às felicitações, ao declarar: “Espero trabalhar estreitamente com o senhor e com o Chile para aprofundar a cooperação em segurança, inovação, água, agricultura e crescimento econômico.”
As relações chileno-israelenses ficaram congeladas em maio, quando Boric retirou os adidos militares em protesto contra a situação humanitária em Gaza.
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