A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.
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Estamos diante de acontecimentos que uma geração inteira da América Latina jamais havia presenciado: bombas cruzando o céu do continente e a aplicação direta da doutrina de guerra de Donald Trump em sua forma mais crua — o puro concentrado do imperialismo. A última vez que nosso território foi cenário de uma ofensiva militar dessa magnitude foi durante a invasão dos Estados Unidos ao Panamá, em 1989; por outro lado, em mais de 200 anos de independência, é a primeira vez que a América do Sul é alvo de um ataque direto.
Em uma entrevista histórica, Hugo Chávez foi questionado sobre se o diagnóstico de uma possível invasão estadunidense não seria alarmista. Sua resposta foi direta e lúcida: todos os presidentes que ousaram enfrentar o império, até então, terminaram mortos. Não se tratava de retórica, mas de uma leitura real da história latino-americana.
Da ofensiva histórica ao presente: golpes, sequestros e a Revolução Bolivariana sob ataque
A Venezuela vive sob cerco imperialista desde a primeira eleição de Chávez, mas o sequestro do presidente Nicolás Maduro configura o maior ataque desde então. É fundamental afirmar que esse episódio não inaugura a ofensiva dos Estados Unidos contra a Revolução Bolivariana, mas dá continuidade a uma longa trajetória de tentativas de destruição do processo revolucionário. Em 2002, Hugo Chávez foi sequestrado por militares traidores e mantido refém por 47 horas, sendo libertado apenas pela pressão popular, em uma paralisação massiva que só cessou com sua restituição ao poder.
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Para além dos golpes clássicos, o imperialismo passou a patrocinar figuras golpistas e governos paralelos, como Juan Guaidó e María Corina Machado. Em 2019, Guaidó se autoproclamou presidente da República em uma encenação política imediatamente reconhecida por Washington, expondo o caráter tutelado, estrangeiro e colonial da tentativa de usurpação do poder na Venezuela.
A aplicação de medidas coercitivas unilaterais: nova forma de cerco e assédio imperial
A pressão e o cerco econômico internacional contra a Venezuela se consolidam a partir de 2014; contudo, foi em março de 2015 que o então presidente Obama assinou a primeira Ordem Executiva, declarando a Venezuela como “uma ameaça incomum e extraordinária”. A partir daí, o governo democrata criou o precedente jurídico para todos os presidentes estadunidenses subsequentes — Obama, Biden e Trump — que aplicaram mais de 930 medidas coercitivas unilaterais contra o Estado e o governo venezuelanos, suas instituições financeiras (inclusive o Banco Central da Venezuela), a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), além de um sem-número de altos funcionários do governo bolivariano, empresas privadas e públicas. O objetivo foi estrangular a economia venezuelana, reduzir sua capacidade de produção petrolífera, desvalorizar a moeda nacional e induzir uma implosão social.
A pressão sobre a economia venezuelana foi tamanha que as receitas petrolíferas do país caíram 97% entre 2018 e 2022, já que a principal indústria petrolífera estatal — a PDVSA — sofreu proibições de operações internacionais impostas pelo governo dos EUA. Em um país petrolífero, cujas receitas sustentam direitos sociais e serviços públicos como educação, saúde, salários, segurança e defesa, esse cenário representa um golpe mortal.
De forma cínica, em 2023, uma revista de especialistas assessores do Congresso dos EUA confirmou que, em grande medida, as chamadas sanções provocaram o êxodo massivo de venezuelanos por todo o continente, devido às duras condições econômicas vividas entre 2017 e 2021.
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Paradoxalmente, foi durante a pandemia da COVID-19, entre 2022 e 2023, que a economia doméstica da Venezuela iniciou um processo de recuperação interna, alcançando 93% de abastecimento de alimentos de produção nacional, reduzindo drasticamente a importação de bens e serviços alimentares básicos e deixando para trás as tristes imagens do desabastecimento. No centro dessas conquistas esteve uma dupla: o governo do presidente Maduro e o poder popular organizado, expresso nas Comunas Produtivas. O país alcançou soberania alimentar e diversificação econômica sob o governo do presidente Maduro, em grande simbiose com a organização popular, o que também se refletiu em sua reeleição em 2024.
