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Da Groenlândia às Malvinas: como dominação marítima serve à ambição geopolítica dos EUA

Cerco de segurança que interligue o Sul e o Norte do globo, via oceano, é crucial para a confrontação dos EUA à influência da China e da Rússia

A aliança russo-chinesa tem causado preocupações na percepção da segurança estratégico-militar dos EUA. Além do poderio econômico, político e nuclear, Moscou e Pequim têm pautado ações conjuntas tendo em vista  redesenhar a ordem mundial, desafiando o poderio unilateral de Washington na seara das nações.

A resposta do governo Trump tem sido construir narrativas de ação de cunho imperialista em cenários como Ucrânia, Gaza e, mais recentemente, Venezuela e Groenlândia — o que chama a atenção da opinião pública mundial, já que os movimentos são pautados no descumprimento do direito internacional e na violação da soberania dos territórios.

Recentemente, o olhar dos EUA tem se voltado a obter o controle da Groenlândia, sob jurisdição da Dinamarca, país aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), tendo em vista dificultar o avanço da Rússia e da China ao Oceano Atlântico. Entretanto, o valor estratégico da área pode ser entendido no lapso temporal presente e futuro, o que corrobora as ações americanas de cobiça ao arquipélago.

No presente momento, o significado recai em constituir uma linha marítima que possa interagir com as demais possessões dos EUA e do Reino Unido localizadas no eixo oceânico norte-sul, alcançando o arquipélago das Malvinas, no Sul do Globo, cuja soberania é reclamada pela Argentina. Desta forma, se torna relevante entender o alcance de uma eventual cessão do Porto de Ushuaia ao Comando Sul dos EUA — algo contrário ao interesse nacional argentino e prejudicial à estratégia soberana da América Latina, que poderá ficar refém do interesse de potências extrarregionais.

Em momento futuro, a Groenlândia se tornará base militar e comercial, tendo em vista a navegabilidade do Ártico: seu derretimento permitirá a abertura de novas rotas comerciais, dinamizando a logística e acirrando o comércio global.

Em ambas as áreas, Groenlândia e Malvinas, também existe o potencial de extração de riquezas, essencial para a economia das potências em disputa. O caráter ilegal dessas ações diz respeito ao desvio de bens soberanos dos povos originários, desprezados há séculos pelos players em questão.

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A análise sobre essas duas regiões do planeta vai ao encontro das teorias clássicas de Alfred Thayer Mahan que, já no século 19, previa que a riqueza e o poder das nações, sob ângulo naval, precisariam estabelecer pontos de comunicação nos oceanos e negar o uso do mar ao inimigo. Portanto, estas ações permitem fazer a releitura deste pensamento, ao mesmo tempo que chamam a atenção para defender a soberania do arquipélago-chave — como as ilhas Malvinas que, uma vez mais, se mostra relevante na aplicação da geopolítica global como peça fundamental na arquitetura de nações extrarregião que oprimem direitos para satisfazer seus interesses.

De toda forma, o reclamo argentino precisa ser reafirmado, pois não pode constituir papel secundário no reordenamento global e nem ser cobiçado por nações que isolam os interesses dos países da América Latina e não contribuem para o desenvolvimento da região.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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