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CAFÉ COM VODKA | Além das Flores: 8M e a luta das mulheres na Rússia e na América Latina

A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.

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O Dia Internacional da Mulher, celebrado anualmente em 8 de março, transcende a mera formalidade de uma data comemorativa e se consolida como um símbolo da luta histórica por direitos, equidade e respeito. As raízes da data estão profundamente ligadas aos movimentos trabalhistas e feministas do final do século 19 e início do século 20, desde a marcha de 15 mil mulheres em Nova York, em 1908, até a greve histórica das trabalhadoras russas em 1917. Naquele momento, uma série de protestos denunciou as precárias condições de trabalho, a escassez de alimentos e o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial, sob o lema “Pão e Paz”, marcando um ponto crucial na história das mulheres.

É importante lembrar que, de acordo com o calendário juliano então vigente na Rússia, a greve teve início em 23 de fevereiro — data que corresponde ao 8 de março no calendário gregoriano, hoje adotado internacionalmente como o Dia Internacional da Mulher. Décadas depois, em 1975, a data foi oficialmente reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, o 8 de março permanece como um lembrete de que cada direito conquistado pelas mulheres foi fruto de mobilização e resistência — um marco que deve ser lembrado não apenas uma vez ao ano, mas de forma permanente.

Brasil

O Brasil carrega uma marcante trajetória de luta. O país viu avanços fundamentais como a conquista do voto feminino em 1932 e os avanços da Constituição de 1988, que garantiu a igualdade de gênero perante a lei. Mais recentemente, em 2006, a sanção da Lei Maria da Penha tornou-se um pilar no combate à violência doméstica. Por isso, o 8M brasileiro mantém a perspectiva de reconhecimento e valorização das mulheres.

A celebração brasileira é marcada por uma dualidade entre o caráter festivo difundido socialmente e o político e reivindicativo. Nas ruas, o movimento 8M mobiliza multidões em atos organizados por movimentos feministas e sindicatos. As pautas são urgentes, como o combate ao feminicídio — uma mulher é vítima a cada seis horas no país —, a luta por igualdade salarial — em média, as mulheres ganham 22% a menos que os homens em funções semelhantes — e a defesa dos direitos reprodutivos.

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Na política, as mulheres ocupam apenas 17,7% das cadeiras no Congresso Nacional. Soma-se a isso a dupla jornada de trabalho, sob a qual elas dedicam cerca de 10 horas semanais a mais do que os homens às tarefas domésticas.

O 8 de março no Brasil representa a força da resistência de vozes diversas — mulheres negras, indígenas, periféricas e trabalhadoras rurais — que seguem em busca de uma sociedade onde a igualdade não seja apenas uma letra morta na lei, mas uma realidade cotidiana. A data expõe no país as contradições de uma sociedade que avançou em direitos, mas que ainda convive com desigualdades profundas.

América Latina

Em outros países da América Latina, o Dia Internacional da Mulher também é celebrado no dia 8 de março. Entretanto, a luta pelos direitos das mulheres é muito mais do que uma data no calendário: cada país possui suas próprias mobilizações ao longo do ano. Ao impulsionar movimentos feministas, esse dia se transformou em um poderoso grito por direitos e justiça, onde a cor roxa do feminismo se faz símbolo onipresente nas ruas.

O epicentro dessa transformação pode ser apontado na Argentina, berço do movimento Ni Una Menos (Nem Uma a Menos, em tradução livre), que em 3 de junho de 2015 deu voz à indignação contra o feminicídio e a violência de gênero na América Latina. As marchas em Buenos Aires que ocorrem no dia 8 de março são massivas, unindo gerações na defesa das conquistas feministas e na resistência a qualquer retrocesso.

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O movimento Marea Verde, também argentino, com seus lenços verdes, simboliza a luta pela legalização do aborto e pela autonomia reprodutiva, influenciando fortemente países como o Chile, que se destacou por intervenções artísticas e performances impactantes, como Um Violador em Teu Caminho, criada no final de 2019. Já no México, a urgência da luta contra o feminicídio e os desaparecimentos de mulheres impulsiona manifestações marcadas pela ocupação simbólica de espaços públicos.

No Paraguai, o Paro de Mujeres (Greve de Mulheres) reúne mobilizações no 8 de março para reivindicar direitos e denunciar desigualdades, a violência de gênero e injustiças sociais. Na Colômbia, marchas são realizadas nas principais cidades do país, celebrando conquistas e também chamando atenção para a proteção de líderes sociais e mulheres em zonas de conflito.

