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Burkina Faso: as digitais de França e EUA na tentativa de assassinato contra Ibrahim Traoré

Em 3 de janeiro, durante as horas obscuras em que se realizava a “Operação Resolução Absoluta” — com a qual os Estados Unidos conseguiram sequestrar o presidente Nicolás Maduro após assassinar cerca de quarenta membros de sua escolta —, ocorria,  a mais de sete mil quilômetros dali, algo que guardaria uma forte familiaridade com o episódio em Forte Tiuna.

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Em 7 de janeiro último, por meio de um comunicado, o Ministério da Segurança de Burkina Faso deu detalhes sobre a tentativa de golpe ocorrida no país em 3 de janeiro, cujos objetivos incluíam o assassinato do presidente da junta militar, o capitão Ibrahim Traoré, e de outros altos integrantes do governo, tanto civis quanto militares. A pasta informou que parte dos recursos utilizados para o plano de desestabilização — 70 milhões de francos da África Ocidental (CFA), aproximadamente 125 milhões de dólares — que se tentou implementar no país para fomentar a ação, procedia da Costa do Marfim. De Uagadugu, informou-se também que continuariam as operações para localizar envolvidos que ainda não haviam sido detidos.

Todas as suspeitas apontam que o chefe do golpe frustrado foi o ex-chefe de Estado, o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, que, em janeiro de 2022, liderou o golpe de Estado dos jovens oficiais burquinenses do Movimento Patriótico para a Salvaguarda e a Restauração (MPSR) contra o governo civil encabeçado por Roch Marc Christian Kaboré, por sua responsabilidade não apenas na má condução da guerra contra as khatibas terroristas que operavam no norte do país, mas também pelas suspeitas de que os recursos destinados à guerra eram desviados para suas contas e para as de outros funcionários daquele governo.

O MPSR seguia firmemente os passos de seus camaradas do Mali, que haviam feito o mesmo no ano anterior exatamente pelas mesmas razões: a corrupção do então presidente Ibrahim Boubacar Keïta e sua equivocada condução da luta contra os terroristas. A essas duas nações somar-se-ia, em 2023, o Níger, onde também foi deposto o presidente “democrático” Mohamed Bazoum pelo Conselho Nacional para a Salvaguarda da Pátria (CNSP), encabeçado pelo general Abdourahamane Tchiani, igualmente alegando as mesmas razões dos dois movimentos precedentes: imperícia na condução da guerra e corrupção por parte de Bazoum, que permanece detido enfrentando sérias acusações pelos motivos mencionados.

As revoluções incruentas que ocorreram nessas três nações, motivadas por razões idênticas, traçaram também um destino comum anticolonialista que se materializou com a criação, meses após o último golpe no Níger, da Confederação de Estados do Sahel (CES), uma aliança essencialmente militar de autodefesa, ainda que também tenda a realizar ações conjuntas nos âmbitos comercial e diplomático. Trata-se de algo inédito no continente e que foi o sonho do coronel Gaddafi e do próprio presidente Nasser, entre muitos outros lutadores anticolonialistas como Lumumba, Cabral, Sankara e um trágico e sangrento etcétera.

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Sem dúvida, o fracasso da tentativa de golpe do último dia 3 contra o capitão Traoré, líder da CES, tem relação com os três processos descritos, que, à primeira vista, poderiam ser conectados aos mais de 200 golpes ocorridos no continente desde a retirada das potências imperiais — França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Portugal e Espanha — que ocuparam a África até os anos 1960, graças aos acordos celebrados na Conferência de Berlim (1884–1885), na qual essas nações dividiram o continente entre si, a seu bel-prazer.

