daniel-jadue-|-o-que-cada-um-de-nos-fez-para-deter-o-genocidio-em-gaza?

Daniel Jadue | O que cada um de nós fez para deter o genocídio em Gaza?

Em Gaza, o horror já não precisa de metáforas. A linguagem se esgota, a moral se rompe, a humanidade vacila. O que acontece diante dos olhos do mundo inteiro não é outra coisa senão um genocídio prolongado e televisionado, em que um Estado criminoso mobiliza toda a sua máquina militar, econômica, comunicacional e diplomática para exterminar o povo palestino. Não há ambiguidade possível: o projeto sionista, desde sua origem colonial, nunca foi coexistir, mas sim desalojar, apagar e reescrever a História com sangue alheio.

O terrível, no entanto, não é apenas a ação do Estado israelense, mas também a cumplicidade generalizada, a normalização do massacre e o cinismo da comunidade internacional e dos meios de comunicação, que hoje começam timidamente a denunciar a catástrofe depois de dois anos de cumplicidade e blindagem comunicacional.

E aqui devemos dizer sem eufemismos: a sociedade israelense que apoia, justifica ou se cala diante do extermínio é também cúmplice direta do crime. Não existe “neutralidade civil” quando hospitais são bombardeados, quando crianças morrem soterradas sob escombros ou de fome, quando se priva uma nação inteira de água, pão e luz.

Não se pode continuar defendendo o mito de que existe uma “democracia israelense” que convive com uma suposta “minoria radical” que tomou o governo. O apoio majoritário a Netanyahu e às suas políticas genocidas, o racismo estrutural contra os palestinos, a simples adesão ao projeto sionista, a militarização da juventude israelense, o ódio semeado desde a escola – tudo isso compõe um aparato colonial em que a sociedade é parte ativa do regime de apartheid.

Mas a dor não vem só de Tel Aviv. Vem também do silêncio vergonhoso dos governos árabes, muitos dos quais assinaram acordos de normalização com Israel enquanto Gaza sangra. Onde estão os povos em luta sob as monarquias do Golfo, tão hábeis para alinhar os preços do petróleo, mas incapazes de enviar ajuda humanitária massiva ou romper relações diplomáticas com o algoz da Palestina? Onde está o Egito de Nasser, o Iraque dos povos, o Líbano resistente, a Síria indomável? Como é possível que as passagens fronteiriças sigam fechadas enquanto os corpos se acumulam e os hospitais colapsam?

A traição não se limita às chancelarias. Também há uma passividade nos povos do mundo que deve nos interpelar. Nos partidos políticos que permanecem em silêncio. O que cada um de nós fez para deter este genocídio? Quantas vezes denunciamos, protestamos, boicotamos, educamos, mobilizamos? A dor de Gaza não se mitiga com tuítes de solidariedade nem com lamentos privados. Exige ação organizada, resistência global, desobediência econômica, ruptura diplomática, pressão multilateral, boicote massivo. Exige algo além da compaixão: exige compromisso real.

Porque não é só Gaza. É Jerusalém ocupada, é a Cisjordânia anexada, é a diáspora forçada, é o exílio de milhões, é a negação histórica de todo um povo. E, sobretudo, é o espelho do mundo que virá: se essa máquina de extermínio não for detida, nenhum povo estará a salvo de ser o próximo.

Hoje, defender a Palestina não é um ato de solidariedade internacionalista: é uma obrigação moral, ética e política. Porque, se não nos levantarmos por Gaza, se não apontarmos com nome e sobrenome os cúmplices, se não pararmos este massacre com nossas mãos, nossas vozes e nossas decisões, então não merecemos falar de direitos humanos, nem de justiça, nem de paz.

Isso tem de acabar. E tem de acabar agora. Não com negociações de falso equilíbrio, nem com promessas vazias de dois Estados. Tem de acabar com o fim do apartheid, o retorno dos refugiados, a autodeterminação palestina e o julgamento dos criminosos de guerra – incluindo os que governam, os que aplaudem e os que se calam.

Que tal acompanhar nossos conteúdos direto no WhatsApp? Participe do nosso canal.

Gaza não é uma causa distante. Gaza é o coração da dignidade humana, pulsando na trincheira mais sombria do século 21. E seu grito não pode continuar esperando.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *