Em 1917, parecia que o palco político mundial estava preparado para a formulação da Declaração Balfour, pois o movimento sionista internacional já havia se organizado e vinha planejando a criação de uma pátria para os judeus havia mais de 20 anos, desde o Primeiro Congresso Sionista, realizado em Basileia, em 1897. Enquanto isso, o destino do Oriente Médio estava nas mãos das grandes potências europeias vitoriosas, especialmente França e Grã-Bretanha, que dividiram os restos do Império Otomano e começaram a repartição formal dessas terras em 1916, por meio do Acordo Sykes-Picot. Após a Primeira Guerra Mundial e a desintegração do Império Otomano, 1917 (ano da redação da Declaração Balfour) pode ser considerado um ponto crucial na história do Oriente Médio moderno.
O historiador David Fromkin, em seu livro A Peace to End All Peace (“Uma paz para acabar com toda paz”, em tradução livre), assinalou que o período de 1914 a 1922 foi o intervalo histórico que moldou o Oriente Médio contemporâneo. De modo semelhante, a historiadora francesa Nadine Picaudou, especialista em história do Oriente Médio, considerou que o período de 1913 a 1924 foi a década que “abalou” a estrutura dessa região.
De acordo com as correspondências Hussein-McMahon, a França encarregou Georges Picot e a Grã-Bretanha designou Mark Sykes para traçar as linhas finais de suas respectivas zonas de influência no Oriente Médio desde 1915. Suas propostas foram então apresentadas ao ministro britânico das Relações Exteriores, lorde Grey, e ao embaixador francês em Londres, Paul Cambon, e, posteriormente, submetidas à Rússia para aprovação.
Como é sabido, o Acordo Sykes-Picot estabeleceu três zonas: a “Zona A”, em azul, sob influência francesa (mandato dentro da proposta de um Estado árabe); a “Zona B”, em vermelho, sob influência britânica; e uma terceira zona, em marrom, que incluía a Palestina. O acordo especificava que “a Palestina ficaria sob uma administração internacional a ser determinada mediante consulta entre Grã-Bretanha, França e Rússia, e posteriormente com os demais aliados e o xerife de Meca”.
Fica claro que esse acordo representou, para o movimento sionista, uma oportunidade de ouro para iniciar sua tentativa de implementar o projeto de criação de um Estado judeu na Palestina, o que levou a intensas consultas políticas que culminaram na formulação da Declaração Balfour.
O jornalista britânico Joseph Jeffries lançou luz importante sobre o documento em sua análise de 1939. Ele definiu a Declaração Balfour como uma proclamação “em que cada palavra foi cuidadosamente pesada”, apesar de conter apenas 67 palavras. Segundo sua análise, cada uma delas foi estudada antes de ser incluída no texto. Várias versões preliminares circularam entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, com a participação de mais de uma dúzia de conselheiros na revisão. Jeffries resumiu: “Não existe outro comunicado cuja elaboração tenha levado mais tempo, cuja emissão tenha sido mais precisa e cuja redação tenha sido mais conscientemente elaborada do que esta”.
Ele cita Nahum Sokolow, em A History of Zionism (“História do sionismo”): “Toda ideia surgida em Londres foi examinada pela Organização Sionista na América, e toda proposta americana recebeu atenção especial em Londres.” O rabino Wise, que participou das consultas, admitiu que a Declaração Balfour “foi preparada ao longo de dois anos” e que sua redação “foi um trabalho coletivo, não individual”.
Embora o texto estivesse pronto em 2 de novembro de 1917, ele só foi publicado na imprensa em 9 de novembro, apresentado como uma iniciativa exclusivamente britânica, quando, na realidade, foi uma criação conjunta britânico-sionista. (Vale notar que a declaração só foi divulgada na Palestina em 1920.)
Frank Manuel, em seu livro The Realities of American Policy in the Near East (“As realidades da política americana no Oriente Médio”, em tradução livre), de 1949, observou que o juiz Louis Brandeis, sionista americano, desempenhou um papel importante na redação do documento. O próprio Balfour discutiu o texto com Brandeis durante visita aos Estados Unidos em maio de 1917. Em 1º de setembro, Chaim Weizmann enviou uma minuta do documento, já aprovada pela Grã-Bretanha, para Brandeis, pedindo a aprovação dele e do presidente Woodrow Wilson. Como não havia registro escrito da anuência de Wilson, Brandeis enviou um telegrama a Weizmann em 24 de setembro informando: “Com base na opinião dos conselheiros do presidente Wilson, acredita-se que o presidente vê a questão com simpatia”. Contudo, parece que Wilson depois escreveu ao coronel House, um de seus assessores que lhe mostrara o texto: “Lamento dizer que nunca afirmei ter aprovado a formulação proposta pela outra parte, e ficarei grato se lhes fizer saber disso.”
