Em tempos de vozes silenciadas, comunicar tornou-se um ato de coragem. A multipolaridade nasce do direito de todos contarem sua própria história
Vivemos um tempo em que a guerra não se trava apenas com armas. Ela acontece nas palavras, nas telas, nas narrativas. A informação, que um dia foi sinônimo de liberdade, hoje é campo de disputa entre versões de mundo. Cada manchete, cada silêncio, cada algoritmo decide o que o planeta verá e o que será esquecido.
Desde o início da guerra na Ucrânia, o espaço informacional global se tornou ainda mais polarizado. Veículos russos foram bloqueados em plataformas ocidentais, contas foram suspensas e vozes apagadas. Em nome da “liberdade de expressão”, instaurou-se um regime de censura seletiva, em que apenas certas vozes têm o direito de contar a história. O resultado é um mundo que se pretende democrático, mas no qual o direito à narrativa é privilégio de poucos.
A América Latina conhece bem o peso de ser narrada por outros. Durante décadas, fomos personagens coadjuvantes em histórias contadas de fora, exotizados, tutelados, reduzidos àquilo que cabia na lente de um olhar estrangeiro. A Rússia, por sua vez, também sente o peso das caricaturas: desde o império à “ameaça soviética” constante, raramente é retratada em sua complexidade histórico-cultural. É nesse ponto que nossos destinos se cruzam, na luta por poder contar nossas próprias histórias, sem tradução interessada, sem intermediários que decidam o que é verdade.
Essa disputa pelo direito à palavra não é abstrata: ela tem rostos, corpos e geografias. Em Gaza, jornalistas são mortos enquanto tentam mostrar ao mundo o que resta das casas, das escolas, das famílias. As vozes palestinas lutam não apenas por sobrevivência física, mas por sobrevivência narrativa. Suas histórias são interrompidas, silenciadas, deslegitimadas. E quando o sofrimento de um povo é mediado por lentes que escolhem o que vale ser mostrado, o silêncio também se torna arma.
A comunicação multipolar nasce dessa urgência. Ela não é uma negação do diálogo, mas sua condição. É o reconhecimento de que o mundo é vasto demais para caber em uma única narrativa. Que há outras formas de pensar a democracia e a liberdade, e que nenhuma delas é universal. Construir uma comunicação multipolar é um ato de soberania cultural e política.
Não se trata de substituir uma hegemonia por outra, mas de romper o monopólio da palavra; criar pontes onde antes havia muros; permitir que um estudante brasileiro leia um jornal russo sem intermediações, ou que um jovem russo ouça um podcast latino-americano sem legendas distorcidas e fragmentos enviesados; de reconhecer que a informação também é um recurso estratégico, e que quem controla a narrativa, controla o futuro.
Na era digital, os algoritmos tornaram-se novos diplomatas. São eles que decidem quais países, culturas e tragédias ganham destaque nas timelines. Mas a diplomacia dos algoritmos é fria: obedece à lógica do engajamento, não da empatia. Por isso, precisamos recuperar o poder de contar o mundo a partir de outros lugares, com outras vozes, outros afetos e outras prioridades.
A multipolaridade, tantas vezes tratada apenas como conceito geopolítico, é antes de tudo um exercício de imaginação. É a possibilidade de reconhecer que há múltiplas formas de viver, comunicar e construir o futuro. Num cenário em que potências disputam territórios e mercados, afirmar a pluralidade de narrativas é também afirmar a diversidade de caminhos. Um mundo multipolar não se ergue apenas com tratados e alianças, mas com histórias que se cruzam e se escutam, com povos que se reconhecem como protagonistas do próprio tempo.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

