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CAFÉ COM VODKA | Bases militares estrangeiras: por que não precisamos delas?

A coluna Café com Vodka é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil), em parceria com a Diálogos do Sul Global

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“A palavra ‘verdade’ perderia seu significado se a mentira viesse a tornar-se inútil.”

As bases militares estadunidenses não são uma garantia de segurança. As evidências são claras: a Colômbia possui sete delas e é um dos países mais violentos do mundo. O Panamá, por sua vez, tem bases militares estadunidenses há muito tempo, e seus níveis de violência nem sequer se aproximam dos de seu vizinho colombiano — o que se deve, porém e em grande medida, ao Canal do Panamá e ao interesse dos Estados Unidos em que ele permaneça “seguro”.

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A explicação para a segurança pública nos dois casos está na atuação dos próprios governos: enquanto o colombiano, até a chegada de Petro, atuou com a intenção de conservar um poder que dá as costas ao povo — mantendo o país sem reforma agrária, marcado pela desigualdade e por uma violência que, desde 1832, beira uma Guerra Civil permanente —, a administração governamental panamenha atuou de modo distinto, já que o país não é um “centro do narcotráfico” e, portanto, não precisa ser “pacificado”. Pôde, assim, priorizar áreas como educação, trabalho e geração de produção, formando uma sociedade com menores desigualdades sociais, o que resultou em melhores índices de segurança.

Se as bases militares fossem, por si só, a solução, então, como mencionamos anteriormente, a Colômbia seria, há 30 anos, o país com melhores resultados na luta contra a criminalidade, algo que está muito longe de ser realidade. Segundo relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2021, citados pela CNN, a Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo, com mais de 204 mil hectares de plantação no ano do levantamento, sobretudo na fronteira sul, que desde a desmobilização das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em 2017, ainda não conta com presença do Estado colombiano, enquanto as bases estadunidenses não servem para controlar nem apoiar essa região fronteiriça com o Equador. O crescimento dessa economia ilícita ocorreu durante o governo do uribista neoliberal Iván Duque. A razão não exige força quando aprendemos a ouvir e compreender os dados.

A Colômbia aumentou seus níveis de cultivo de coca a patamares históricos em 2021, segundo o relatório do Sistema Integrado de Monitoramento de Cultivos Ilícitos (SIMCI) do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), publicado esta semana.

A coca é conhecida como o principal ingrediente da droga ilegal, a cocaína. O relatório indicou que houve “um aumento de 43% na área plantada com coca no país, passando de 143 mil hectares em 2020 para 204 mil hectares em 2021”. Além disso, acrescentou que a produção potencial de cloridrato de cocaína também atingiu seu máximo histórico, 1.400 toneladas, mantendo a tendência de alta desde 2014.CNN

A interferência das bases estrangeiras

As bases estrangeiras, além da afronta à soberania que representam, constituem um lembrete daquilo que pretendem que sejamos: uma colônia, dependente da vontade de um proprietário distante, ganancioso e egoísta, que não compartilha os frutos de seu triunfo com ninguém.

Vivemos em um mundo bipolar que transformou todas as relações em bases dicotômicas: bom e mau, branco e preto, perpassando todos os níveis do social, do político e do econômico. A própria consciência da existência real entra em dúvida frente ao fato de que não há capacidade de contraste nem de pensamento além dos formatos preestabelecidos pelo poder dominante. 

São as mesmas elites que, no Equador, durante o governo de Osvaldo Hurtado Larrea (1981-1984), fizeram o Estado assumir e converter para a antiga moeda nacional (o sucre) dívidas que originalmente eram privadas. Além disso, provocaram o feriado bancário, cogovernaram com Moreno e hoje saqueiam e dissolvem o Estado, permitindo a morte de milhares de equatorianos. Tudo isso é feito com o apoio de Washington e de sua política de intervencionismo, com a qual inclusive os resultados eleitorais foram adulterados em abril de 2024, segundo denúncias do Revolução Cidadã — algo que, de fato, se facilita com a presença de bases militares ou até mesmo de empresas como a United Fruit, a mesma que, a ferro e fogo, mandava na América Central, instaurando e derrubando governos em cumplicidade com elites corruptas e sistemas eleitorais pouco transparentes. Conforme aponta a inglesa BBC:

De fato, a intervenção em processos eleitorais de outros países tem sido, há muito tempo, um componente importante da política externa de Washington.

Se considerarmos que expulsar do poder um governante democraticamente eleito é a forma máxima de intervenção, aí estão os casos de Jacobo Árbenz, na Guatemala; Salvador Allende, no Chile; e João Goulart, no Brasil — apenas para mencionar alguns exemplos.BBC

Recordemos quão “bem-sucedidos” têm sido os estadunidenses e seus atuais exércitos mercenários ao redor do mundo: Líbia, Iraque, Síria… países que, entre os de maioria muçulmana, tinham algumas das melhores condições de vida, eram laicos, com altos níveis de educação e desenvolvimento, e ricos. Hoje são o doloroso lembrete de que não existe qualquer interesse real em “democratizar” esses povos ou ajudá-los a crescer. Há apenas o desejo de pilhagem, domínio, venda de armas, fortalecimento de máfias e morte. A espanhola RTVE detalha:

Cerca de 900.000 mortos em 20 anos

O Pentágono não contabiliza as baixas que suas operações causam entre os combatentes inimigos nem as vítimas entre a população civil. O projeto The Costs of War, do Instituto Watson da prestigiada Universidade Brown (EUA), tenta quantificar todos os custos da “guerra ao terror” e é uma das referências mais citadas pela imprensa norte-americana.

Segundo seus dados, até agosto haviam morrido entre 897.000 e 929.000 pessoas, em sua maioria civis (entre 363.000 e 387.000).

Entre as vítimas incluem-se 14.874 soldados de outros países aliados e cerca de 300.000 combatentes inimigos; mais de 8.000 contratistas privados de segurança norte-americanos, bem como 680 jornalistas e 892 trabalhadores de ONGs.

Muitos outros, afirma o Instituto, morreram pelas consequências indiretas dos conflitos, como fome ou falta de atendimento médico.

O custo em vidas soma-se ao de deslocados e refugiados. Cerca de 37 milhões de pessoas perderam seus lares ou se tornaram refugiados em consequência das guerras travadas pelos EUA após o 11 de Setembro, segundo a mesma fonte.RTVE

A Ucrânia vive algo parecido. É o peão de guerra dos Estados Unidos, que, em seu afã de polarizar o mundo — para vender ainda mais armas e especular com os recursos resultantes de seu saque ao planeta — verá chegar, como toda a Europa, um inverno que certamente cobrará mais vidas e arrastará consigo a ruína do continente. Até mesmo o Equador será afetado, país que é hoje o principal exportador de flores, brócolis, cacau, camarão, banana e café para o território estadunidense. Vêm aí mais pobreza, desemprego e violência.

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