Leitura construída a partir da China conecta memória e geopolítica, reafirmando que a luta contra a hegemonia do século 21 é uma continuidade da resistência antifascista do século 20
Em entrevista ao programa Diálogo Internacional, da Rádio Madres AM 530 da Argentina, o pesquisador Sebastián Schulz, do Centro de Estudos Chineses do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Nacional de La Plata, apresentou uma leitura alternativa sobre a Segunda Guerra Mundial a partir da perspectiva chinesa. Sua análise ajuda a compreender não apenas a memória histórica reivindicada por Pequim, mas também como essa narrativa se conecta à transição geopolítica rumo à multipolaridade.
O início da guerra: 1937, e não 1939
Segundo Schulz, a versão chinesa da história contesta a cronologia ocidental clássica que marca 1939, com a invasão alemã à Polônia, como o início do conflito. Para a China, a guerra começa antes, em 1937, quando o Japão invade seu território, desencadeando um enfrentamento que já assumia caráter global. Assim, se o Japão é tomado como referência para o fim da guerra — com a rendição de 1945 —, ele também deve ser considerado como ponto de partida.
Protagonismo chinês e soviético contra o fascismo
A leitura chinesa valoriza o papel decisivo do Exército Vermelho e do povo chinês na derrota do fascismo. Schulz lembra que, enquanto a narrativa ocidental exalta o desembarque da Normandia ou as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, a China ressalta que tanto a União Soviética quanto ela própria foram centrais para quebrar a espinha dorsal do fascismo, seja no front europeu ou no asiático.
Essa visão, enfatizada por Xi Jinping em seus discursos, busca corrigir o “apagamento histórico” promovido pela narrativa dominante, fortemente difundida por Hollywood e pelos livros didáticos do Ocidente.
A dimensão das perdas chinesas
Outro ponto frequentemente silenciado é a magnitude do sofrimento do povo chinês. Schulz recorda que a China contabiliza cerca de 35 milhões de mortos, resultado de massacres, trabalhos forçados, torturas e crimes de guerra cometidos pelo exército japonês. O massacre de Nanquim é destacado como um dos episódios mais brutais da história da humanidade, que o Ocidente em geral não integra à memória pública da guerra. Tratou-se da invasão da então capital chinesa pelo exército japonês, marcada por estupros em massa, saques e assassinatos brutais, na qual se estima que entre 200 mil e 300 mil civis e prisioneiros chineses tenham sido mortos em poucas semanas.
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“Guerra Mundial Antifascista”: uma redefinição conceitual
Enquanto no Ocidente prevalece a denominação “Segunda Guerra Mundial”, Pequim prefere falar em “Guerra Mundial Antifascista”, sublinhando o caráter global da luta contra o fascismo em suas múltiplas expressões — nazista, japonesa e colonial. Essa escolha não é apenas semântica: ela ressignifica o conflito como um marco de resistência dos povos oprimidos contra projetos de dominação.

A ponte entre passado e presente: multipolaridade
Para Schulz, a memória da guerra mobilizada pela China não se limita ao passado. Ao lado da Rússia e da Índia, Pequim reivindica hoje um novo protagonismo no combate ao “fascismo internacional”, entendido como o unipolarismo e o globalismo financeiro dominados pelos Estados Unidos e seus aliados. Assim, as celebrações da vitória chinesa na guerra funcionam como uma mensagem política: a vitória de ontem inspira a construção do mundo multipolar do futuro.
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A ótica chinesa sobre a Segunda Guerra Mundial, recuperada por Sebastián Schulz, cumpre duas funções: revisar criticamente a narrativa ocidental hegemônica e legitimar o papel atual da China na ordem internacional em transformação. Ao reivindicar o início do conflito em 1937, destacar os milhões de mortos esquecidos e reposicionar a guerra como antifascista, a China se inscreve não apenas como vítima, mas como sujeito histórico central. Essa leitura conecta memória e geopolítica, reafirmando que a luta contra a hegemonia unipolar do século 21 é uma continuidade da resistência antifascista do século 20.
Entrevista completa em espanhol:
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

