O ministro da Defesa da Rússia, Andrei Belousov, propôs nesta quarta-feira (5) “iniciar de imediato os preparativos para a realização de testes nucleares”, levando em conta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, planeja realizar esse tipo de prova. No entanto, o titular do Kremlin, Vladimir Putin, considerou necessário não se precipitar na tomada de uma decisão.
A esse respeito, o mandatário russo encarregou os ministérios da Defesa e das Relações Exteriores, assim como o Serviço Federal de Segurança (FSB, em russo), o Serviço de Inteligência Exterior (SVR) e outros órgãos governamentais, de “reunir informações adicionais sobre esse assunto, discuti-lo no Conselho de Segurança da Rússia e apresentar uma proposta consensual sobre o possível início dos trabalhos preparatórios para a realização de testes nucleares”.
Segundo a televisão pública russa, isso ocorreu quando, na reunião semanal do Conselho de Segurança, o presidente da Duma (Câmara dos Deputados), Viacheslav Volodin, perguntou a Putin se poderia falar de algo fora da pauta e que, segundo ele, preocupa muito a todos os russos: o tema dos testes nucleares. O chefe de Estado russo, que havia convocado uma reunião sobre segurança no transporte, concordou que se tratava, de fato, de um assunto “sério” e cedeu a palavra a Belousov, que levava por escrito um relatório detalhado.
Belousov falou sobre a retirada dos Estados Unidos de todos os acordos de controle de armamentos, da “modernização acelerada de seu arsenal nuclear” com o novo míssil balístico Sentinel, com alcance de 13 mil km, o submarino nuclear de nova geração da classe Columbia, a chamada Cúpula Dourada (escudo antimísseis), o sistema de foguetes hipersônicos de médio alcance Dark Eagle — tudo isso no contexto do recente anúncio de Trump e das frequentes manobras de suas forças estratégicas, como a mais recente, Global Thunder 2025, “dedicada a desferir um golpe nuclear preventivo”.
O titular da pasta da Defesa concluiu: “À luz de tudo o que os Estados Unidos estão fazendo, é preciso considerar a possibilidade de iniciar de imediato os preparativos para a realização de testes nucleares.”
E acrescentou: “O campo de provas central, no arquipélago de Nova Zembla (no Círculo Polar Ártico), reúne as condições necessárias para garantir sua realização em breve.”
O líder russo pediu a Serguei Naryshkin, diretor do SVR, que revelasse o conteúdo de um recente relatório do embaixador russo em Washington, Aleksandr Darchiyev.
“De acordo com o embaixador, funcionários da missão se reuniram com suas contrapartes em vários órgãos do governo estadunidense, mas nem na Casa Branca nem no Departamento de Estado quiseram esclarecer em que consistia a ordem de Trump de ‘iniciar imediatamente os testes de armas nucleares’, limitando-se a afirmar que informariam seus superiores e que, se estes o considerassem oportuno, fariam os devidos esclarecimentos mais adiante”, resumiu Naryshkin.
Por sua vez, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Valeri Guerásimov, avaliou que o fato de a administração dos Estados Unidos não querer esclarecer o que Trump quis dizer ao se referir a “retomar os testes nucleares” — se seriam explosões em terra e subterrâneas ou apenas testes de armamentos capazes de transportar ogivas nucleares — “não é motivo para acreditar que os Estados Unidos não possam iniciar em breve os preparativos ou até mesmo os testes nucleares propriamente ditos”.
“Se não tomarmos as medidas adequadas agora, teremos perdido tempo e a possibilidade de reagir de modo oportuno às ações dos Estados Unidos, pois para realizar um teste nuclear são necessários de vários meses a alguns anos”, concluiu o militar.
Serguei Shoigu, secretário do Conselho de Segurança da Rússia, afirmou que “não está claro se os Estados Unidos vão ou não retomar os testes nucleares”, já que, após o anúncio de Trump, houve diversas declarações contraditórias.
Coube ao diretor do FSB, Aleksandr Bortnikov, observar: “A situação não é simples: é bastante complexa e precisamos abordá-la com seriedade; há muitas perguntas sem resposta, creio, antes de podermos tomar a decisão adequada”. Bortnikov encerrou sua intervenção pedindo tempo a Putin para “compreender a fundo tudo o que se relaciona a esse tema e poder formular” recomendações.
