A cidade de Belém do Pará, na Amazônia brasileira, tornou-se o centro das atenções globais com a abertura da COP30. O evento, que deveria representar um espaço de diálogo e construção de compromissos climáticos, já começou revelando as contradições que marcam a governança ambiental internacional. Enquanto líderes mundiais discursam sobre metas e compromissos, do lado de fora da zona de negociações, povos indígenas e representantes da sociedade civil protestam por participação real e respeito aos direitos dos povos originários.
No segundo dia da conferência, manifestantes ocuparam as proximidades da área de negociações para exigir maior inclusão nas decisões. O protesto foi duramente reprimido e a Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou que dois seguranças ficaram feridos. O contraste entre a exclusão vivida pelos povos da floresta e o discurso oficial das autoridades internacionais evidencia uma desconexão entre as promessas e a realidade. Não há transição ecológica justa sem escutar aqueles que há séculos defendem os biomas com a própria vida.
Em seu discurso de abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou a urgência de abandonar os combustíveis fósseis e propôs um “mapa do caminho” para a transição energética. No entanto, o cenário da própria Belém, com graves problemas de saneamento, moradia e exclusão social, mostra que ainda há muito a caminhar para tornar realidade o que se propõe no palanque internacional.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi direto: falhar em limitar o aquecimento global a 1,5ºC representa uma “falha moral” e uma “negligência mortal”. Seu apelo reflete o descompasso entre os compromissos assumidos e a lentidão em cumpri-los. Até o momento, o fundo para preservação das florestas arrecadou pouco mais da metade do valor prometido, com destaque para as contribuições de Brasil, Indonésia, Noruega, França, Holanda e Portugal.
A COP30 ainda está no início, mas já escancara que não se trata apenas de uma cúpula técnica. Trata-se de um campo de disputas políticas, onde os interesses do capital, os compromissos vazios e o protagonismo dos povos originários estão em constante tensão. Se o mundo realmente quer enfrentar a crise climática, é em Belém – não só na mesa de negociações, mas nas ruas e comunidades – que se deve começar a escuta verdadeira.
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