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Censura e vingança: política interna de Trump revela fragilidade institucional dos EUA

Confissão: Prometi não retornar mais ao tema do chefe do “farol da democracia”, leia-se, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas a questão é que, a cada semana — cada dia, cada hora —, há outra erupção absurda com consequências potencialmente obscenas para muitos, às vezes até para o planeta inteiro.

Uma seleção dos principais acontecimentos dos últimos dias oferece apenas uma ideia do apagão do farol:

Trump ordenou a demissão da chefe do Centro de Estatísticas do Trabalho, uma agência federal independente, por registrar em seu relatório oficial mensal o enfraquecimento do mercado de trabalho, um indicador-chave da saúde da economia. O presidente acusou, sem qualquer prova, que a alta funcionária com mais de 20 anos no governo federal havia publicado um relatório “falsificado”, e proclamou que “a boa notícia é que nosso país está indo muito bem”.

O mandatário ordenou que dois submarinos nucleares fossem posicionados mais próximos da Rússia em resposta a uma publicação de um ex-presidente russo que ousou lembrar ao estadunidense que seu país também possui armas nucleares. Trump advertiu que “as palavras são muito importantes e frequentemente podem levar a consequências não intencionadas. Espero que isso não seja uma dessas instâncias”.

A entidade federal de mídia pública, Corporation for Public Broadcasting, deixará de operar devido aos cortes ordenados por Trump, atendendo a um antigo desejo da direita de fechar ou enfraquecer centenas de estações públicas da National Public Radio (NPR) e sua contraparte na televisão pública, Public Broadcasting Service (PBS).

No setor privado de mídia, um alto funcionário de Trump anunciou que a Paramount, proprietária da rede nacional de televisão Columbia Broadcasting System (CBS), instalará um “monitor de viés” em suas notícias, reportando diretamente ao presidente dos Estados Unidos.

Tarifas dos EUA podem custar 146 mil postos de trabalho formais e informais no Brasil

O ex-promotor especial Jack Smith, encarregado dos casos criminais federais contra Trump por sua tentativa de reverter os resultados eleitorais de 2020 e por manter documentos de segurança nacional sem permissão em sua mansão na Flórida, agora está sob investigação federal por politizar seu trabalho.

O governo Trump congelou cerca de 200 milhões de dólares em fundos federais da Universidade da Califórnia em Los Angeles, com a mesma justificativa de acusar as instituições educacionais de não fazer o suficiente para combater o “antissemitismo” (ou seja, um castigo por permitir protestos contra a cumplicidade dos EUA com Israel no genocídio em Gaza) e por programas de diversidade “injustos”.

O Museu Nacional de História Americana, parte do Smithsonian, silenciosamente removeu referências aos dois processos de impeachment de Trump durante seu primeiro mandato presidencial.

O governo Trump impôs sanções ao juiz do Supremo Tribunal Federal do Brasil Alexandre Moraes, que liderou o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por sua tentativa de golpe de Estado. Com isso, o republicano segue usando sanções para punir opositores de seus aliados ou de suas políticas externas, como fez recentemente contra Francesca Albanese, relatora especial da ONU para a Palestina, e em fevereiro contra o principal promotor do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan.

Um memorando do governo Trump permite que funcionários federais, incluindo supervisores, promovam sua fé religiosa em seus locais de trabalho, incluindo incentivar colegas a “repensar” suas crenças.

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) anunciou que o governo Trump revogará a determinação científica oficial de que os gases que causam mudanças climáticas representam uma ameaça à saúde pública.

Enquanto isso, pelo menos 13 países, incluindo Canadá, França, Alemanha, China e Austrália, emitiram alertas de viagem para seus cidadãos que planejam visitar os Estados Unidos desde a posse de Trump, citando desde preocupações com o tratamento de imigrantes e turistas até violência contra minorias raciais, de gênero e da comunidade LGBTQ+.

O farol da democracia global está se apagando. Há sinais, todos os dias, de lampejos de luz no país, mas ainda resta ver se conseguem encontrar uma lâmpada de reposição para o farol, que agora precisa direcionar esse feixe para dentro de sua própria nação.

