O Movimento ao Socialismo (MAS), na Bolívia, enfrenta sua maior crise em duas décadas, marcado pela fragmentação interna e acusações de corrupção, que vieram virulentamente à tona justamente antes das eleições presidenciais, nas quais seus diferentes candidatos foram amplamente derrotados por postulantes da direita e ultradireita.
Enquanto a nação boliviana celebrava, em 6 de agosto, o bicentenário de sua independência, o ambiente nas ruas e no campo estava longe de ser festivo. O colapso de um dos programas progressistas mais radicais surgidos nos primeiros anos deste século na América Latina deve ser motivo de reflexão e autocrítica não apenas para o progressismo boliviano, mas também para as forças democráticas da região.
O colapso do MAS se deve a múltiplos fatores e sua análise levará tempo, mas não é, de forma alguma, surpreendente. O partido vinha há anos se afastando das bases sociais que o levaram ao poder, enquanto a crise econômica corroía sua proposta e a direita tentava – por meio da desestabilização econômica e até mesmo com golpes e tentativas de golpe de Estado – retomar o controle do governo.
Embora a decomposição interna do MAS já fosse evidente em novembro de 2019, quando Evo Morales tentava se reeleger pela quarta vez, desencadeou-se um violento golpe de Estado – apoiado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) –, que instaurou um regime de fato, interrompeu por três anos as políticas do MAS e desarticulou grande parte das conquistas econômicas, políticas e sociais obtidas nos anos anteriores.
Quando o MAS recuperou a presidência, nas eleições de 2020, com Luis Arce Catacora à frente, já era uma força política corroída por dissensos internos, disputas de poder, esgotamento programático e pelo cansaço de suas bases diante do egoísmo – ou egocentrismo? – de seus dirigentes.
Os impactos no movimento indígena
Para os analistas, o colapso interno do MAS levanta questões angustiantes sobre o futuro dos movimentos indígenas no Estado Plurinacional da Bolívia. Cerca de 41% da população boliviana é indígena – a segunda maior proporção da América Latina –, com uma história de 500 anos de marginalização e opressão racial. Morales, que governou entre 2005 e 2019, foi o primeiro presidente indígena da Bolívia, e o MAS se constituiu historicamente em torno de movimentos indígenas e camponeses.
É evidente que o êxito do MAS – e, ao mesmo tempo, seu maior erro – foi ter concentrado todo um projeto político em uma única figura: Evo Morales, o que levou ao enfraquecimento e à desarticulação do movimento indígena. Por outro lado, também abriu a desperdiçada oportunidade de repensar um projeto político indígena à margem da tutela partidária e do caudilhismo.
O resultado das últimas eleições é uma tragédia para o futuro do movimento popular em geral e do movimento indígena em particular. Nos anos de esplendor do governo masista – com Evo como presidente e Arce como ministro da Economia – o programa popular conseguiu reativar a economia, com taxas médias de crescimento de 5%, e reduzir a pobreza extrema de 36,7% para 16,8% da população. Além disso, reafirmou firmemente a soberania nacional e concretizou muitos e importantes avanços em matéria de direitos.
Múltiplas cisões
“O declínio do MAS não pode ser compreendido sem reconhecer a desconexão entre os movimentos sociais e suas próprias bases”, explica o advogado e pesquisador aimara Roger Adán Chambi. “O movimento social deixou de ser um movimento e passou a ser apenas mais um braço do poder, muitas vezes cego pelo clientelismo e pela distribuição de cargos.”
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Nos últimos dois anos, as bases do MAS estiveram envolvidas em amargas e prolongadas divisões entre os grupos “evista” e “arcista”. A primeira apoia Morales; a segunda, o atual presidente Luis Arce, nomeado por Morales como seu sucessor.
A disputa levou a um impasse político, com os representantes evistas bloqueando projetos legislativos do governo Arce relacionados a gastos financeiros, o que agravou ainda mais o cenário econômico.
Evo Morales anunciou, em 18 de agosto, respeitar os resultados eleitorais, mas destacou a candidatura de Edman Lara, atribuindo-lhe a vitória eleitoral do Partido Democrata Cristão (PDC) sobre a figura de Rodrigo Paz. “Serei muito sincero: não é que Rodrigo Paz tenha vencido. Eu diria que quem venceu foi o capitão Lara”, afirmou. Lara é ex-policial, estrela do TikTok e foi o candidato a vice-presidente de Paz.