É fundamental reconhecer que o 8 de março na América Latina possui um caráter profundamente interseccional, abordando não apenas questões de gênero, mas também a defesa de territórios indígenas e camponeses, a busca por memória e justiça para vítimas de conflitos e ditaduras e o reconhecimento do trabalho doméstico não remunerado. Para países com significativas populações afrodescendentes, como Colômbia, República Dominicana e Honduras, o 25 de julho — Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha — complementa o 8 de março ao destacar a luta contra o racismo que atravessa a vida dessas mulheres.

Portanto, o 8 de março na região é marcado por mobilização, memória e reivindicação. Os contrastes sociais presentes nos diferentes países revelam que, apesar de avanços importantes, a América Latina ainda enfrenta índices alarmantes de violência e desigualdade de gênero. A verdadeira celebração da data está no compromisso contínuo de transformar as estruturas que ainda impedem as mulheres de ocupar plenamente todos os espaços da vida social, política e econômica.

Rússia

Na Rússia, cada menina, sem exceção, espera pelo dia 8 de março e sabe exatamente qual feriado é comemorado nesse dia. Claro, inicialmente essa data tinha a mesma ideia original que em todo o mundo — a proteção dos direitos, a afirmação da liderança feminina no desenvolvimento da sociedade e a compreensão de que o progresso das mulheres é parte do progresso do mundo. Mas na consciência coletiva russa contemporânea, o 8M se consolidou, antes de tudo, como o “dia da mulher” no sentido mais amplo e cotidiano. Não é, de forma alguma, um dia de mobilização em massa e de simbologia de rua, habitual na América Latina. Para os russos, este é o dia de celebrar a mulher como figura em geral. No centro estão a beleza, a feminilidade e a ternura, embora por trás dessa suavidade externa, de uma forma ou de outra, também estejam implícitas a força e a fortitude de espírito. De forma geral, ainda assim, os traços femininos das moças é que vêm para o primeiro plano.

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Seja uma menina de três anos, uma estudante, uma mãe cansada ou uma avó de 97 anos, não há exceção: o 8 de março na nação russa é um feriado para qualquer mulher. Parece que o país inteiro, neste dia, ajusta o foco nelas, como se o cotidiano pausasse por um instante suas preocupações para reconhecer publicamente a existência e a importância de cada representante do sexo feminino. Em Moscou, essa atenção ganha uma forma especialmente visível num detalhe que se repete literalmente a cada passo: homens com flores. As flores são, provavelmente, o principal atributo do feriado, um símbolo quase inevitável. Isso é particularmente expressivo no metrô: você entra e é como se a cidade inteira estivesse se deslocando com buquês nas mãos, como se cada vagão transportasse pequenas declarações e gestos de atenção, para casa, para o trabalho, para um encontro, para uma visita. Se quiser ver isso, definitivamente procure por vídeos nas redes sociais, e perceberá a dimensão do que acontece.

Neste dia, há sempre presentes, surpresas, reservas em restaurantes, promoções e ofertas especiais. Muitos homens se esforçam para organizar uma homenagem para suas esposas. Muitas mulheres esperam por este dia com antecipação, porque sabem que ele traz um tipo especial de atenção, socialmente estabelecido. E ninguém fica sem homenagem: se não tem marido, namorado ou parceiro, certamente haverá um pai, colegas, um chefe, um professor, um departamento universitário, um grupo de estudo. Em algum lugar e de alguém, certamente virão palavras calorosas, uma flor, um chocolate ou uma mensagem. Para os homens, a regra é se preparar para este dia com especial cuidado. Não basta apenas parabenizar. É importante escolher o presente certo, cobrir a mulher de atenção e criar para ela uma verdadeira festa. Muitos estrangeiros expressam opiniões diferentes sobre esses “caprichos” da cultura russa, mas o fato é um fato. As moças eslavas sempre esperam pela festa vinda dos homens neste dia.

Para muitas pessoas, o 8 de março é um feriado tão importante quanto o aniversário ou o Ano Novo. E quando as russas precisam explicar aos estrangeiros que dia é comemorado no 8 de março, acredite, ficam simplesmente perplexas, pois para a população russa este é um feriado que toda pessoa conhece. Você não encontrará um único russo que não saiba o que exatamente se comemora nesse dia. Assim, o 8M russo se torna um espelho cultural: por um lado, ele afasta a data das suas origens mais combativas e, por outro, a transforma num raro consenso social, num dia em que o reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna visível e quase impossível de ignorar. Assim, o 8M russo se torna um espelho cultural: por um lado, ele afasta a data das suas origens mais combativas e, por outro, a transforma num raro consenso social, num dia em que o reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna visível e quase impossível de ignorar.

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