O mandatário, ao aceitar o pedido de Bortnikov, lembrou que a Rússia não realizará testes nucleares enquanto os Estados Unidos e outras potências nucleares respeitarem a moratória de fato iniciada por Moscou, seguida por Washington e, depois, por Pequim.
Esclarecimentos russos
Em 30 de outubro, o Kremlin fez uma declaração para ressaltar que não realizou nenhum ensaio nuclear, e que apenas testou duas armas de nova geração: o míssil de cruzeiro Burevestnik e o submersível não tripulado Poseidón, que utilizam propulsão atômica.
“Esses testes não podem, de forma alguma, ser interpretados como ensaio nuclear”, afirmou o porta-voz Dmitri Peskov, que reforçou: “A Rússia é um país soberano e tem o direito de tomar decisões soberanas. Todos os países desenvolvem seus sistemas de defesa, e isso não equivale a um ensaio nuclear”.
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O esclarecimento de Peskov se deveu às instruções dadas por Trump ao seu Departamento de Guerra, por meio de sua conta na Truth Social, também em 30 de outubro, para que começasse a testar imediatamente as armas nucleares estadunidenses “em igualdade de condições e em razão dos programas de testes de outros países”, sem especificar quais.
Não ficou claro se Trump se referiu ao lançamento de armamento nuclear ou capaz de portar ogivas desse tipo, em fase experimental na Rússia, ou a ensaios nucleares propriamente ditos, isto é, explosões sobre a terra ou subterrâneas. Porém, Peskov advertiu que, se Washington deixar de observar a moratória sobre testes nucleares, Moscou se reserva o direito de fazer o mesmo.
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“Quero recordar o que o presidente (Vladimir) Putin declarou em várias ocasiões: é evidente que, se alguém abandonar a moratória, a Rússia procederá da mesma maneira”, apontou o porta-voz.
A União Soviética realizou seu último teste nuclear em 1990; os Estados Unidos, em 1992; e a China, em 1996. Desde então, as três grandes potências mantêm uma moratória sobre esse tipo de explosão.
Análises sobre os testes
No segmento russo das redes sociais, muitos se perguntam por que agora Putin anunciou os “testes bem-sucedidos” de dois sistemas de armas que começaram a ser desenvolvidos há seis anos e que, segundo especialistas, ainda não estão prontos para entrar na fase de produção em série.
Dentro do debate, predominam duas hipóteses: alguns acreditam que o Kremlin pretende advertir a Casa Branca para que desista de fornecer à Ucrânia seus mísseis de cruzeiro Tomahawk e outros tipos de armamento de longo alcance. Outros consideram que o objetivo seria pressionar Trump a aceitar prorrogar por mais um ano as restrições quantitativas do Tratado START-III, o último acordo de desarmamento nuclear em vigor, que vence dentro de alguns meses, para depois negociar um novo documento.
Independentemente da razão, causa surpresa ao analista Yuri Fiodorov que Putin apresente o míssil Burevestnik e o submersível Poseidón, ambos de propulsão nuclear, como “armas já prontas para uso e sem equivalente no mundo”.

O especialista questiona por que a Rússia precisaria de um artefato como o Burevestnik, capaz de voar mais de 14 mil km, se seus mísseis intercontinentais já podem atingir qualquer ponto dos Estados Unidos a distâncias muito menores. Ele também observa que o Poseidón dificilmente poderia chegar ao seu destino, já que apenas um submarino — o Belgorod — está preparado para transportá-lo e, em caso de guerra, provavelmente seria destruído antes de poder lançá-lo.
Para Fiodorov, o míssil balístico Sarmat, que Putin assegurou ser menos potente que o Poseidón, ainda não está pronto, pois, das quatro provas realizadas com esse míssil, apenas a primeira foi bem-sucedida. No último teste, em setembro de 2024, o foguete explodiu na própria rampa de lançamento.
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Há também comentários sobre o míssil balístico Sarmat, que desde dezembro de 2022 é anunciado pelo Kremlin, mas ainda não foi implementado. “Ninguém tem um míssil como o Sarmat. Ainda não o implantamos, mas em breve estará à disposição do exército”, afirmou Putin em outubro último.