Bloqueios e repressão
No período que antecedeu as eleições, os partidários de Evo realizaram uma série de bloqueios, principalmente em seu bastião tropical de Cochabamba, impedindo a circulação de veículos e alimentos em todo o país. Morales não pôde se candidatar por não dispor de um partido oficialmente registrado e também por estar impedido pelos limites constitucionais que proíbem a reeleição indefinida.
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Os enfrentamentos causados pelos bloqueios culminaram em junho com um confronto violento na localidade de Llallagua, um estratégico centro mineiro urbano com conexões com a zona cocaleira do Chapare e com os ayllus (comunidades indígenas) do Norte de Potosí. Três policiais e um camponês morreram nos confrontos, quando bloqueadores evistas protestavam contra a rejeição da candidatura de Morales, determinada pela autoridade eleitoral.
Em meio a uma crescente reação pública contra os impopulares bloqueios, a decisão de Arce de enviar unidades especiais da polícia para reprimir os protestos marcou um ponto de inflexão.
Sem combustível… nem dólares
Dada a diminuição de suas reservas de gás e petróleo, a Bolívia importa a maior parte de seu combustível e subsidia seu custo, mas, devido às restrições fiscais, já não consegue arcar com o pagamento da dívida nem com os subsídios. O país destinou mais de 3 bilhões de dólares em subsídios ao gás no ano passado. Sua dívida externa estava em 13,3 bilhões de dólares no final de 2024, com reservas cambiais em um mínimo histórico.
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A falta de dólares se deve à forte queda das exportações de hidrocarbonetos, cujos lucros constituíram a base do programa econômico redistributivo do MAS durante as duas últimas décadas. O câmbio informal do dólar gira hoje em torno de 15 bolivianos, mais que o dobro da taxa oficial de 6,97.
O processo eleitoral evidenciou dois problemas subjacentes. Um: a desarticulação do movimento popular, que perdeu sua capacidade histórica de pautar a agenda política e incorporar suas reivindicações ao debate eleitoral público — algo que a desintegração do MAS apenas agravou, ao fragmentar ainda mais suas bases.
Por outro lado, diante de uma crise econômica crescente, a única solução que se apresenta é a intensificação de um capitalismo extrativista centrado no lítio, na exploração de novos hidrocarbonetos e, sobretudo, no aprofundamento do modelo agroindustrial e minerador.
Futuro sombrio
A partir de 2026, e dependendo do resultado do segundo turno a ser realizado em outubro, o governo estará nas mãos do centrista Rodrigo Paz — beneficiado pela perda de apoio popular ao MAS — ou do neoliberal Jorge Quiroga, opositor declarado das políticas sociais e de inclusão do período masista.

Não se pode descartar que esses expoentes da oligarquia boliviana adotem uma política persecutória e repressiva contra os setores populares. Com a direita (ou ultradireita) no poder, a reestruturação econômica parece inevitável. Empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial podem trazer duras medidas econômicas, que remetem aos brutais anos de ajuste neoliberal da década de 1980. A eliminação dos subsídios aos combustíveis e alimentos — dos quais dependem os mais pobres da Bolívia — provavelmente desencadearia um novo ciclo de agitação social.
Quaisquer que sejam os resultados das eleições, está claro que a era dourada do MAS terminou em amarga discórdia, e que o Estado Plurinacional enfrenta um futuro sombrio. Nada de bom se pode esperar de Tuto Quiroga, representante dos interesses do capital estadunidense e das elites tradicionais da Bolívia. Ele já ocupou a presidência durante um ano, de 2000 a 2001, e foi vice-presidente de 1997 a 2001 no governo do ex-ditador Hugo Banzer.
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Suas propostas incluem cortes de gastos para reduzir o déficit fiscal e planos para estabilizar o câmbio do dólar, financiados por um programa de resgate internacional de 12 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.
Quase 20 anos atrás, no domingo de 18 de dezembro de 2005, uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), presidida pelo ex-mandatário colombiano Andrés Pastrana, tentou impor o imaginário de uma vitória do direitista Jorge Quiroga sobre o líder indígena Evo Morales, com base em contagens paralelas realizadas pela ONG venezuelana Súmate, presidida por María Corina Machado. A manobra foi neutralizada pela auditoria da missão do Observatório em Comunicação e Democracia.
A grande incógnita está na boca de todos: em quem votarão os masistas no segundo turno? Paz espera que seja nele, mas…