Como é bem sabido, apesar desses processos — em sua grande maioria pactuados — pelos quais os países africanos se tornaram independentes de suas metrópoles, o poder colonial, salvo algumas exceções, continuou vigente até a atualidade, mantendo os processos de espoliação de seus recursos naturais. Isso evitou que algumas dessas nações europeias hoje tivessem padrões de vida semelhantes aos de muitos países latino-americanos. Por essa razão, as três nações membros da CES implementaram de forma idêntica a expulsão de seus territórios tanto de empresas vinculadas às antigas metrópoles imperiais e a seus atuais aliados — os Estados Unidos — quanto da presença militar disfarçada sob o rótulo de operações de ajuda ou treinamento, como as missões Barkhane, Serval ou Sabre. Além disso, obrigaram os Estados Unidos a abandonar, em outubro de 2024, o Complexo 201, uma base de drones próxima a Agadez, no centro do Níger, provocando a reação, manipulada pelo Departamento de Estado, da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que ameaçou invadir o Níger e recolocar no cargo o presidente Bazoum. Isso porque, para o poder no continente aliado aos Estados Unidos e à França, a Confederação de Estados do Sahel é o pior exemplo possível.

Deter e desarticular

O ministro da Segurança Nacional de Burkina Faso, o comissário Mahamadou Sana, ao reiterar a denúncia contra o complô de 3 de janeiro durante uma entrevista coletiva, afirmou que o principal objetivo da manobra era assassinar o capitão Traoré, ao que se seguiria uma intervenção militar terrestre por parte de forças estrangeiras, sem especificar os países aos quais se referia. Ainda assim, para quem acompanha a conjuntura africana, é claro que não podem ser outros senão a Costa do Marfim e a Nigéria, as duas nações que se mostraram mais ativas em outubro de 2023, quando a CEDEAO, então presidida pelo presidente da Nigéria, Bola Tinubu, ameaçou o Níger.

Segundo o ministro Sana, o tenente-coronel Damiba — que governou de janeiro a setembro de 2022, quando foi afastado por seus companheiros, e que posteriormente se exilou no Togo — publicou nas redes sociais que “desejava muito êxito a seu sucessor” (Ibrahim Traoré). No entanto, teria sido ele quem traçou o plano e organizou as operações, mobilizou recursos financeiros e recrutou tanto civis quanto militares, cuja tarefa consistia em distribuir armamento aos grupos já formados por militares da ativa e da reserva, que já tinham missões designadas. Paralelamente, grupos civis deveriam agitar a população para respaldar os militares quando o golpe fosse desencadeado à meia-noite do dia 3.

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O ministro informou que os responsáveis, cujos nomes não foram divulgados, serão levados à justiça. Tanto na capital, Uagadugu, quanto no interior do país, a situação permanecia “sob controle”, razão pela qual a população deveria manter a calma, apesar das manifestações multitudinárias em apoio ao capitão Traoré. Por fim, o ministro Sana apelou à “unidade nacional, coesão social e vigilância”.

Essas manobras golpistas exploram a crítica situação no norte do país, onde atuam as khatibas da al-Qaeda, do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos e do Daesh no Grande Saara, agora com um inusitado reforço de armamentos, que se acredita poder vir diretamente dos Emirados Árabes Unidos (EAU), por conta e ordem do Departamento de Estado dos EUA e de seu equivalente francês, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da França.

Inclusive, algumas versões indicam que tropas de elite do Exército burquinense, junto com efetivos dos comandos russos conhecidos como spetsnaz (comando geral de forças especiais militares e policiais), encarregadas da segurança do capitão Traoré, teriam repelido a incursão de comandos não identificados transportados em helicópteros nas proximidades do palácio presidencial.

O que o ministro da Segurança confirmou foi a detenção de vários insurgentes, entre os quais há militares e numerosos civis. Acredita-se que alguns tenham sido manipulados por diferentes operadores. Apesar disso, o comissário Sana afirmou que todos são penalmente responsáveis, insistindo junto à população para que não se deixe enganar por promessas que jamais serão cumpridas, feitas pelos mesmos elementos que, a partir do interior do país e do exterior, difundiram acusações sobre as supostas ambições ditatoriais do capitão Traoré, afirmando que seu governo não apenas reprime a dissidência, como também realiza detenções ilegais e desaparecimentos forçados.

Acontecimentos como o ocorrido recentemente em Burkina Faso, longe de serem uma raridade, tornaram-se o pain quotidien (o pão de cada dia) dessas três nações, igualmente acossadas pelo terrorismo wahabita, pela pressão da CEDEAO e das potências ocidentais. Isso, quando comparado aos recentes acontecimentos na Venezuela e sem descartar as novas manifestações incentivadas pelo Mossad e pela CIA no Irã, confere-lhes um inegável ar de família.

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