Reações ao Burevestnik
Em 27 de outubro, um dia após a realização de um teste com o míssil russo Burevestnik, de longo alcance e propulsão nuclear, a Rússia defendeu seu direito de garantir sua segurança “diante do militarismo europeu” e afirmou que a prova não agrava a relação entre os EUA e a nação russa.
“Não há nada que possa tensionar a relação entre Moscou e Washington, que já se encontra em seu nível mais baixo. É de importância vital garantir a segurança da Rússia, sobretudo no contexto dos ânimos militaristas que estamos vendo na Europa”, afirmou o porta-voz da presidência russa, Dmitri Peskov.
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“Os europeus, de fato, estão presos em um estado de histeria, russofobia, agressividade e belicosidade. Diante dessas condições, a Rússia faz todo o possível para garantir sua segurança, e o faz de maneira consequente”, acrescentou.
Peskov reforçou não acreditar que o teste do míssil possa deteriorar ainda mais a relação com os Estados Unidos, a qual piora por “medidas tomadas contra” Moscou, em referência às recentes sanções da Casa Branca. No entanto, a Rússia, em conformidade com seus interesses, “segue aberta ao diálogo” com os Estados Unidos, salientou.
EUA criticam o teste
Os Estados Unidos, por sua vez, consideraram “inapropriado” o ensaio com o Burevestnik: “Não creio que seja apropriado. Uma guerra que devia ter durado uma semana já está prestes a completar quatro anos. Isso é o que ele (Putin) deveria fazer, em vez de testar mísseis”, disse o republicano.
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Trump, que se recusa a se reunir com Putin sob o argumento de que deve haver sobre a mesa um acordo político para a guerra na Ucrânia, fez a crítica em 27 de outubro, afirmando que os EUA não precisam de um míssil que possa voar tantos quilômetros, já que têm um submarino nuclear em frente às costas da Rússia.
“Temos um submarino nuclear, o melhor do mundo, em frente às suas costas (da Rússia). Então, bem, não é preciso percorrer 8 mil milhas (cerca de 13 mil km)”.
Acordo sobre excedentes de plutônio
Enquanto isso, o titular do Kremlin promulgou, também em 27 de outubro, a lei que denuncia o acordo entre os governos da Rússia e dos Estados Unidos para a gestão e eliminação dos excedentes de plutônio com fins militares.
O acordo, assinado em 2000 e ratificado 11 anos depois, previa a eliminação, por cada parte, de 34 toneladas de plutônio consideradas excedentes em programas de armamento. O pacto já estava suspenso por decreto presidencial devido às sanções impostas pelos Estados Unidos após o início da guerra na Ucrânia.
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Agora, com essa lei, a ruptura foi formalizada, assim como foi dado por encerrado o cumprimento dos respectivos protocolos, entre eles os que regulam o financiamento e a responsabilidade civil por danos.
Além disso, enquanto Trump tornava público seu desejo de se reunir com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, aproveitando sua viagem pela Ásia, Putin recebeu no Kremlin a chanceler norte-coreana, Choe Son-hui, que também se reuniu em 27 de outubro com seu homólogo russo, Serguei Lavrov.
Os chefes das diplomacias russa e norte-coreana coincidiram em condenar “as ações agressivas dos Estados Unidos e de seus aliados, que são a principal causa da tensão na Península Coreana, no nordeste da Ásia e no mundo em geral”, aponta o comunicado divulgado pela chancelaria russa.
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Lavrov, além disso, “expressou o total apoio da Rússia às medidas adotadas pelo governo da Coreia do Norte para defender sua soberania e garantir sua segurança”.
Acordo entre Rússia e Venezuela
Enquanto a Casa Branca eleva o tom de suas ameaças ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela, Putin promulgou, em 27 de outubro, a lei que ratifica o Tratado de Associação Estratégica entre Moscou e Caracas, assinado na capital russa no último 7 de maio.
O documento amplia a cooperação em matéria de energia, mineração, transporte e comunicações, assim como em segurança e combate ao terrorismo e ao extremismo, entre outros aspectos da relação bilateral.
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