A Bolívia terá, em 17 de agosto, eleições presidenciais e legislativas que podem ser as mais importantes de sua história recente. O bloco popular que governa o país ininterruptamente há 20 anos – com exceção de um período golpista entre 2019 e 2020 – corre o risco não apenas de ser derrotado, mas de nem sequer chegar a um segundo turno dois meses depois.
Os números mostram que os candidatos de direita – o empresário Samuel Doria e o ex-presidente Jorge Quiroga – lideram as preferências com 21,5% e 19,6%, respectivamente. Já o senador Andrónico Rodríguez, o aspirante de esquerda mais bem posicionado, aparece com índices que variam entre 14% e 6,1%, ocupando o terceiro ou quarto lugar.
Rodríguez, que também é presidente do Senado e chegou a ser ungido por Evo Morales como dirigente do MAS, sofreu fortes críticas do próprio Morales, o que prejudicou suas aspirações.
O chamado “voto residual” – ou seja, a soma de votos brancos e nulos – já alcança 34% e vem sendo impulsionado pelo ex-presidente Evo Morales (2006-2019), que se ressente de ter sido impedido pela autoridade eleitoral de disputar o pleito.
O candidato oficialista do Movimento ao Socialismo (MAS), o ex-ministro de Governo (Interior) Eduardo del Castillo, aparece com cerca de 2% das intenções de voto, reflexo direto do desgaste do presidente Luis Arce, cujo governo é responsabilizado por graves problemas nacionais.
Uma terceira candidata de esquerda, a prefeita de El Alto, Eva Copa, embora legalmente inscrita, desistiu de concorrer devido à dureza da disputa interna no campo progressista.
Há duas semanas, Arce fez um apelo público pela unidade da esquerda diante de uma “iminente derrota”, mas a convocatória não teve efeito.
Susana Bejarano, analista política e candidata a senadora pelo Departamento de La Paz, representando a Alianza Popular – bloco que apoia Rodríguez –, avalia que “o momento político é extremamente complexo”, porque “a direita pode voltar para desmantelar todos os avanços; sua proposta é justamente desmontar o Estado plurinacional”.
“Há duas visões de país em confronto: a de um Estado forte e inclusivo, com todos os seus erros, frente a uma proposta que quer reduzi-lo à sua mínima expressão”, continua. “Estamos num momento político muito delicado e, de fato, a direita historicamente nunca teve melhores possibilidades do que agora”, resume.
Para Bejarano, a candidatura de Rodríguez – que poderia ser uma saída para a disputa pessoal e política irreconciliável entre Arce e Morales – acabou sendo atacada por ambos, o que a enfraqueceu. “Podia-se pensar que ele desinflaria essa peleja, mas soaram alarmes de que ele poderia aposentar uma geração política, por ser um renovador da esquerda. Então Evo lança uma resolução chamando-o de ‘o maior traidor dos indígenas’, uma ação política que beneficia diretamente a direita”.
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O que teria de acontecer para que não sejam dois candidatos de direita a irem ao segundo turno?
Cremos que o voto útil vai atuar. Nas comunidades, há um debate político intenso; a possibilidade de desmantelamento do Estado plurinacional preocupa quem se identifica com o progressismo. Um terço do eleitorado ainda não decidiu seu voto – e é aí que há trabalho a fazer. Desses, 80% votaram anteriormente no MAS.
Direita avança para retomar poder na Bolívia após duas décadas de avanços sociais com Evo Morales
A base na Bolívia são as organizações sociais, fator de poder e de incidência eleitoral, mas esse instrumento foi pulverizado na disputa entre “evismo” e “arcismo”, fraturando o bloco popular. Andrónico fez uma varredura nacional tentando recompor a unidade, o que nos dá uma oportunidade eleitoral. Somos testemunhas da politização dessas organizações, que, antes de tomar uma decisão de apoio público ou de manter silêncio, realizam discussões políticas intensas.
Se Del Castillo pedisse voto para Andrónico, isso ajudaria?
Ajudaria no sentido de identificar quem é o inimigo. A guerra pessoal entre “evismo” e “arcismo” é secundária diante daqueles que querem desmantelar o Estado plurinacional. Embora essa guerra seja total para esses personagens – e eu não creio que seja possível colocá-los para conversar –, a fragmentação sempre existiu na esquerda. A anomalia foram os 20 anos de hegemonia.
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Rodríguez não respondeu com entusiasmo ao apelo de Arce pela unidade.
Nem Andrónico nem Eduardo deram importância ao apelo de Arce por uma razão básica: esses candidatos propõem uma renovação dentro do bloco e reconhecem que a luta interna entre Evo e Arce fragmentou o campo popular. A convocatória de Arce, que na cabeça dos bolivianos é o responsável pela crise, não nos beneficia. A solicitação que Del Castillo e Rodríguez fazem a ele é que não se envolva na disputa política, que não pense em unidade da esquerda, mas que administre o país da melhor forma possível, deixando-o saneado – inclusive durante este processo eleitoral.
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