Compreende-se, assim, que as soluções e respostas ao bloqueio ilegal imposto à economia petrolífera venezuelana residiram na capacidade de autogestão e na maximização dos recursos disponíveis. Para isso, transformaram-se instituições, reformaram-se leis e criou-se um sistema de governo mais próximo das comunidades organizadas, envolvendo também as Forças Armadas Bolivarianas — sendo notável a transformação de sua concepção e de seu funcionamento com a Revolução, nascida de militares nacionalistas revolucionários.
Essa foi a resposta de resistência às medidas coercitivas unilaterais, a ponto de, em 2025, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), a Venezuela liderar com 6% o crescimento e a recuperação econômica de toda a região latino-americana. Sem dúvida, um acerto do governo e do poder popular organizado na Venezuela.
A desinformação como arma de guerra, a fraude como pretexto político e o Brasil como mediador internacional
As redes sociais são hoje parte central da disputa política. Desde o golpe de 2016, o Brasil se tornou um laboratório avançado de fake news e guerra informacional. A prisão de Lula e a eleição de 2018, entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, constituíram a grande experiência posterior à eleição de Donald Trump, inaugurando um modelo de disputa política baseado em dados massivos, algoritmos, desinformação e consequente alienação social.
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Nesse processo, bilionários das grandes empresas tecnológicas e proprietários das redes sociais ocidentais passaram a ocupar um lugar central na elite político-econômica global. Ainda assim, o Brasil não conseguiu se consolidar como epicentro de denúncia, fiscalização e regulação dessas plataformas, deixando de impulsionar um enfrentamento global e coordenado ao problema.
Nesse contexto, o governo Lula, junto a outros setores relevantes da política latino-americana, acabou respaldando a fake news de fraude eleitoral construída por Trump e pela oposição venezuelana e difundida mundialmente pelas redes sociais. Essa posição do Brasil se articulou a uma estratégia de política internacional pendular voltada à reconstrução de respaldo global. Embora exitosa no plano diplomático, a estratégia teve custos elevados — entre eles, o respaldo indireto ao golpismo que se aproximava da Venezuela — e culminou em bombas lançadas sobre o continente.
Paradoxalmente, esse mesmo respaldo internacional pode agora ser uma grande ferramenta para o continente — um grande feito do presidente Lula e uma estratégia de equilíbrio de poder. Nesse contexto de fake news e golpismo, o apoio internacional ajuda a manter o equilíbrio interno entre os poderes brasileiros, em um cenário em que a oposição detém a maioria do parlamento e dos governos estaduais, evitando que outro golpe ocorra.
Esse respaldo foi fortalecido por fóruns estratégicos realizados no Brasil entre 2024 e 2025, como os do G20 e do Brics, e pode agora cumprir um papel decisivo como instrumento de articulação internacional latino-americana e global para a devolução do presidente Nicolás Maduro e da primeira-combatente Cilia Flores à Venezuela — denominação que, por si só, expressa uma concepção revolucionária e emancipadora do poder e da titularidade política.
A narrativa de fraude nas eleições venezuelanas tornou-se o eixo central da ofensiva política. Donald Trump exigiu a verificação das atas enquanto o mundo acompanhava sua versão dos fatos, ignorando que centenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas de Caracas, em janeiro de 2024, para investir o presidente eleito.
Mas o ataque digital não se limitou ao plano político. A tecnologia foi utilizada como arma direta de guerra. Em 3 de janeiro de 2026, a ofensiva começou de forma coordenada no campo cibernético, com o corte do fornecimento elétrico em grandes áreas de Caracas para criar uma verdadeira “cortina de escuridão”.
Guerra híbrida em escala total: da ofensiva cibernética ao ataque militar direto
O ataque, parte da Operação Absolute Resolve (Solução Absoluta, em tradução livre), foi comandado pelo Cyber Command (Cybercom) a partir de Fort Meade, Maryland, com autorização direta da Casa Branca. A operação provocou um apagão total em Caracas, desativou sistemas de radar e comprometeu comunicações estratégicas da PDVSA. A Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) atuou como infiltrada digital, utilizando malware previamente instalado — programas de software maliciosos que se infiltram disfarçadamente ou exploram vulnerabilidades para causar danos ou roubar informações — enquanto o aparato de guerra eletrônica e espacial dos Estados Unidos neutralizava radares e sinais de GPS, deixando a Venezuela tecnologicamente cega.