A minuta de setembro, enviada por Weizmann, continha a frase “deve ser restabelecida a Palestina como pátria do povo judeu”, mas ela foi alterada na versão final para “estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu na Palestina”. Manuel conclui, portanto, que duvida de que Balfour tenha sido o autor da declaração, sendo, antes, o facilitador de sua aprovação.

Em 2 de novembro de 1917, o lorde James Arthur Balfour, ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, enviou ao lorde Rothschild, um dos líderes sionistas da época, a carta que dizia:
Meu caro lorde Rothschild,
Tenho o prazer de transmitir-lhe, em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia pelas aspirações judaicas e sionistas, aprovada pelo gabinete:
‘O Governo de Sua Majestade vê com simpatia o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e usará seus melhores esforços para facilitar a consecução desse objetivo, sendo claramente entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas atualmente residentes na Palestina, nem os direitos e o estatuto político de que os judeus gozam em quaisquer outros países.’
Ficarei grato se comunicar esta declaração à Federação Sionista.Assinado: Atenciosamente, Arthur Balfour
Na análise de Jeffries, chama atenção o exame minucioso de cada termo da declaração. Ele observou, por exemplo, que a expressão “lar nacional” apareceu pela primeira vez em letras minúsculas na publicação inicial no jornal The Times, sendo depois substituída por iniciais maiúsculas no texto oficial. O termo em si era novo para os britânicos, embora já houvesse sido usado 35 anos antes por Leon Pinsker em seu livro Autoemancipação (1882), sem referência à Palestina.
Segundo Jeffries, não estava claro para os britânicos como a ideia de “lar nacional” seria aplicada, e essa ambiguidade era intencional, para permitir que cada parte a interpretasse conforme seus próprios interesses. Para o movimento sionista, era evidente que significava a criação de um Estado judeu na Palestina.
Jeffries também mostrou que expressões como “vê com simpatia” e “facilitar a consecução desse objetivo” eram formulações vagas, passíveis de múltiplas interpretações. Contudo, ele considerou a frase mais enganosa aquela que se refere aos palestinos árabes como “as comunidades não judaicas”, como se fossem uma minoria, quando, na realidade, representavam cerca de 90% da população, enquanto os judeus não passavam de 9%. Essa escolha terminológica visava ocultar desde o início a verdadeira realidade demográfica.
O ponto mais importante destacado por Jeffries está na frase:
…nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas atualmente residentes na Palestina, nem os direitos e o estatuto político de que os judeus gozam em outros países.
Nessa passagem, a palavra “político”, que deveria qualificar também os direitos dos árabes palestinos, foi deliberadamente omitida, mencionando-se apenas “direitos civis e religiosos” para eles, ao passo que, em relação aos judeus, o texto menciona explicitamente “direitos” e “estatuto político”, não apenas no futuro lar nacional, mas também em outros países.
Esse detalhe — a ausência de direitos políticos para os palestinos — lançou as bases do sistema de apartheid que o Estado sionista ainda hoje aplica em todos os territórios palestinos (seja dentro da Linha Verde, seja na Cisjordânia e em Gaza). Mais grave ainda é o princípio, contido no documento, de não afetar o “estatuto político” dos judeus em outros países, legitimando assim a existência de poderosos lobbies sionistas em todo o mundo e permitindo que os israelenses mantenham múltiplas nacionalidades. Enquanto isso, os palestinos, sobretudo os refugiados, permanecem duplamente despojados de todos os direitos políticos, tanto em sua pátria original quanto nos locais de exílio e diáspora que lhes foram impostos.
Assim, há mais de um século, conforme o malfadado Wada‘ Balfour (Promessa de Balfour), é permitido aos israelenses dominar o mundo, enquanto trabalham para retirar todos os direitos palestinos e eliminar sua existência.
A guerra de extermínio e a fome impostas à Faixa de Gaza, bem como a selvagem ofensiva contra o povo palestino na Cisjordânia, nada mais são que a continuidade da execução do plano de Balfour e de seus parceiros sionistas e estadunidenses.
Edição de texto: Alexandre Rocha
Artigo publicado originalmente em árabe no Jornal “Rai Al-Youm” de Londres.

