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Caleidoscópio: crítica cultural, antologia de Walnice Galvão

Caleidoscópio: crítica cultural é uma antologia que reúne mais de 20 anos de produção ensaística da professora, escritora e crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Um livro com escritos sobre temas variados de uma intelectual que, com análises perspicazes e engajadas, há tempos encanta aqueles que se interessam por literatura, arte e, sobretudo, por melhor compreender os meios pelos quais os caminhos da cultura se relacionam aos da realidade social.

Tal como o instrumento que lhe empresta o nome, este Caleidoscópio permite ao leitor vislumbrar uma gama surpreendente de reflexões estéticas e políticas: pontos brilhantes que refletem – com a síntese e precisão que caracterizam a escritora – elementos importantes de diversas culturas e de várias épocas. Um livro singular que, por sendeiros variados, percorre da literatura ao cinema, da música e artes plásticas à política, passando inclusive pelo testemunho de fatos históricos dos tempos sombrios da ditadura militar.

Panorama contemporâneo

Uma pitada panorâmica do mundo contemporâneo, visto por olhos atentos e politizados, é o que se verifica neste Caleidoscópio. Na obra – composta de textos breves e densos – Walnice analisa desde a literatura nacional e estrangeira até questões das artes plásticas, cinema e música, sem deixar de lançar luz sobre a produção intelectual, artística e política das mulheres, tantas vezes invisibilizadas na história.

Na primeira parte, “Artes e artistas”, em meio a assuntos que costuram arte e política, trata do movimento das reparações, que tem logrado algumas vitórias no processo de devolução a seus povos de origem das obras históricas roubadas pelos colonizadores. Neste caminho aborda, entre outros: o episódio do fóssil de dinossauro cearense recentemente devolvido pelos alemães, o do manto tupinambá sob guarda dinamarquesa, e o das obras egípcias sequestradas ainda em posse dos britânicos. Discorre também sobre a defesa da causa dos oprimidos feita por atletas – como o caso da bandeira palestina desfraldada por jogadores marroquinos na Copa do Mundo. E na abertura do capítulo, em um depoimento inédito, mostra os tempos tenebrosos vividos pela população e pelos ativistas de esquerda após 1968 e durante a década de 1970, lembrando episódios de revoltas, golpes, perseguições e assassinatos de militantes e artistas.

A seguir, em “Cinema”, são analisados filmes mais contemporâneos com forte contexto político – como os que falam do golpe contra Allende ou da batalha da Maria Antonia (em que estudantes da USP foram atacados) –, e também alguns dos grandes filmes históricos.

No capítulo “Livros”, além de tecer críticas literárias, Walnice oferece testemunhos e impressões sobre alguns dos maiores nomes de nossa cultura, como: Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes. Analisa ainda a persistência do eurocentrismo, a partir da consideração de uma história das bibliotecas que se pretendia universal; e exalta a qualidade da obra do polímata e militante Edward W. Said, lutador da causa pela libertação da Palestina e um dos maiores conhecedores das “implicações políticas da cultura” no contemporâneo.

Como escritora, Walnice Nogueira Galvão conta com cerca de quatro dezenas de livros, além de centenas de artigos, ensaios, resenhas e entrevistas publicadas em periódicos, especialmente jornais, revistas e portais da imprensa independente. (Imagem: Divulgação)

Em “Música”, Walnice trata da arte musical: de suas vanguardas, da experimentação, do modernismo, do samba macarrônico e do edipiano. Por fim, em “Mulheres”, fecham o livro ensaios dedicados à interpretação da obra e condição social de algumas grandes artistas que, lutando contra a invisibilização patriarcal do capitalismo, fizeram história, como a comunista e feminista Pagu, a musa da contracultura Rita Lee, a cantora negra Alaíde Costa, ou duas reconhecidas pintoras italianas de cortes renascentistas e barrocas, cujas telas chegaram a ser atribuídas a homens.