Ainda assim, não se pode afirmar que não houve resistência. Pelo menos 32 militares cubanos e 24 venezuelanos morreram defendendo o país. Com o passar dos dias, o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, confirmou à imprensa mais de 100 mortos, entre civis e militares. A cifra é imprecisa — segundo o próprio ministro —, dado que o ataque de helicópteros e mísseis estadunidenses foi tão feroz que não foi possível identificar corpos, apenas restos humanos, exigindo técnicas de coleta de DNA para possíveis identificações.
O que se confirma é que nenhum integrante da Guarda de Honra Presidencial — corpo militar responsável pela segurança presidencial — se rendeu ou entregou as armas. Todos optaram pelo sacrifício em um combate assimétrico que durou ao menos uma hora. Infelizmente, todos os soldados venezuelanos e cubanos foram massacrados pelo Exército dos EUA na Base Militar Fuerte Tiuna, onde se encontrava o presidente Nicolás Maduro naquela madrugada fatídica.
Bases militares, aeroportos, infraestruturas portuárias, centros de pesquisa e até um depósito de medicamentos — comprometendo tratamentos de pacientes renais — foram bombardeados. A magnitude da agressão revela que o objetivo não era apenas capturar a chefia do Executivo, mas provocar um colapso institucional e humanitário. O Brasil demonstrou importante solidariedade à Venezuela ao enviar 100 toneladas de medicamentos e insumos médicos, evidenciando a força e a necessidade de fortalecer a integração entre países irmãos, essencial para o desenvolvimento e a defesa do continente.
Xi e Putin: da promessa multipolar à prática seletiva da soberania
Nada do que ocorre na Venezuela pode ser compreendido fora da disputa material por recursos estratégicos: o objetivo central dos Estados Unidos é o petróleo venezuelano, a maior reserva comprovada do planeta; no Brasil, o foco desloca-se para as terras raras, fundamentais para a indústria de alta tecnologia, a transição energética e o complexo militar-industrial.
O objetivo de Donald Trump não é a “democracia” nem o “combate ao narcotráfico”, mas o controle desses recursos em um cenário de crise da hegemonia estadunidense. Já a grande imprensa corporativa cumpre o papel de proteger os interesses dos Estados Unidos, reproduzindo a narrativa de Nicolás Maduro como “ditador” e apresentando Trump como suposto combatente do narcotráfico, normalizando a agressão imperial e ocultando sua base econômica real.
Por que a Venezuela não caiu: revolução, Estado e lealdade popular
Como um país submetido a esse nível de agressão conseguiu se manter de pé? A verdade é que apenas uma revolução tem essa capacidade.
No caso venezuelano, trata-se de um projeto de transição profunda do Estado, da sociedade, da organização social e do sistema de produção — do bolivarianismo ao socialismo — com centralidade no fortalecimento do Sistema Comunal. Rumores de traição não se sustentam diante dos fatos: o ataque foi tão violento justamente porque o poder estatal e político é altamente leal à Revolução Bolivariana.
Essa lealdade é fruto de um processo em que o poder popular é fomentado pelo Estado em articulação orgânica com os movimentos sociais e o partido, organizados territorialmente. A Revolução Bolivariana foi a última revolução do século 20 e a primeira do século 21 — e o único processo progressista da região que se manteve de pé ao longo deste século.
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A vitória política da Venezuela frente à mais agressiva ofensiva imperialista do século 21 não é fruto do acaso. É resultado direto da Doutrina Bolivariana, inaugurada por Hugo Chávez como um projeto consciente de preparação histórica.
Chávez compreendeu que enfrentar o imperialismo não seria um episódio isolado, mas um processo prolongado de guerra política, econômica, informacional e militar. Por isso, rompeu com a ilusão liberal da neutralidade institucional e entendeu que a revolução não podia se limitar a ocupar o governo: era necessário refundar o Estado, redefinir lealdades e reorganizar a democracia a partir do povo. Hoje, não há ninguém à frente do Estado bolivariano que não seja leal à pátria.
A arquitetura da vitória: poder popular, poder militar e direção política
Essa doutrina se expressa em um Estado popular, soberano e anti-imperialista sustentado por três eixos indissociáveis: o poder popular, o poder militar bolivariano e o poder político revolucionário.
O poder popular materializa-se nas comunas e nos conselhos comunais, que exercem poder real sobre produção, serviços e governo local, com mobilizações diárias e capilarizadas em Caracas e em outras regiões do país pela devolução do presidente. Trata-se de uma democracia direta e participativa que substitui a passividade eleitoral pelo protagonismo permanente.
