O 14 de julho é o dia nacional da República Francesa, mas comemora também o acesso à igualdade perante a lei de todos os seres humanos. Até a Revolução Francesa de 1789, era geral e oficial a crença de que o poder de mandar sobre a população procedia de Deus e se concentrava em umas poucas famílias de nobres, um de cujos membros o assumia de maneira absoluta e, à sua morte, o transmitia a seu primogênito, como um bem patrimonial. A Igreja Católica santificava essa crença e assegurava sua difusão e persistência. O rei ou o monarca delegavam uma parte de seu poder, o necessário para o governo da população, a membros da nobreza: duques, condes, marqueses e fidalgos de sangue. Era o governo dos ricos, que haviam se apoderado da terra, o meio de produção mais importante, e se impunham aos demais: burguesia, camponeses, artesãos e outros trabalhadores.
Durante mais de um século, a burguesia vinha se preparando ideologicamente para acabar com essa maneira de pensar. Sua filosofia se consolidou, finalmente, na teoria do contrato social elaborada por Thomas Hobbes e John Locke, na Inglaterra, e, com mais precisão e clareza, por Jean Jacques Rousseau, na França. Essa construção conceitual, dotada da simplicidade dos axiomas sociais, afirma que em um tempo imemorial, no estado de natureza, os seres humanos eram livres e que, para enfrentar os perigos, satisfazer suas necessidades comuns e evitar se destruírem mutuamente, se associaram e decidiram, por própria vontade, constituir uma ordem social e um governo; que esse direito lhes havia sido usurpado e que deviam voltar a ser livres e organizar a sociedade por sua vontade comum, expressa como um contrato social. Nunca se provou que o estado de natureza houvesse existido, e a muito poucos interessava fazê-lo. Mas era evidente para todos, exceto para os reis e nobres, seus esbirros civis e militares e os hierarcas da Igreja Católica, que os seres humanos nascem livres e que o poder de mandar surge da união e do contrato social de todos.
Quando a preparação ideológica para a mudança saturou a “burguesia dos negócios” e a “burguesia do talento”, os modestos membros do baixo clero, os nobres decadentes e os camponeses e operários mais conscientes, bastou uma faísca para desencadear a revolução.
Essa faísca foi a demissão do ministro das Finanças Necker, no domingo, 12 de julho de 1789. Nesse mesmo dia começaram as manifestações de protesto em Paris, lideradas pelos membros dos clubes e lojas de conspiradores libertários. À tarde, a cavalaria alemã, que a rainha Maria Antonieta havia feito trazer, disparou contra o povo, matando vários manifestantes. Em resposta, a multidão, que era de apenas algumas centenas, chegou a vários milhares no dia seguinte. Saía sobretudo dos bairros populares de Saint Antoine e Saint Marcel, clamava por vingança e pedia armas.
No dia 14 de julho, cedo, Marat informou ao povo enfurecido que no quartel Les Invalides havia 20 mil fuzis, e para lá marchou uma coluna. Outra, com cerca de 500 pessoas, se concentrou em frente à formidável fortaleza da Bastilha, uma prisão à qual se entrava como prisioneiro por uma lettre de cachet, e da qual quase nunca se saía. A lettre de cachet era uma ordem que alguns funcionários podiam assinar e vender, por delegação do Rei, para o encarceramento de uma pessoa sem expressão de causa. Sendo a Bastilha o símbolo da tirania, o povo entendeu que seu primeiro dever revolucionário era tomá-la e destruí-la.
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O senhor de Launay, um nobre proprietário da governança dessa fortaleza, ao receber um emissário da multidão que o intimou a retirar os canhões e se render, sustentou com ele o seguinte diálogo, relatado por Alexandre Dumas em sua novela Ange Pitou:
— Os canhões do Rei estão ali por ordem do Rei; serão retirados apenas por uma ordem do Rei — manifestou o Governador.
— Senhor de Launay — disse Billot, sentindo suas palavras engrandecerem-se e se elevarem à altura da situação —, o verdadeiro Rei é aquele a quem eu vos aconselho obedecer. Está ali.
E mostrou ao Governador a multidão cinzenta, ensanguentada pelo combate da véspera, e ondulando diante dos fossos, com as armas reluzentes ao sol.
Não houve trato. O Governador, sem se abalar, mandou disparar os canhões, matando um número cada vez maior de pessoas a cada salva. Mas a multidão compacta, já de várias dezenas de milhares, não se dispersava e voltava à carga com mais decisão e ódio.
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Era um ódio acumulado durante séculos, do qual o medo havia fugido. Evacuados os mortos e feridos, novos contingentes de cidadãos, altivos e desafiadores diante da morte, preenchiam os vazios. O povo de Paris havia compreendido que pagava o alto preço da liberdade cobrado pelos tiranos.
Quando a multidão conseguiu fazer cair a ponte e derrubar a porta com os disparos de quatro canhões retirados de Les Invalides, entrou na fortaleza e a tomou. Eram cinco horas da tarde. De Launay e os que haviam disparado contra a multidão — na qual se contaram mais de 100 mortos — foram executados ali mesmo e naquele momento.
No dia seguinte começou a demolição da Bastilha. Agora, na praça que leva esse nome, uma linha escura, no nível das calçadas e da rua, assinala o lugar onde antes se erguia essa tétrica fortaleza.

Enquanto o povo fazia sua parte em todas as cidades e aldeias da França, os representantes do terceiro Estado, transformado em Assembleia Nacional, continuavam deliberando em Versalhes, ainda fazendo equilíbrios internos para contrabalançar o poder do Rei, sem perder de vista seu objetivo fundamental: abater o feudalismo e assumir plenamente o poder político em uma nova sociedade organizada segundo o contrato social.
No dia 11 de agosto, aprovaram o decreto pelo qual “a Assembleia Nacional destrói inteiramente o regime feudal”: consagra-se o fim dos privilégios pessoais, a admissão de todos aos empregos públicos, a justiça gratuita e igual para todos, a abolição da servidão pessoal em todas as suas formas e a supressão do dízimo e de outras exações eclesiásticas.
A declaração da igualdade de todos perante a lei, pela qual cada cidadão — rico, pobre, homem ou mulher — tem apenas um voto; a constituição dos poderes do Estado por eleição popular; e a independência desses poderes, como havia ensinado Montesquieu, foi proclamada na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembleia Nacional em 26 de agosto de 1789.
Esse documento foi renovado e ampliado em seu conteúdo pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pelas Nações Unidas, em Paris, em 10 de dezembro de 1948. É o estatuto mínimo de direitos de todo ser humano.
Em 1989, quando se celebravam os 200 anos da Revolução Francesa, além das fanfarras oficiais e do colorido desfile militar pela Place de l’Étoile e os Champs-Élysées, a alegria iluminava os rostos de seus habitantes, e neles se podia ler a satisfação de viver em uma sociedade nascida da Revolução, à qual se haviam somado as conquistas sociais alcançadas com tanto sacrifício e valentia desde então.
Vendo-os, eu pensava com gratidão quanto devia a humanidade àquela Revolução e aos homens e mulheres que lutaram para realizá-la.

