Desde sua vitória nas eleições presidenciais do Chile, em dezembro, o ultradireitista José Antonio Kast tem se dedicado a percorrer a América Latina e o mundo para estreitar laços com governantes aliados e tomar nota de algumas políticas — sobretudo na área de segurança — que pretende estudar para adaptar à realidade chilena.
Até meados do fim de janeiro, viajou à Argentina, ao Peru, ao Equador, ao Panamá, à República Dominicana e a El Salvador, tendo sido recebido pelos presidentes de todos esses países, com os quais compartilha afinidade ideológica. No início de fevereiro, também esteve em Bruxelas, na Hungria e na Itália, naquela que é sua quinta viagem como mandatário eleito.
Kast, que a partir de 11 de março se tornará o primeiro presidente de ultradireita do Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), é o presidente eleito que mais realizou viagens internacionais antes de tomar posse.
“Trata-se de um esforço deliberado para construir uma imagem de liderança ativa, resolutiva e executiva desde o primeiro dia após o segundo turno”, explica ao elDiario.es Michelle Hafemann, acadêmica do Instituto de Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica do Chile. Segundo ela, Kast tenta “se projetar” como um presidente que “não se limita a declarações nem promessas”, mas que “se reúne com mandatários internacionais, comenta a conjuntura política nacional e se envolve desde cedo nos temas que marcarão sua agenda”.
O futuro presidente, de 59 anos, venceu as eleições com a promessa de criar um “governo de emergência” para adotar medidas duras contra a migração e a criminalidade, embora os números de entrada de estrangeiros em situação irregular e de homicídios no Chile tenham diminuído durante o governo do progressista Gabriel Boric.
São gestos e sinais que, segundo Hafemann, buscam “contrastar” com a imagem que o Partido Republicano de Kast construiu da administração de Boric, apresentada como “lenta, ineficiente e com dificuldades para responder às urgências do país”.
Alianças e temas prioritários
A primeira viagem ao exterior levou Kast à vizinha Argentina, importante parceira comercial, onde se reuniu com o presidente Javier Milei, seu aliado político, com quem posou para fotos segurando a polêmica motosserra. Em seguida, viajou ao Peru para propor a José Jerí, sem sucesso, a criação de um corredor humanitário que permitisse a passagem de venezuelanos que desejassem retornar ao seu país. No Equador, tentou convencer Daniel Noboa da mesma proposta.
No fim de janeiro, visitou a República Dominicana, onde chegou à fronteira com o Haiti e percorreu a “cerca inteligente” instalada pelo governo de Luis Abinader. Já no Panamá, participou do Fórum Econômico da América Latina e do Caribe para pedir “unidade” regional no combate ao crime organizado. Também se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem mantém posições ideológicas opostas.
Sua viagem pela América Central terminou em El Salvador, onde visitou pela segunda vez — a primeira foi em 2024 — o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), a megaprisão de alta segurança construída para isolar integrantes de gangues, e se reuniu com Nayib Bukele. “Queremos pedir colaboração para melhorar nosso sistema penitenciário e conhecer seu direito penal, não necessariamente fazendo o mesmo, mas adaptando-o à nossa realidade”, afirmou ali o presidente eleito.

Seu giro internacional, em um contexto regional tensionado pela crise venezuelana, segue duas linhas, segundo comenta ao elDiario.es Paz Milet, analista internacional da Universidade do Chile. “Reforçar alianças previamente estabelecidas, mas também criar novos espaços de diálogo na região”, afirma. Segundo ela, o ultradireitista sustenta que “a região enfrenta demandas e ameaças transnacionais, o que torna fundamental uma atuação coordenada”.
Além do controle migratório e do combate ao crime organizado, Kast também destacou a reativação econômica, objetivo que buscou impulsionar durante sua viagem pela Europa.
Durante a viagem à Europa, no início de fevereiro, foi acompanhado pelo presidente do Vox, Santiago Abascal, na VII Cúpula Transatlântica, encontro realizado em Bruxelas e organizado pela plataforma ultraconservadora Political Network for Values, que ele próprio presidiu entre 2022 e 2024 e que tem o ex-ministro espanhol Jaime Mayor Oreja como presidente de honra.
Depois seguiu para a Hungria para se reunir com o primeiro-ministro húngaro, o ultranacionalista Viktor Orbán, em um encontro centrado na imigração — no qual demonstrou interesse nas cercas de arame instaladas nas fronteiras para impedir a entrada de refugiados — e nas políticas de apoio à família. Por fim, chegou à Itália, interessado em conhecer melhor o “sistema carcerário” impulsionado por Giorgia Meloni e em atrair investimentos, sobretudo no setor energético.
Após seu retorno das férias, em fevereiro, planeja uma viagem aos Estados Unidos, segundo informou a imprensa local, para “se aproximar” — afirma Milet — do presidente Donald Trump, com quem Boric manteve diversos atritos.
Diferenças em relação ao governo anterior
Os presidentes eleitos no Chile tradicionalmente mantêm um perfil mais discreto na política internacional antes de assumir formalmente o cargo. “Kast rompe com essa tradição para reforçar a ideia de uma liderança eficiente e em ação”, afirma Hafemann.
Para o cientista político da Universidade Diego Portales Rodrigo Espinoza, Kast está demonstrando “que não é preciso esperar até março e que, na prática, as decisões já estão sendo tomadas”, além de querer deixar claro que “haverá uma guinada desde o primeiro dia na forma de governar”.
Veremos qual é o verdadeiro José Antonio Kast: aquele que pretende estabelecer um governo de unidade ou o que, de fato, adere a uma visão mais radical.Rodrigo Espinoza, cientista político da Universidade Diego Portales
No entanto, as viagens ao exterior podem abrir novos flancos para o futuro mandatário, que até agora — e durante toda a campanha — havia apresentado um perfil mais moderado e evitado se pronunciar sobre temas ligados a valores e liberdades individuais. Na cúpula realizada em Bruxelas, retomou a chamada batalha cultural e fez seu discurso mais ideológico até o momento: “Hoje experimentamos os frutos de uma cultura dominada pelos -ismos (…) o ambientalismo extremo que prioriza a natureza em detrimento do ser humano, o animalismo radical que coloca os animais acima da dignidade humana, o feminismo ideológico que opõe homens e mulheres em vez de dignificá-los igualmente, o indigenismo radical que substitui a integração”, afirmou.
Expurgo contra esquerda, elos com Bukele e Milei, ofensiva a Maduro: o que esperar de Kast no Chile
Seu discurso, diz Hafemann, “remete a um Kast marcadamente conservador, muito semelhante ao que conhecíamos antes da guinada estratégica da campanha”, razão pela qual “não está totalmente claro qual dessas duas versões será, de fato, a que governará”. “Percebe-se uma tensão evidente com a ideia de que temas culturais e identitários não seriam prioridade em um eventual governo”, acrescenta a analista.
Para Espinoza, “será preciso ver qual é o verdadeiro José Antonio Kast: o que pretende estabelecer um governo de unidade ou o que efetivamente adere a uma visão mais radical”.
Os especialistas lembram que, embora esses gestos ocorram fora do Chile, as informações chegam integralmente ao país, onde circulam simultaneamente a imagem do líder conservador ideológico e a do presidente orientado para a gestão. “A proximidade com referências internacionais abertamente conservadoras — conclui Hafemann — pode tensionar essa realidade e gerar fricções entre as promessas de moderação feitas durante a campanha e os sinais ideológicos que hoje são projetados para o exterior.”