No plano militar, a Venezuela promoveu uma ruptura inédita ao abandonar a doutrina da Escola das Américas. Suas Forças Armadas foram politizadas no sentido mais elevado do termo: lealdade à pátria, à Constituição e ao projeto popular. Por isso, mesmo sob guerra cibernética, não houve adesão ao golpismo.
O poder político, organizado coletivamente, garantiu continuidade histórica para além da figura de Chávez. Nicolás Maduro governa como expressão de um projeto consolidado, ao lado de Delcy Rodríguez e de uma direção política que impediu a implosão do processo. A fortaleza do chavismo está na unidade em defesa da pátria. A sabedoria da Doutrina Bolivariana reside em compreender que o imperialismo ataca onde há fragilidade institucional, despolitização social e forças armadas subordinadas. A Venezuela fez o oposto — e venceu.
Estrutura para roubar petróleo da Venezuela poderia custar US$ 100 bilhões a petrolíferas dos EUA
O discurso de “ditadura” contra a Venezuela ignora deliberadamente a realidade latino-americana. A democracia liberal jamais existiu plenamente nos Estados pós-coloniais, funcionando historicamente como instrumento de dominação das elites e de subordinação externa. A democracia popular venezuelana, ao contrário, está indissociavelmente ligada à soberania econômica, ao poder popular e à participação direta, superando o modelo eleitoral como único critério de legitimidade.
Defender a Venezuela é defender os povos: soberania, multipolaridade, resistência e futuro
A Venezuela é hoje um importante símbolo de resistência do Sul Global. Sua sobrevivência não é apenas nacional: é histórica. Defender a Venezuela é defender o direito dos povos de construir seus próprios projetos de Estado, democracia e desenvolvimento. A recente agressão à soberania venezuelana deve ser compreendida para além das infundadas acusações de narcotráfico — já descartadas pelo próprio Departamento de Justiça dos EUA — e também ultrapassa os debates sobre os resultados das últimas eleições presidenciais: trata-se de uma disputa global.
Porta-vozes do Departamento de Estado e do Departamento de Guerra dos EUA afirmam abertamente que não podem permitir que seus inimigos políticos tenham um país aliado no continente — leia-se China, Rússia ou Irã como antagonistas geoestratégicos. Nesse sentido, a confrontação entre EUA e Venezuela também busca definir as linhas entre a unipolaridade das relações internacionais impostas pela dupla EUA–Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a multipolaridade promovida pelos Brics+ e outras potências emergentes. Isso ocorre independentemente da negativa do Brasil à entrada da Venezuela no Brics+, decisão tomada no mesmo momento do não reconhecimento das eleições de Maduro, dado que o país mantém estreitas relações econômicas e militares com Rússia, Irã e China, considerados pela política externa dos EUA como inimigos ou oponentes ao modelo de dominação impulsionado pelo atual governo Trump.
Em suma, no cerne da disputa geopolítica, a implementação da Doutrina Monroe em pleno 2026 busca assegurar que as maiores reservas de petróleo do planeta não fiquem sob influência de potências emergentes promotoras da multipolaridade, além de responder à crise energética vivida pelos EUA, que Trump tenta resolver sem olhar para dentro de seu próprio território.
Traição? Aliança com EUA? Desmontando a operação psicológica de Trump e as falácias anti-chavistas
Não obstante, as pretensões do governo dos EUA de se apropriar dessas reservas petrolíferas encontram forte resistência na própria Constituição venezuelana e no governo da Presidenta Encarregada da Venezuela, que afirma de forma categórica que o petróleo e todas as riquezas estratégicas do país pertencem exclusivamente ao povo venezuelano e ao interesse nacional.
A lição deixada pelos acontecimentos na Venezuela é clara: para construir soberania popular, é preciso estar preparado para a contraofensiva do imperialismo estadunidense. Independentemente de sua decadência como modelo de sociedade, não se pode ignorar o caráter supremacista de quem, com o uso de mísseis, pretende impor modelos e sistemas de governo à revelia da vontade popular. Por isso, projetos emancipatórios, revolucionários e progressistas não devem depender exclusivamente de instituições tradicionais ou de uma liderança única e personalista: é necessária a capacidade de coesão em lideranças coletivas que permitam reagrupar forças diante dos duros golpes das forças neoconservadoras e das direitas do continente.
Sobreviver, nesse contexto, já é uma vitória — uma vitória que redefine os limites do imperialismo e mantém aberta a possibilidade de emancipação na América Latina.