Com este conjunto de ensaios que primam por elucidar as conexões entre aspectos culturais e sociopolíticos da nossa sociedade, a obra vem reafirmar a densidade do trabalho teórico diversificado – e cosmopolita – dessa intelectual e militante da cultura que há décadas se dedica à interpretação dos múltiplos aspectos do mundo contemporâneo.

O livro integra o acervo coleção Literatura a Contrapelo, coeditada pelas editoras Práxis Literária e Anita Garibaldi, série de publicações literárias que já conta em seu catálogo com obras de poesia e prosa de viés crítico, como a reedição acurada do clássico folclórico Histórias de Alexandre (Graciliano Ramos) – inteiramente corrigida de acordo com os arquivos e originais do autor (do acervo IEB-USP) e ilustrada com cordéis do artista Marcelo Guimarães Lima.

Walnice Galvão: breve apresentação

Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, desde há muito dedicada à atividade ensaística, Walnice Nogueira Galvão tem um amplo trabalho teórico no campo da crítica da literatura e da cultura, em que sobressaem seus estudos sobre Guimarães Rosa e Euclides da Cunha.

Graduada nos anos 1960 como cientista social, no doutorado Walnice se voltou às Letras, com um trabalho sobre o clássico de Guimarães Rosa Grande sertão: veredas – sendo orientada por Antonio Candido, de quem se tornaria primeira-assistente na disciplina de Teoria Literária e Literatura Comparada.

No início dos anos 1970, já como professora da USP, em sua livre-docência analisou a obra de Euclides da Cunha. Neste caminho, especializada em dois dos autores mais emblemáticos de nossa cultura – os quais expuseram a fundo a crua realidade sertaneja –, Walnice se distinguiria como uma das grandes intérpretes da literatura nacional. Mais tarde, seu espírito indagador dirigiria as investigações também a outros horizontes e temas – sempre desde uma perspectiva crítica –, produzindo numerosos trabalhos que a consolidariam como referência teórica em uma vasta gama de assuntos culturais.

Como escritora, Walnice Nogueira Galvão conta com cerca de quatro dezenas de livros – alguns deles já consagrados pela crítica e academia –, além de centenas de artigos, ensaios, resenhas e entrevistas publicadas em periódicos, especialmente jornais, revistas e portais da imprensa independente.

Entre suas obras de maior destaque, menciona-se: Lendo e relendo (Ouro sobre Azul/Sesc, 2019), Sombras e sons: recortes sobre cinema e música (Lazuli, 2011), Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha (Companhia das Letras, 2009), Ao som do samba: uma leitura do Carnaval carioca (Fundação Perseu Abramo, 2009), Mínima mímica: ensaios sobre Guimarães Rosa (Companhia das Letras, 2008), O tapete afegão (Lazuli, 2006), As musas sob assédio: literatura e indústria cultural no Brasil (Senac, 2005), Le carnaval de Rio (Paris, Chandeigne, 2000), Desconversa: ensaios críticos (UFRJ, 1998), A donzela-guerreira: um estudo de gênero (Senac, 1998) – livro que é um de seus clássicos, adotado regularmente em cursos universitários –, Mitológica rosiana (Ática, 1978), e As formas do falso: um estudo sobre a ambiguidade no Grande sertão: veredas (Perspectiva, 1972), tendo também organizado edição crítica de Os sertões…

Ademais de autora, Walnice colabora com projetos editoriais de viés progressista, sendo membro do Conselho de Redação da revista Teoria e Debate (Fund. Perseu Abramo), da editora Expressão Popular e do Conselho Crítico Editorial do Dicionário Marxismo na América (Núcleo Práxis-USP), para o qual contribuiu com o verbete “Pagu”, além de ser uma das conselheiras da editora Práxis Literária e de escrever regularmente para vários portais de esquerda.

Nota

Caleidoscópio está em campanha de pré-venda na plataforma Benfeitoria até a próxima quarta-feira, 10/12/2025: benfeitoria.com/projeto/caleidoscopiocriticacultural.

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