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Cannabrava | Crise no Estreito de Ormuz mostra que o império perdeu o controle da guerra

Guerra no Oriente Médio revela erro de cálculo de Washington e Tel Aviv, abala o mercado mundial de energia e mostra um império em perda de hegemonia

O linguista e pensador estadunidense Noam Chomsky afirmou certa vez que os Estados Unidos são o maior terrorista da história. A frase volta a ganhar atualidade diante do que ocorre hoje no Oriente Médio. Enquanto negociavam com o Irã sobre a questão do urânio e da tecnologia nuclear, Estados Unidos e Israel lançaram uma operação conjunta que matou o líder supremo iraniano Ali Khamenei e diversos membros do Conselho Islâmico, do governo e das forças armadas. Um ato que, além de violento, foi interpretado por Teerã como traição, pois ocorreu em meio às negociações.

A avaliação inicial de Washington e Tel Aviv parece ter subestimado a capacidade de resposta iraniana. Nem a CIA nem o Mossad teriam previsto a dimensão da reação militar do país. Em poucos dias, o Irã lançou uma verdadeira chuva de drones e mísseis de diferentes tipos, buscando burlar os sistemas de interceptação. Bases militares estadunidenses no Oriente Médio passaram a ser alvo, assim como instalações em territórios aliados e cidades israelenses.

Ao mesmo tempo, o país reorganizou rapidamente sua liderança. O Irã não ficou acéfalo nem por um momento. A sucessão foi assumida pelo aiatolá Mojtaba Khamenei, que em sua primeira manifestação reafirmou a continuidade da estratégia de defesa e anunciou uma medida de grande impacto geopolítico: o fechamento do Estreito de Ormuz.

A decisão tem consequências globais. Cerca de 20% do petróleo e do gás consumidos no mundo passam por esse corredor marítimo. O bloqueio levou o preço do petróleo a disparar, chegando a cerca de 200 dólares o barril antes de recuar para algo próximo de 100 dólares. Para tentar conter a crise, Estados Unidos e aliados liberaram cerca de 400 milhões de barris de seus estoques estratégicos. A medida, porém, é limitada em quantidade e duração e não resolve o problema estrutural.

Nem mesmo a poderosa marinha dos Estados Unidos conseguiu garantir segurança total para a navegação na região. Apesar da presença de porta-aviões e de uma das maiores forças navais do planeta, Washington respondeu a pedidos de escolta de navios com cautela, reconhecendo as dificuldades de assegurar a passagem pelo estreito em meio ao conflito.

Com a vantagem estratégica momentânea, Teerã passou a impor condições para um cessar-fogo. Entre elas estão o reconhecimento de seu direito de manter e desenvolver tecnologia nuclear, o fim das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e seus aliados e garantias de que não haverá novas agressões militares.

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A crise revela, mais uma vez, como o unilateralismo das grandes potências desrespeita o direito internacional e ignora instituições multilaterais como a Organização das Nações Unidas. A aliança entre Washington e o projeto sionista de Israel aprofunda a instabilidade regional e projeta efeitos sobre toda a economia mundial.

O mundo assiste, perplexo, a um cenário que revela os limites da hegemonia estadunidense. A superpotência militar que durante décadas impôs sua vontade pela força encontra agora resistência crescente e erros estratégicos cada vez mais evidentes. Em meio a crises energéticas, guerras prolongadas e perda de legitimidade internacional, os acontecimentos no Oriente Médio parecem anunciar algo maior: o lento declínio de um império que, em seus estertores, torna-se ainda mais perigoso para a estabilidade global.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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