O Supremo precisa sair da atual crise mais forte, não mais frágil; o momento exige prudência — e também coragem para reformar o que precisa ser reformado
O Supremo Tribunal Federal atravessa um momento delicado. A situação do ministro Dias Toffoli tornou-se politicamente insustentável após o desgaste em torno da relatoria do caso Banco Master. Embora seus pares reconheçam que ele realizou um trabalho técnico consistente — que será aproveitado integralmente —, o isolamento interno ficou evidente. Nenhum dos demais ministros saiu em sua defesa pública, e no Senado acumulam-se pedidos de impeachment contra membros da Corte. Em ano eleitoral, o clima é explosivo.
A crise ganhou contornos ainda mais ásperos com a atuação da mídia hegemônica, que promoveu um verdadeiro linchamento público do ministro, explorando detalhes de sua vida privada e transformando suspeitas em condenações antecipadas. O julgamento deixou de ser estritamente jurídico para se converter em espetáculo político-midiático. Em vez de contribuir para a apuração serena dos fatos, parte da cobertura pareceu orientada por uma lógica de desgaste pessoal, ampliando a pressão institucional sobre a Corte.
A substituição da relatoria, definida por sorteio e entregue a André Mendonça, não encerra a crise — apenas a desloca. Toffoli nega qualquer irregularidade e afirma jamais ter recebido recursos do banco ou de seu controlador. Mas, politicamente, o dano já estava feito. O próprio presidente Lula teria avaliado que o episódio contaminava o ambiente do governo num momento em que a oposição está mobilizada e vigilante.
Paralelamente, no Senado, o presidente Davi Alcolumbre movimenta-se. A eventual abertura de vaga no Supremo sempre desperta interesses. Fala-se na possibilidade de indicação do senador Rodrigo Pacheco, o que desencadearia um rearranjo político que envolveria também o nome de Jorge Messias, já indicado para outra cadeira ainda pendente. Junta-se a fome com a vontade de comer: crise jurídica vira oportunidade política.Supremosu
Enquanto isso, o clima geral de judicialização avança até sobre o carnaval. A tentativa de suspender o samba-enredo de uma escola de Niterói que homenageia Lula foi barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral, mas a ministra Cármen Lúcia advertiu que o carnaval não pode servir de palco para ilícito eleitoral. A decisão foi unânime pela suspensão da proibição, mas o alerta permanece. Em outros tempos — inclusive sob ditadura — o carnaval foi espaço de crítica e resistência. Agora, cada gesto cultural é examinado sob lente jurídica.
Cannabrava | Supremo em pauta: ética, protagonismo e democracia em ano eleitoral
Diante desse cenário, o presidente do Supremo, Edson Fachin, tem razão ao propor a adoção de um código de ética para a Corte. A iniciativa encontra respaldo em setores da sociedade civil organizada, que veem na medida uma tentativa de blindar a instituição contra suspeitas, disputas internas e instrumentalizações políticas. A Corte precisa reafirmar parâmetros claros de conduta para preservar sua autoridade.
O Supremo precisa sair dessa crise mais forte, não mais frágil. Transparência, regras claras e distanciamento de disputas circunstanciais são fundamentais para preservar sua legitimidade. Em ano eleitoral, qualquer fissura institucional se amplifica. O momento exige prudência — e também coragem para reformar o que precisa ser reformado.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