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Absurdos para desviar o foco

Cobrir um circo disfarçado de democracia formal é um desafio talvez impossível. Por exemplo, no fim de julho, o chefe do picadeiro ordenou aos europeus que dessem “um basta aos moinhos de vento”, já que seriam um engano, como parte de sua negociação comercial com a União Europeia. Nem Dom Quixote saberia o que responder.

Muitas das notícias vindas de dentro do circo seriam muito engraçadas se não fossem tão sinistras e com consequências cada vez mais graves. Noam Chomsky advertiu várias vezes, desde o surgimento do fenômeno Trump, que seu Partido Republicano havia se convertido na “organização mais perigosa da história humana” e que buscava, de forma imediata, “derrubar o que resta da democracia” nos Estados Unidos. O estranho é que políticos e analistas aparentemente continuam achando que não é tão grave assim, e que se pode — e deve — seguir o jogo político “normal”.

Mesmo após seis meses deste governo, ainda se acorda todo dia e se vai dormir toda noite com a mesma pergunta: é sério? É sério que ele se dedicou a insistir que a Coca-Cola tem que ser feita com açúcar de cana, que um time de futebol americano profissional deve restaurar o nome racista de Peles Vermelhas, que o volume de água dos chuveiros deve ser mais forte, que a “esquerda radical” marxista, comunista e até anarquista está ameaçando o futuro do país? Especialistas explicam que muito disso é distração deliberada, para ocultar certas realidades como o fracasso das medidas econômicas, a queda no apoio ao presidente na opinião pública, seu feito de tirar alimento das crianças para encher ainda mais os bolsos dos mais ricos e, agora, para tentar abafar o escândalo do momento em torno de sua relação com o traficante de menores para favores sexuais, Jeffrey Epstein.

Quando a procuradora-geral dos EUA informou a Trump que seu nome aparecia várias vezes nos documentos relacionados a Epstein, o mandatário de repente decidiu não divulgar tudo o que havia prometido (Arte: DonkeyHotey / Flickr)

Por ora, é o caso Epstein — e não as políticas cruéis contra imigrantes e pobres, a corrupção explícita, os danos à educação, saúde e cultura causados por suas políticas — que está colocando o presidente e seus aliados no governo em xeque. E o mais irônico é que se trata de uma armadilha feita por ele mesmo: ele e sua equipe foram os que promoveram o tema ao prometer divulgar “a lista” e outros documentos relacionados a Epstein, acreditando que isso prejudicaria os democratas, como os Clinton. Mas quando a procuradora-geral informou a Trump que seu nome aparecia várias vezes nos documentos, ele de repente decidiu não divulgar tudo o que havia prometido — enfurecendo suas bases fiéis e alguns de seus aliados mais influentes.

O problema de fundo não são todos os detalhes horrendos da amizade entre Trump e Epstein, mas o fato de que o caso revela às suas bases que o presidente é apenas mais um entre a elite política e econômica do 1%, com toda a sua corrupção, abuso de poder e perversões.

Tudo isso não é exatamente o que se imagina ao ser designado para cobrir o país mais poderoso do planeta neste momento histórico. Talvez por isso seja necessário, essencial, reconhecer que os comediantes são os analistas e comentaristas mais perspicazes para a tarefa de reportar de maneira coerente sobre uma elite incoerente.

Stephen Colbert, Jon Stewart, às vezes Jimmy Kimmel e sempre John Oliver, entre outros comediantes políticos, são os melhores guias para as loucuras e verdades deste país. Vêm de uma longa tradição, mas hoje seu trabalho é ainda mais urgente. E não é coincidência que este governo — em meio às suas insanidades — tente calar os bufões. Mas o problema é que eles respondem: a série animada para adultos South Park estreou sua nova temporada com um ataque feroz contra Trump — incluindo cenas dele nu numa cama com Satanás — e contra seus próprios chefes empresariais, em protesto pela futura suspensão do programa de Colbert.

Em 26 de julho, chegou a notícia da morte de um desses mestres, o grande satirista musical Tom Lehrer, cujas canções nos anos 1960 foram parte desse trabalho cômico tão necessário para desmascarar este país:

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