Bravatas imperiais, repressão interna, silêncio seletivo da mídia e o impasse de uma teocracia envelhecida
Começamos pelo exterior. Donald Trump voltou ao seu repertório de ameaças, anunciando que pretende impor tarifas de 25% a qualquer país que mantenha relações comerciais com o Irã. Trata-se de mais uma bravata imperial, típica da lógica de sanções extraterritoriais, pelas quais Washington tenta ditar normas a terceiros, violando abertamente a soberania dos povos.
Essas ameaças atingem diretamente países como China e Rússia, que mantêm acordos bilaterais e de cooperação estratégica com o Irã. Em resposta, a chancelaria chinesa foi além do plano diplomático imediato e lembrou que o intercâmbio amistoso entre China e Irã remonta ao século 2 a.C. Desde então, os povos chinês e iraniano mantêm relações contínuas de intercâmbio cultural, comercial e político, o que evidencia o peso histórico de civilizações milenares diante das bravatas de um país que sequer tem 500 anos de existência. A China integra o país persa à Nova Rota da Seda, enquanto a Rússia mantém parcerias estratégicas em diversas áreas. Ambos repudiaram esse tipo de pressão, por considerá-la uma interferência inaceitável nas relações internacionais.
Enquanto isso, no plano interno, o Irã vive uma onda de manifestações em Teerã e em várias outras cidades. A repressão tem sido violenta e já resultou em milhares de mortos, em números que, pela sua dimensão, qualificam um conflito de natureza de guerra civil. Ao mesmo tempo, a mídia internacional silencia ou minimiza a existência de grandes manifestações de apoio ao governo, criando uma narrativa unilateral dos acontecimentos.
Segundo o governo iraniano, os protestos contra o regime são estimulados a partir do exterior, sobretudo por Israel e pelos Estados Unidos. As autoridades afirmam ter prendido inclusive um agente do Mossad. Trump, por sua vez, segue estimulando a desestabilização com declarações vagas sobre uma suposta ‘ajuda’ que estaria a caminho — ajuda que nunca se explica se é política, econômica ou militar.
Diante das ameaças externas, o Aiatolá Ali Khamenei afirmou que o Irã está preparado para responder a qualquer ataque, destacando o arsenal de mísseis do país. Paralelamente, os chanceleres da China, da Índia e do Irã mantiveram conversas sobre a situação, lembrando que China, Índia e Irã integram o Brics, bloco que acompanha com atenção a escalada de tensões e suas implicações geopolíticas.
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Todo esse cenário expõe uma contradição central. O Irã é uma teocracia que se sustenta também como uma gerontocracia: o poder real está concentrado em aiatolás octogenários ou mesmo nonagenários, distantes das demandas de uma sociedade jovem e pressionada por mudanças.
Talvez esteja aí o ponto decisivo. Para além das ameaças externas e das ingerências imperiais, está na hora de o Irã enfrentar a necessidade de uma renovação política interna. Sem isso, o país seguirá prisioneiro de um impasse histórico, espremido entre a pressão do imperialismo e a rigidez de um sistema envelhecido, incapaz de oferecer respostas à sua própria população.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

