A ofensiva de Trump sinaliza uma tentativa de reimpor, pela força, uma ordem hemisférica baseada na submissão e no medo; o que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela, mas o futuro da região
O ataque do governo Trump à Venezuela representa uma ruptura grave com qualquer noção mínima de convivência internacional. Trata-se de uma ação marcada pela arrogância, pelo desprezo às normas jurídicas e pelo completo desrespeito à soberania de um país latino-americano. É um gesto que redefine, de forma brutal, o cenário político do hemisfério e inaugura uma fase ainda mais agressiva da política externa dos Estados Unidos em Nossa América.
Não se trata de um movimento isolado. Com a mesma postura arrogante, Trump ameaça abertamente o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, e mantém Cuba sob permanente intimidação. O recado é claro: qualquer governo que não se submeta integralmente aos interesses de Washington passa a ser alvo de chantagem política, econômica ou militar. A América Latina volta a ser tratada como quintal estratégico, sem direito à autodeterminação.
Diante desse cenário, o presidente Lula afirma que a Organização das Nações Unidas (ONU) precisa se manifestar. A defesa do multilateralismo e do direito internacional é coerente com a tradição diplomática brasileira. No entanto, é preciso reconhecer o impasse estrutural: qualquer tentativa de resolução ou condenação no Conselho de Segurança será inevitavelmente vetada pelos Estados Unidos. A ONU mostra, mais uma vez, seus limites quando confrontada com os interesses da potência hegemônica.
A Europa, por sua vez, assiste a tudo em silêncio cúmplice. Longe de representar um polo autônomo ou solidário, os países europeus — especialmente os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — comportam-se hoje como colônias políticas de segunda categoria dos Estados Unidos, sem soberania econômica nem política real. Ao apoiarem a narrativa de que se trata de derrubar uma suposta ditadura na Venezuela, ignoram deliberadamente a violência institucional que essa intervenção produz.
A própria vice-presidenta venezuelana, Delcy Rodriguez, foi categórica ao afirmar que o único presidente legítimo do país é Nicolás Maduro e que a soberania nacional é sagrada. Essa afirmação vai além da conjuntura venezuelana: ela ecoa como um princípio fundamental para toda a América Latina. Sem soberania, não há democracia possível, nem projeto nacional viável.
O que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela, mas o futuro da região. A ofensiva de Trump sinaliza uma tentativa de reimpor, pela força, uma ordem hemisférica baseada na submissão e no medo. Diante disso, torna-se urgente fortalecer a solidariedade entre os povos e os governos do Sul Global. A defesa da soberania, hoje, é uma condição de sobrevivência política.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

