O termo “socialismo” ocupa cada vez mais espaço no debate político dos EUA, sobretudo frente ao avanço fascista de Trump e à percepção negativa sobre as consequências do sistema capitalista
Quando o La Jornada começou a reportar sobre a conjuntura nos Estados Unidos, no momento em que nasceu, há 41 anos, nunca se imaginou que chegaria um tempo em que precisar usar duas palavras de forma constante para descrever o momento político do país: fascismo e socialismo.
Essas duas palavras continuam sendo necessárias para relatar a dinâmica política da superpotência. E, ao longo destes últimos anos até hoje, a maioria das novas gerações afirma preferir o socialismo ao capitalismo — algo que fica ofuscado diante das incessantes notícias sobre o avanço do projeto direitista nos Estados Unidos.
Entre os primeiros a usarem a palavra “fascismo” (alguns dizem “neofascismo” ou “protofascismo”) para caracterizar o momento, não estavam pessoas da esquerda, mas sim conservadores tradicionais alarmados, seguidos por especialistas acadêmicos e uma ampla gama de opositores. Desde o início deste ano, esse projeto — que agora controla os três poderes do governo federal — tem sido documentado diariamente.
Vale lembrar também que muito disso não é novo. Kris Kristofferson, famoso músico e ator, foi perguntado em 1991 sobre o que estava acontecendo em seu país, e respondeu: “Além de me lembrar muito do tremular de bandeiras e do patriotismo coreografado que vimos na Alemanha nazista, o fato de termos um sistema de partido único controlando os três poderes do governo, com meios de comunicação complacentes gerando propaganda… que fariam um nazista corar, bem, além de tudo isso, estamos indo muito bem”.
A atual ascensão da direita ao poder nos Estados Unidos se deu, em parte, por meio da acusação contra todos os opositores e aos estrangeiros de estarem destruindo o país. Na semana passada, a Casa Branca e seus aliados declararam guerra contra o que chamam de “a esquerda” (onde incluem todos os opositores), num momento político extremamente perigoso para esta nação.
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Essa “guerra” se explica, em parte, pelo surgimento da palavra com “S”. Não deixa de surpreender sua presença positiva no debate político nacional, em um país que sempre definiu oficialmente o socialismo como “inimigo” do projeto “americano”.
Ela reaparece (há uma longa e rica história do socialismo neste país) com a primeira campanha presidencial do senador socialista democrático Bernie Sanders, em 2015-2016, que gerou um grande movimento dentro e fora do Partido Democrata — a tal ponto que se converteu na maior ameaça para a cúpula democrata, com os Clinton, os Obama e seus aliados fazendo de tudo para descarrilá-lo. A partir disso, de repente, “socialismo” se tornou uma palavra necessária para descrever este país.
O socialismo entre democratas
De fato, hoje, aquele que alguns chamam de “o pesadelo de Trump” — um imigrante muçulmano que se descreve como socialista democrático — lidera as preferências para ser o próximo prefeito da maior cidade do país. Zohran Mamdani se considera discípulo de Sanders e surpreendeu as cúpulas políticas e econômicas dos EUA, provocando alarme da Casa Branca a Wall Street por suas propostas social-democratas e pelo apoio massivo de jovens e forças progressistas.
E não para por aí: a nível nacional — e pela primeira vez — mais democratas dizem apoiar o socialismo do que o capitalismo: 66% afirmam ter uma opinião positiva sobre o socialismo, enquanto apenas 42% dizem o mesmo sobre o capitalismo, segundo uma nova pesquisa da Gallup.
Mais ainda: no país que se autoproclama guardião e campeão do capitalismo, pouco mais da metade da população atualmente tem uma percepção positiva do capitalismo, segundo essa mesma pesquisa — parte de uma tendência que vem se intensificando nos últimos anos. E apenas 37% dos adultos estadunidenses têm uma percepção positiva sobre as grandes empresas.
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Embora existam outras palavras além da F e da S necessárias para reportar a conjuntura estadunidense, elas são duras demais para um jornal defensor da decência e do que é nobre — e que está prestes a celebrar seu aniversário. Felicitações a todos os que fazem este milagre diário.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

